A COVID-19 e a “Doutrina do Choque” na Educação

Há muito que os capitalistas, os seus governantes e os seus ideólogos (e também, e muito em particular, os seus agentes da repressão, das polícias aos serviços de informações…) aprenderam, desenvolveram e praticaram aquilo que a jornalista e activista canadiana Naomi Klein justamente apelidou, na sua obra de 2007 com esse título, de “Doutrina do Choque”.

A “Doutrina do Choque”

E em que consiste tal “Doutrina do Choque”? Consiste em aproveitar o momento e o estado de Choque provocado, por exemplo, por um terrível acidente ou uma trágica catástrofe natural, ou até por autênticas campanhas de “gestão científica do medo” (o medo de não haver dinheiro para salários, o medo do “outro”, do estrangeiro, do diferente, do “terrorista”), para fazer então aprovar medidas, políticas e leis para as quais, em condições normais, não haveria força suficiente para adoptar e executar.

Um dos exemplos “clássicos” da defesa e aplicação desta “Doutrina do Choque” é o do economista e membro da famigerada Escola de Chicago, Milton Friedman, um dos grandes ideólogos de governos como os de Pinochet, Nixon, Reagan e G.W. Bush.

Acontece que, em 2006, o furacão Katrina arrasou praticamente todas as zonas pobres da cidade americana de Nova Orleães, provocando cerca de 2.000 mortos e milhares e milhares de desalojados. Casas, hospitais e escolas foram então completamente inundadas e reduzidas a escombros. Ora, enquanto para a generalidade dos povos essa enorme tragédia provocou uma grande e incontida comoção, a burguesia norte-americana e os seus ideólogos, com Milton Friedman à cabeça, viram (tal como ele próprio escreveu, três escassos meses após o furacão, num editorial do “Wall Street Journal”) uma excelente “oportunidade para reformar de forma radical o sistema educativo”, leia-se, uma magnífica oportunidade para os capitalistas e os seus representantes políticos privatizarem quanto pudessem e assim aumentarem os seus lucros.

Na verdade, a quase completa destruição da cidade impunha como primeira prioridade a sua reconstrução. Mas para a classe capitalista tratava-se de fazer a reconstrução mais conveniente para os seus próprios interesses, sendo necessário, para a impor, que se aproveitasse a fragilidade e o atordoamento da população causados precisamente pelo tremendo choque da tragédia.

O governo de G.W Bush usou então milhões de dólares para converter escolas (e depois também os hospitais), de instituições públicas que eram, em escolas licenciadas para privados, que as passaram a gerir de acordo com os seus próprios interesses e critérios. Dos 4.700 professores que foram então despedidos, apenas uma minoria conseguiu voltar a ser contratada, mas com salários muito mais baixos. Desta forma, antes que a população mais pobre da cidade, maioritariamente negra, tivesse consciência do que verdadeiramente estava a ser levado a cabo, em ano e meio todo o sistema público da educação da cidade foi substituído por escolas de gestão privada, onde os direitos civis daquela população (designadamente o da educação igual para todos) retrocederam drasticamente.

Mais recentemente, e entre nós, vimos claramente como a violência anti-trabalhador das medidas do chamado “Memorando de Entendimento com a Tróica” e a sua justificação ideológica foram usadas para criar uma ansiedade e uma angústia permanentes acerca de qual medida, mais gravosa e até mais terrorista do que as anteriores, iria ser, em cada dia, atirada para cima dos trabalhadores, procurando, com esta técnica, paralisá-los na sua capacidade de reacção e de revolta.

Claro que esta “Doutrina do Choque” foi, e é, sempre acompanhada de uma insistente, martelada e mesmo asfixiante propaganda ideológica assente naquilo que não passa de opções políticas e económicas mas que surgem sistematicamente embrulhadas em pretensas máximas, tão atractivas como aparentemente indiscutíveis, tais como: “o mundo mudou e nós também temos que mudar”, “quem não se adapta, morre”, “uma crise não deve ser vista como uma dificuldade mas antes como uma oportunidade”, a qual “não deve jamais ser desperdiçada”, etc., etc..

E também – tal como já sucedeu nos tempos de antes do 25 de Abril e, depois, nos da Tróica – logo se atacando quem, apesar de tudo, se atreva a resistir ou simplesmente a divergir, com epítetos como o de “retrógrado”, “velho do Restelo” ou de “piegas”, não se hesitando em o execrar publicamente como alguém que só entorpece a “grande unidade” em torno das medidas que, beneficiando do estado de choque em que nos encontramos, se aproveitou entretanto para, e com a maior celeridade possível, aplicar. E, mais grave do que isso, para se tentar apresentá-las e impô-las como algo de irremediável e de definitivo.

Os dois dogmas: “nada como dantes” e “o novo normal”

É dentro desta mesma lógica que agora, um pouco por toda a Europa e de uma forma particular em Portugal, as versões recauchutadas e maquilhadas dessa “Doutrina do Choque” assentam nestes autênticos dois dogmas, repetidos pelos ideólogos e “opinadores” do sistema até à exaustão: o de que, após esta crise pandémica, “nada poderá ser, nem nada será como dantes” e o de que, em vez de nos perdermos naquilo que é sobranceiramente designado por “discussões estéreis”, nos devemos empenhar é em nos prepararmos para o “novo normal”.

A título de exemplo, e para não irmos mais longe, vejamos como nos procuraram e procuram convencer de que “é normal” – e, logo, legítimo – que haja drones (sejam eles de autoridades administrativas, de polícias, de forças militares ou até de “serviços de informações”) por toda a parte, pública e privada, a vigiar terrenos, estradas, cidades ou praias, filmando livremente tudo e todos os que neles se encontrem ou que por eles passem, com recolha de dados sobre aquilo que cada um de nós faz em cada momento, sem que se saiba, muito menos se controle, quem, como, porquê e para quê, armazena, trata e utiliza esses dados.

Deste modo, com a invocação de que é correcto e legítimo vigiar sejam zonas passíveis de incêndios, seja o respeito por regras de confinamento geográfico ou de distanciamento social (inclusive nas praias ou até no mar!?), pretende agora impor-se este rigoroso e policiesco controle dos cidadãos, destrutivo de alguns dos seus mais fundamentais direitos, liberdades e garantias, como um “novo normal” que pura e simplesmente teríamos de aceitar com “naturalidade”.

Por outro lado, já sabemos também que a Comissão Europeia, os governos dos Estados-membros (inclusive o português) e as grandes operadoras de telecomunicações estão a tratar da instalação de uma aplicação (app) nos telemóveis que, sob o pretexto do combate à pandemia, permite determinar não apenas a identificação e localização de um determinado cidadão (para já, alegadamente suspeito de estar infectado), como também de todas as pessoas de quem ele esteve próximo em cada período de tempo. 

Claro que, por agora, se diz e se garante que tal app será voluntária, mas todos nós sabemos quão rapidamente, em nome do combate, seja à pandemia, seja a qualquer outro “perigo social”, essa voluntariedade tenderá a ser substituída, em particular relativamente a cidadãos mais vulneráveis como os trabalhadores precários, por exemplo, por diversas modalidades de obrigatoriedade (também sempre acompanhadas da tal pegajosa propaganda de “o mundo mudou e nós também temos que mudar” e este é o “novo normal” a que temos de nos submeter).

Se não reagirmos perante este verdadeiro tsunami securitário espraiado a coberto do choque da COVID-19, acontecer-nos-á o mesmo que à população pobre de Nova Orleães. Isto é, quando finalmente nos apercebermos do que verdadeiramente está em marcha, já o facto consumado estará criado e será então muito mais difícil combatê-lo.

Todo este processo de “normalização” e de “legitimação” de práticas e formas de governação próprias de regimes ditatoriais se está a passar em todos os sectores da nossa sociedade, e todos eles devem merecer a nossa atenção, a nossa reflexão e a nossa oposição.

O “choque” no ensino em Portugal

Há, contudo, um sector em particular onde esta problemática atinge uma ainda maior especificidade, e gravidade também, e que é o do Ensino.

Aqui, a tudo o que já foi referido, se soma agora um certo e presunçoso fetichismo tecnológico[1], um particular e sobrevalorizado relevo dado às estatísticas (para não dizer às meras aparências) e uma completa ausência de pensamento estratégico e de real debate sobre o mesmo.

Assim, sob o mesmíssimo discurso legitimador da “Doutrina do Choque”, aquilo a que estamos hoje a assistir é à automação ou computação do ensino nos seus vários graus, com aulas, testes, sistemas de controle de alunos e regimes de avaliação a serem definidos e executados em função do que as tecnologias à distância possibilitam e, mais do que isso, elas alegadamente impõem…

Relativamente ao chamado telensino – como, aliás, também ao teletrabalho – em vez de alternativa de emergência e de complemento aceitável e até desejável, mas sempre mero complemento, aquilo que se está a projectar e, mais do que isso, a impor já – como o dito ”novo normal” no ensino, em todos os seus níveis – é a sua natureza de regime-regra, que teria afinal vindo para ficar.

Assim, perante a impossibilidade – imposta pelas regras que foram definidas para o combate à COVID-19 – da realização de aulas e de exames presenciais, foram discutidas, definidas e implementadas formas de “ensino à distância”. Com aulas dadas para um écran de computador, em muitos casos sem sequer se ver a cara de quem quer que seja, num processo de “coisificação” do ensino que nada tem que ver com a essência deste, a qual se baseia no relacionamento inter-pessoal e na troca, não apenas de conhecimento (que já é bem mais do que mera informação), mas também de vivências, de sentimentos e da sua expressão, de emoções, tudo isso necessariamente no âmbito do convívio inter-pessoal, directo e frontal.

Não compreender isto significa não entender, pior, não querer entender que, com este ensino à distância, os alunos aprendem muito pouco, quer enquanto estudantes, quer enquanto cidadãos, e que a Escola, qualquer que seja o seu grau – e que deve servir também para a formação cívica (formar cidadãos activos e conscientes e não “carneiros” sociais) –, deixa de o fazer.

O relacionamento inter-pessoal, a emoção e a compreensão recíprocas, a capacidade de nos entendermos, às vezes por um simples olhar, de nos entusiasmarmos e, simultaneamente, de nos respeitarmos enquanto pessoas, livres, iguais, mas tão diferentes entre si, tudo isso não existe no tal ensino online. O qual tem, contudo, a enorme “vantagem” de, como todos os professores já têm experiência acumulada, não só impor enormes cargas e ritmos tão infernais quanto padronizados de trabalho, como também – e esta é que é a questão! – de permitir diminuir o número de professores necessários e “resolver” assim a falta crónica dos mesmos, em particular no ensino básico e secundário, mas também no superior.

O máximo aproveitamento da COVID-19

O aproveitamento da crise da COVID-19 como uma oportunidade para impor um sistema computorizado de ensino, sem verdadeiro relacionamento quer individual, quer colectivo, fornecedor das quantidades e sobretudo da qualidade de informação previamente definidas e impostas largamente, destrutivo da individualidade e criatividade de cada docente e instrumento da transformação, cada vez mais evidente, da lógica da Escola na lógica da fábrica é, afinal, a demonstração de como as teses do capitalismo da época contemporânea se preparam, e muito rapidamente (a tempo de aproveitar o efeito de “choque”), para se impor entre nós, também no Ensino.

Por outro lado, este processo é também significativamente acompanhado de uma violenta e porventura definitiva erosão do (pouco) que restava da gestão democrática das Escolas, designadamente as do ensino superior. Em nome da “velocidade” e da “eficiência” que a época da automação impõe, as derradeiras competências de órgãos como os Conselhos Científicos, Pedagógicos e de Escola são, na prática, reduzidas, quando muito, às aparências de “auscultações” que não auscultam coisa ou opinião nenhuma porquanto tudo já vem e já está decidido “de cima”, isto é, pelas autoridades executivas máximas, dos Reitores aos Presidentes e Directores de Escola.

E quando se chega às avaliações, o paroxismo é mesmo total. Antes de mais, como não há tempo, nem disponibilidade, nem sobretudo vontade para outra coisa, multiplicam-se os testes de “cruzinhas” (ditos de “escolha múltipla”), mesmo em Ciências Sociais, onde a discutibilidade e a discussão de várias teorias e a capacidade de raciocínio e de argumentação são relevantíssimas, mas não podem ser avaliadas dessa forma (que, porém, é eficiente para “despachar” em larga escala testes e exames). 

Depois, como os ditos testes ou exames não são presenciais – e claramente se pretende que não o sejam, para já nos tempos mais breves (incluindo o próximo semestre), de seguida para todo o próximo ano lectivo, mas depois eventualmente ad aeternum[2] – e é preciso garantir uma aparência do mínimo de autenticidade e credibilidade das avaliações[3], vá de começar a decretar e a tentar impor, designadamente nas Universidades, meios de controle à distância de todo ilegais e inconstitucionais, tais como  a obrigatoriedade – mesmo sem autorização da Comissão Nacional de Protecção de Dados – de que os alunos tenham computadores com câmara e a liguem durante toda a prova. Se os alunos a isso não se dispõem, então decreta-se que, nesse caso, eles podem ser chamados a uma prova oral e, se nela não ligarem a câmara, serão reprovados. 

