A demência de Alzheimer

Há um ano escrevi e hoje, dia oferecido para relembrarmos o Alzheimer, deixo aqui de novo a história que contei. Tentei ser uma doente com esta forma de demência – depois de muito estudo e convívio com doentes com a mesma – e pensei como se fosse uma, num qualquer dia das suas vidas. Por cada dia de calendário que passa aumenta o número de casos em todo o mundo. Amanhã posso seu eu ou tu.

Este escrito é dedicada aos cuidadores. Que por norma estão sozinhos. Em Portugal ainda nem sequer lhes é reconhecido um estatuto com direitos específicos. Porque deixam de ter vida própria e vivem em função do seu familiar com a doença.

Uma pessoa com Alzheimer esquece-se de quem é.

Mas os cuidadores familiares lembram-se bem de quem eles foram. Por respeito a esta forma de vida de cuidar de alguém que perdeu a luta da memória este estatuto deveria ser rapidamente aprovado. Com apoios dos impostos que todos pagamos.

Quem somos não se reduz ao nosso final de vida com uma demência. Isto é tudo o que quero lembrar.

Por isso conto a história de um doente. Para preservar a memória.

Sem nunca esquecer que um cuidador é a poesia da vida da pessoa entregue nas mãos dementes do Alzheimer.

Num raro momento de lucidez disse-me Roger, Inglês de 86 anos quando lhe li uma poesia que escrevi para ele. Chorámos juntos.

Em poucos minutos não se lembrava da razão de estar a chorar. Nem do que me tinha dito. Eu rápida apontei. E decidi caminhar numa história calçando os seus sapatos.

Sou…quem sou eu?

“Para escrever poesia uma pessoa tem de caminhar nas linhas limite das emoções”.

A inocência que perdi e a inocência que ganhei estão marcadas pela linha do tempo. Mas não me lembro. O relógio diz que são cinco da tarde, ou qualquer coisa assim. Não sei nem faz mal não saber. Às vezes tenho medo de fazer asneiras e falo pouco. Outras vezes falo muito. Pedem-me para repetir. Mas não me apetece. Sei que falo porque ouço a minha voz a dizer não importa o quê. Tenho obsessões incontroláveis mas não as entendo. Há muito que me esqueci do que digo. Sinto-me como um fantasma que ficou sem corpo na única casa que sempre conheceu mas nunca abandonou. Eu fantasma vagueio insatisfeito, zangado e infeliz sem poder fazer quase nada aos novos ocupantes da minha casa a não ser de vez em quando puxar uns tapetes, atirar uns quadros ao chão, acender e apagar luzes, fechar umas portas e levantar umas mesas ou não votar neles.

Tiro os pratos do lava-loiça e ajeito-os nas gavetas. Os talheres…para que servem os talheres? Guardo lenços na minha mala e também os talheres. Espero que ninguém veja. São todos meus. Escondo os comandos da televisão. Para que servem? Não me lembro. Não faço perguntas para que não me julguem estúpida. Ou até louca. Quem sabe se eles me julgam louca? Não gosto do escuro. Tenho medo e fico muito assustada com o negro sem brilho da noite, por isso preciso das luzes. Assim não me vêm buscar.

Eles, os que vivem aqui comigo ficam ofuscados com a luz. Apagam-nas. Mas eu gosto delas. Não gosto do sol. Brilha intensamente. Vem-me lembrar que eu perdi o brilho. Sei lá. É pura maldade dele. Quero dizer – eles não entendem – que não me lembro sequer se faço estas coisas que digo. São pequenas partidas com efeitos menores.

Poder-se-ia dizer – lendo-me o pensamento – que o fantasma perdeu a inocência.

Mas o fantasma de mim própria que sou eu, não irá combater fogo com fogo. Sou mais esperta. Sou eu ou é o fantasma? Não sei nem me vou aventurar em perguntar em voz alta. Se me ouvem julgam-me louca. Incomoda-me que falem. Confundem-me. Se me perguntam alguma coisa perco-me. Não tenho referências para lhes responder. Perdia-as num dia de sol. Talvez fossem cinco da tarde.

Não sei. Vou dormir. Estou muito cansada. A luz vai ficar acesa porque eu quero.

Vou deixar que o fogo consuma toda a palha, que é por essência seca, até se extinguir deixando a terra preparada para novas sementeiras e colheitas. Quando eu me tornar comida da terra na terra.

Agora luto. Mas luto porque razão? Sinto-me muito cansada. Exausta. Feita em pedaços.

Não sei nada mas não vou perguntar. Direi que sim. Que têm razão. Às vezes apetece-me discutir com eles. Porquê? Ah não sei! Estou cansada,só quero silêncio.

Como Moisés abriu o mar apenas com a força do seu olhar, eu prossigo o meu caminho com a força do meu lutar.

Louca? Não sei, se lhes for perguntar, ainda louca me vão achar.

Para ti Joann que deste o teu último suspiro nos meus braços muito depois de te teres esquecido quem eras. Para ti meu tio Mário.

Nós os que ficamos nunca vamos esquecer quem vocês foram.

Anabela Ferreira

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