A culpa disto tudo é do meu pai!

Um dia estava eu num departamento de migração a tratar de documentos como quase-residente nesse país africano, e, com todo o processo atrasado – como era aliás a norma – em resposta à minha pergunta “qual a razão do atraso? recebi um sorriso irónico de quem me vê como “branca”, culpada, e, de imediato veio a explicação:

-”Menina, tu és filha do colono”!

Claro! Percebi! Pago hoje por quinhentos anos de colonização!

O meu pai trouxe e deixou os maus hábitos de exploração e também a vingança. Os locais fizeram o “download do upgrade” ou em português, o aprimoramento dos maus hábitos. O meu pai cortou cabeças, explorou e usou, colonizou, agora a filha recebe a vingança servida fria.

Quase zanguei. Fiquei-me pela tristeza. Fruto de se olhar para situações fora do seu contexto histórico. Por isso algumas situações não são politicamente correctas. São apenas estúpidas.

Pai, tens de fazer um acto de “contritione” por me teres explorado e não contente, casado, com a minha mãe mulata. Agora deixas-me este legado.

Nasci num solo do continente africano, de várias origens, fruto de um branco tão puro quanto pode ser um descendente de árabes, celtas, romanos e ciganos e… com uma mestiça, esta última filha de mestiços, de brancos donos de escravos parentes do meu pai, e, algures na linha, de pretos escravos, vendidos por outros pretos donos de escravos aos brancos, ou simplesmente roubados, que vieram a partilhar ou a violar a cama – ou o fardo de palha – com uma preta, que deu origem aos meus avós. Confuso? Nem por isso.

São as origens que nos unem. São mais comuns que aquelas que nos separam. Daí ser o racismo apenas digno dos representantes mais acéfalos da espécie humana.

Aquela mulher da migração não entendia as razões de eu ter tanto orgulho numa origem quanto noutra. No pai colonizador e na mãe mestiça. Na cor e na raiz, de donos de escravo e neta de escravos.Na mesma medida tenho vergonha do que fizeram os meus antepassados que me venderam e nos que me compraram e revenderam e abusaram. Como é que me hei-de sentir se sou filha de um descobridor,esclavagista, explorador, colonizador? Apenas uma pessoa bastante normal com uma herança complicada. Eu e milhões.Porém disposta a compreendê-la,aceitá-la e a viver com o resultado.

No contexto dos Descobrimentos, ou nalguns lugares da Colonização – a imposição bárbara de um povo sobre outro – praticávamos o que era normal e regra: cortar cabeças, bater, estropiar,escravizar, roubar,saquear. Hoje é diferente? Apenas nalguns (poucos) lugares. Colonos e exploradores foram substituídos por outros que usam as mesmas armas e estratégias de domínio. Sem surpresas. Os povos Ingleses, Franceses, Holandeses, Espanhóis fizeram-no depois de nós Portugueses termos aberto os mares e descoberto as rotas marítimas. Hoje estão presentes nos lugares que exploraram, com ONG´s, como forma de pedir perdão por um lado, e, por outro, conseguir uns bons contratos de parceria (chamadas inteligentes).

O meu pai, culpado, deixou algumas coisas interessantes e boas mas que não se querem preservadas por serem como na memória daquela senhora: “filhas do colono”. De tudo o que foi deixado de mau, criaram versões modernas, melhoradas e sofisticadas. Como disse Mia Couto “ …em vez de produzir riqueza produz ricos”. E ignorantes. Alguns sabem apenas fazer o nó da gravata e usar o cartão de crédito com um Dr atrás do nome. Chama-se a isto desenvolvimento. (?) Em Portugal também se desenvolveu a “app” da estupidez e da ignorância ao tratar os irmãos pretos ainda com racismo e preconceito. Olhem que há, olhem que há! 

Envergonho-me dos crimes cometidos pelo meu pai e peço desculpa àquela mulher, minha irmã também ela, algures numa cadeia do elo genético, filha de um colono, ou escrava vendida por algum régulo da sua aldeia ou roubada por algum branco explorador. Aos olhos dos dias de hoje os crimes de ontem são impensáveis e absolutamente condenáveis não são? Contudo hoje continuamos as mesmas práticas dos nossos antepassados apesar de conhecermos os Direitos Humanos – desconhecidos à época.

Então, todos devemos um pedido de desculpa a todos. Somos espelhos uns dos outros e o que andamos cá a praticar não é bonito. Somos doentes. Esquecemos – ou nunca nos lembramos – da solidariedade, da igualdade, da bondade, aquela que abre portas e corações. A menos que seja a um deus (em minúscula) esquisito que nunca vimos. O dinheiro.

Ontem com a escravatura nos ventres dos navios negreiros, hoje com os que fogem da escravatura somos os mesmos. Preferimos salvar bancos a barcos com migrantes expulsos. Preferimos a guerra. Preferimos cortar cabeças, escravizar, explorar e saquear. Preferimos a deriva. É a nossa história como humanos.

Gostaria que não esquecêssemos algo tão simples. Um dia já todos fomos migrantes em barcos perdidos nos mares – nos caminhos um dia descobertos pelos Portugueses – por terras sem nome. Assim se construiu o que hoje chamamos Pátrias.

Sim, o meu pai é culpado de me ter dado um complicado gene Português que tem todos os genes misturados e de o ter mestiçado com o preto e branco da minha mãe. Chamo-lhe o gene das descobertas e da humanidade. Por isso, no meu trânsito enquanto humana, de tempestade em bonança, com sorte, por culpa do meu pai, ainda assisto à chegada e ao desembarque da dona liberdade de braço dado com a senhora igualdade, do ventre de uma nau. São as mães engravidadas pelo meu pai. Aquele culpado de quem sou filha.

Este texto tem a pertinência do tempo presente, quando o jornalista João Miguel Tavares em Cabo-Verde (uma das minhas terras de origem) colocou dedos na ferida. Do colonialismo, à forma pouco inclusiva, racista e preconceituosa (digo eu) como os cabo-verdianos são ainda tratados em Portugal. Ou qualquer dos outros povos ontem colonizados por Portugal, onde a Língua Portuguesa é ainda um dos elos de ligação. 

Este texto tem também hoje uma memória. A da morte de Alcindo Monteiro, jovem cabo-verdiano morto num 10 de Junho, às mãos de racistas, em Lisboa.

Anabela Ferreira

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