Num frenesim que nada tem que ver com rigor no ensino e na avaliação, e antes com a preocupação, às vezes única, de realizar de qualquer forma os ditos exames e de poder apresentar as respectivas estatísticas, tão impensáveis à manutenção dos lugares nos rankings das Escolas, vá de impor tempos muito curtos para as respostas (a aposição das cruzinhas nos ditos testes) e até a técnica de os dividir em secções, obrigando assim o aluno a submeter para correcção sucessivamente cada uma de tais secções, ficando impossibilitado de voltar atrás e corrigir algum erro de que entretanto se haja apercebido. Mas, realmente, para que é que, em toda esta lógica, interessaria aprender e treinar a correcção dos próprios erros?… Em alguns casos até (os da imposição das câmaras ligadas) trata-se também de ter equipes alargadas de (menos) professores/(mais) vigilantes que afanosamente procuram topar algum gesto suspeito de algum dos assim longa e rigorosamente vigiados alunos.

Uma vez aqui chegados, torna-se evidente que aquilo de que verdadeiramente se trata é de, à “boa” maneira da “Doutrina do Choque” de Milton Friedman, aproveitar, e à máxima velocidade e com a maior extensão possível, a “oportunidade” da COVID-19 para impor uma violenta reestruturação capitalista do sistema de ensino, a qual, noutras circunstâncias, não seria possível.

Que ensino e que educação são estes?

A difusão e recepção do conhecimento faz-se, assim, cada vez mais, ao serviço dos interesses económicos imediatos, da eficiência de curto prazo, do saber superficial e instantâneo, em detrimento de uma cultura verdadeiramente científica, feita de reflexão crítica e de conhecimento profundo. E deste modo se formam aqueles homens e mulheres de “sucesso” que, mais tarde, pouco ou nada sabendo de História, de Filosofia ou até de Ética, e desconhecendo o que sejam princípios como os da justiça ou da solidariedade, agindo na individualidade máxima, proclamando orgulhosamente que não lêem mails com mais de duas linhas, desprezam a dignidade dos que têm sob as suas ordens, sob o pretexto de que, tal como lhes foi sendo inculcado, inclusive na própria Escola, a legitimidade do fim (a busca do maior lucro) plenamente justifica tais meios – é, enfim, a reprodução do modelo e dos valores das relações sociais de produção capitalista em todo o seu esplendor…

Não teremos é Educação, nem Ensino que sirvam os interesses do povo português. Mas o que é que isso importa para os seguidores de Milton Friedman e da sua teoria?

Se e enquanto os cidadãos, paralisados pelo receio da pandemia, narcotizados pelo discurso do unanimismo social e iludidos e manipulados pelos slogans do “novo normal”, não reagirem e não combaterem aquilo que é errado e injusto, teremos – de forma bem mais semelhante ao que se passou em Nova Orleães do que muitos julgariam – bem menos professores, bem mais alunos/autómatos formatados, porventura melhores estatísticas e decerto excelentes poupanças orçamentais. 

Pagaremos decerto muito caro, enquanto povo e enquanto país, estas opções e estas medidas. Mas se, para já, o que predomina é a contínua pregação dos ideólogos do pensamento dominante (e a segregação de todos quantos ousem criticá-los) é bom lembrar, como Miguel Unamuno, que eles poderão, por ora, vencer porque lhes sobra a força, mas não poderão nunca convencer porque lhes falta a razão!

António Garcia Pereira


[1] Propagandeando criticamente como “neutrais” e, logo, necessariamente positivas todas as NTCI’s (Novas Tecnologias da Comunicação e Informação) que vão surgindo, e esquecendo que, representando assinaláveis progressos científicos e tecnológicos, constituem um poderoso factor de aceleração, quer do bem, quer do mal, tudo dependendo dos interesses aos serviços dos quais elas sejam colocadas.

[2] Parece hoje evidente que as diversas Escolas da Universidade de Lisboa, sob a direcção do respectivo Reitor, não obstante as recomendações no sentido de um regresso calmo, lento e seguro às aulas e exames presenciais, já decidiram que nem no próximo semestre o farão. A única excepção será, porventura, a das Faculdades de Medicina, perante a firme posição da Ordem dos Médicos de não aceitar legitimar cursos com aulas laboratoriais e autópsias online

[3] Sendo certo que com a exiguidade do número e o cansaço dos inspectores de educação – há, no ensino básico e secundário, para mais de 800 agrupamentos de escolas apenas 166 inspectores, 74% dos quais com mais de 55 anos – o auditar das avaliações não passa de uma quimera.

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