A fome, o Nobel e a vida

Com fome nunca haverá paz, poderia ter dito La Palisse.

O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas hoje ganhou o Nobel da Paz e muito bem, na minha opinião. 

Nobel, o engenheiro, químico que desenvolveu a dinamite (nitroglicerina) como explosivo – tendo a sua criação vindo a ajudar a matar milhões de vidas – amante de poesia, tem este ano vários prémios em seu nome, dados a mulheres. Na física, na química, na literatura e que engrandecem o prémio. 

A culminar veio o da PAZ, ao Programa Alimentar Mundial com o qual trabalhei (e admiro) nas Nações Unidas em Moçambique. 

Garanto que se não fossem eles com o seu trabalho no terreno, a fome era ainda mais grave no mundo em especial nos países onde estão, como Moçambique – um entre vários dos países ricos africanos com pobreza endémica (sabem-se as razões mas estão fora deste postal) – neste momento numa profunda crise humanitária de extrema fome em em Cabo Delgado, causada por uma absurda situação de guerra contra os terroristas islâmicos, cujas armas são nitroglicerina para as vidas das populações. 

A fome é por regra uma pandemia em países ricos (africanos) no entanto sem qualquer desenvolvimento, contra a tão falada erradicação da pobreza (extrema ou não). 

A fome, com este prémio, no momento avassalador que atravessamos, será o maior problema que enfrentamos numa sociedade rendida ao deus dinheiro e, ao glutão da cobiça por riqueza ao 1% de pessoas e corporações que ganham o Nobel da exploração humana, provocando fome também nos países desenvolvidos do chamado primeiro mundo (excepto talvez no Bhutão que imagino um país feliz e livre de fome).

Sem fome o manicómio seria um lugar idílico, quem sabe poético. Em paz. Não precisaria de um Nobel para uma organização que a combatesse. Deixaria também de haver um bom negócio com a pobreza e a fome. 

Hoje e amanhã a fome deveria ser o único assunto nas mesas do mundo transformado em manicómio. 

Daí a importância deste prémio no dito manicómio. 

Um alerta, independentemente das cores, géneros, nacionalidades ou religiões. 

Esta é a pandemia que afecta todos como o pior dos vírus. 

Mata muito mais gente, mata muito mais sonhos, mata a poesia (de que Nobel tanto gostava) da vida. 

Este deve ser o combate do presente nesta merda de manicómio onde estamos engaiolados. 

Penso para com os meus botões que sempre falam sozinhos, desabotoados que estão, para mostrar as barrigas desnutridas, 

” então se cá estamos, enquanto estamos, façamos qualquer coisa”. 

Que este prémio a esta organização sirva para matar a fome a muita gente que tanto precisa de viver, como eu e tu. 

Aos que têm o prato cheio que sirva de reflexão. Que nos sirva a todos como reflexão sobre o tipo de comida que queremos para a vida. 

Ou ela muda ou seremos todos comidos. 

Post Scriptum -A vida sem poesia como pandemia, deixa apenas a fome. 

E se a fome continua como pandemia é nitroglicerina como explosivo para a vida. 

E com fome nunca chegaremos a ter Paz.

O retrato vem de Judite B/Flickr

Anabela Ferreira

Um comentário a “A fome, o Nobel e a vida”

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