A consciência colectiva

Preciso de me relembrar com frequência de Spartacus, Django, Rosa Parks, Luther King, Biko, Mandela, Waris Dirie, Gandhi, Amílcar Cabral, Anne Frank, Zeca Afonso… (a lista não tem fim, entre vivos e desaparecidos, entre mais antigos e contemporâneos, anónimos e conhecidos).
Uns são mais conhecidos que outros. Milhares são totalmente anónimos. Uns mais sofridos que outros. Alguns são apenas alguns, no meio de milhares de desconhecidos. Mas todos têm algo em comum. Fizeram da sua vida a consequência de más acções do Homem. Acções que determinaram a nossa História.

Estes homens e mulheres foram obrigados a acatar as ideologias e tradições das várias épocas através dos três D´s:

Domínio, Diferença, Descriminação. E um E- de Exclusão através de um R- de Repressão!

Tais filosofias políticas ou políticas filosóficas nascem com a imposição dos três P´s: Pano (para vestir),Pão (para aguentarem o trabalho), Pau (para andarem na linha). Ao longo da história D´s e P´s foram apenas sofrendo pequenas nuances.

Andamos distraídos com faits-divers, adorando e transformando imbecis em celebridades, querendo visibilidade a qualquer preço,esquecendo os que sem imaginarem mas sem testemunhas, transformaram verdadeiramente o mundo.  Estes seres são também a nossa consciência colectiva. São as nossas referências. Do mundo como foi. Do que conquistámos e do que evoluímos. Estes homens e mulheres sofreram na primeira pessoa aquilo que os seus pares da raça humana de pior decidiram – em diversos períodos negros- na História Universal. Estes seres foram a luz. Fizeram parte da acção de mudança. Individualmente reagiram em nome do colectivo. Por sua causa o colectivo progrediu. Por sua causa o mundo tornou-se mais rico em valores. Fizeram cair degradantes sistemas políticos, tradições humilhantes vindas das filosofias políticas dos três D´s.

Individualmente não se deixaram dominar, adaptar ou perder a consciência. Foram mais longe, por amor aos outros. Para libertar o colectivo de decretos e imposições. O medo não os dominava. Talvez tivessem medo de não serem suficientemente fortes, mas nunca sucumbiram ao medo de não tentarem. A passividade nunca levou nenhum homem a evoluir. O seu contrário sim. Foram escravizados, colonizados, excisadas, reprimidos, brutalizados, segregados, porque assim foi decretado e imposto, por homens que fazem leis e, inventam dogmas religiosos com o objectivo de fazer cumprir desígnios que Darwin avançou sobre a espécie humana. A imposição da lei do mais forte. Por ganância, poder e egoísmo em todos os casos. E índices anormalmente elevados de testosterona. Usando por veículo, a visão mais distorcida da espécie. Como o é a agenda desta forma de capitalismo que mata e tem por objectivo queimar terra por onde se globalize. Uma luta sem tréguas entre as forças das trevas chamadas dinheiro,acções,lucros e os extirpados da dignidade.

A raça humana é descendente destes homens e mulheres. E de tantos outros como eles. Que merecem ser lembrados. Foram vítimas. Involuntárias. Tornaram-se sobreviventes encapsulados na dignidade do ADN humano que nos representa colectivamente.

Não faltam previsões sobre o final do ser humano no planeta. A natureza sabe regenerar-se sem o vírus humano mas nós nunca saberemos como existir sem esta casa. E todos os decretos que criamos, que podem acabar com a espécie, podem ser por nós destruídos, antes do final.

Os processos kafkianos do Ministério da Verdade (de 1984 de George Orwell) são o prato forte de cada dia de hoje nos pratos que servimos na cantina do Ministério da comida. E, quem se atrever a falar o que pensa, atrevendo-se a ser diferente, de forma arrojada e crítica é “morto” socialmente. Pode tornar-se até um perigoso “conspirador”, instigador ou até um correio de “fake news” e ser banido.

Temos a obrigação moral e colectiva de fazer o que certo e reinventarmos as acções de quem defendeu e morreu por direitos universais. Morreremos como indivíduos se não tentarmos materializar em vida algo que nos distinga como o fizéram estes nossos pares. Individualmente, a bem do colectivo, chegámos à Constituição da Carta Universal dos Direitos do Homem.

Para sacralizar a memória dos justos, por nós, por quem está mais vulnerável, somos obrigados a saber, a ter consciência e a dar luta ao monstro que nos suga a alma.

O que é conquistado por um individuo tem o esforço, a memória e o modelo do colectivo. Nenhum colectivo atinge a evolução sem o esforço, a determinação, a coragem e a memória vinda de um individuo que um dia rompeu com as imposições decretadas por três D`s e três P´s. Se repararem com atenção, as ditaduras não estão ao virar da esquina, estão já a acontecer.

Anabela Ferreira

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *