A moda do racismo monocromático

Há racismo em Portugal?

A resposta a esta pergunta é tristemente simples. Sim, há racismo em Portugal. Há racismo funcional e institucional!

Mas, a forma de combatermos esse racismo passa em primeiro lugar por termos a coragem, a frontalidade e a vontade de contrariar o que se convencionou como sendo politicamente correcto, a moda do racismo monocromático. Combatermos, desmitificar e eliminar a “indústria” do racismo que é a principal beneficiada com o actual estado das coisas.

Esta coragem, esta frontalidade, esta vontade de ir contra o convencionado tem, desde o primeiro momento de ser acompanhada da consciencialização de que estamos a entrar por um caminho que nos pode trazer alguns dissabores, desde logo com amigos que têm dificuldade em ver além da versão monocromática ou a nossa falta de capacidade para transmitir o que pensamos efectivamente.

O racismo não tem cor, tal como a violência doméstica não tem género. Ambos são crimes abomináveis e ambos são abrangentes no que a raças, etnias ou género diz respeito.

Quatro situações recentes servem para ilustrar esta tendência monocromática.

O brutal espancamento e posterior morte do Luís Giovani em Bragança, o assassinato em Lisboa do Pedro Fonseca, a detenção o, ainda alegado, espancamento de Cláudia Simões na Amadora e o espancamento do motorista da Vimeca em Massamá. Estes casos são essenciais para entendermos o disparate monocromático, a instrumentalização da opinião pública e a institucionalização do racismo.

Comecemos pelo caso mais antigo, o espancamento/assassinato do Luís Giovani. Imediatamente se levantaram vozes a gritar racismo, tinha sido um crime de ódio racial, a vítima era preta e os agressores brancos. O que vamos sabendo do caso aponta para um crime de ódio sim, mas não racial, um grupo de energúmenos desclassificados após um incidente num bar em Bragança que, segundo se sabe, nem sequer estaria directamente relacionado com a vítima resolveu fazer uma espera e agredir selvaticamente os “adversários”.

A pergunta que se impõe: Se Luís Giovani não fosse preto teria sido igualmente assassinado? Sim, infelizmente andava por Bragança um grupo de animais de duas patas que, quando em matilha, julgam-se os donos do mundo.

Esta resposta como todos sabemos não interessa à “indústria” do racismo. Para eles, terá sempre de ser racismo e não abjecta criminalidade comum caso contrário perdem a fonte de rendimento.

Algures na semana seguinte, na Cidade Universitária em Lisboa, Pedro Fonseca foi assassinado no decorrer dum assalto, Pedro Fonseca era branco, os assaltantes pretos. Foi a vez das vozes da outra “indústria”, a descendente dos ideais supremacistas, clamar que tinha sido um crime de ódio racial e, foi também o momento em que a “indústria” do racismo se remeteu a silencio.

O assassinato de Pedro Fonseca aconteceu porque três desqualificados da sociedade em vez de trabalharem optaram por uma vida de crime, não há raça ou racismo aqui, apenas oportunismo e criminalidade.

A pergunta que se impõe: Se Pedro Fonseca fosse preto teria sido igualmente assassinado pelos desqualificados? Sim, infelizmente sim, os desqualificados perante um assalto em que a vítima reagiu não teriam olhado à cor da pele. Pedro Fonseca ia morrer naquele assalto quer fosse branco quer fosse preto.

Chegados aqui vamos a um dos casos mais recentes, Cláudia Simões, detida pela PSP na Amadora e alegadamente espancada na viatura policial. Esta história, carregada de estórias, resume-se em poucas palavras. Cláudia Simões e a filha terão apanhado o autocarro da Vimeca e a miúda esqueceu-se do passe social tendo a mãe dito ao motorista que na paragem de saída alguém estaria à espera com o passe para o mostrar. Neste ponto as estórias divergem, há testemunhas que dizem que Cláudia Simões foi agressiva por gestos e palavras para o motorista, há versões que dizem que foi o contrário, para o caso pouco importa, o importante desta história não está nas estórias. Chegados ao Bairro do Bosque (Amadora) o motorista da Vimeca terá pedido a intervenção da polícia para identificar Cláudia Simões, identificação que esta se recusou a apresentar tendo-lhe sido dada voz de detenção, não obedecida e, como se pode ver nas imagens, entretanto divulgadas, o polícia viu-se de aflitos para segurar, imobilizar e algemar a detida.

Há quem diga que há excesso de força na detenção, há quem diga e o vídeo mostra, que há uma excessiva resistência à detenção. Cláudia Simões detida, termina aqui a primeira parte desta história, mas não a estória, passado algum tempo é pedida a intervenção dos Bombeiros Voluntários da Amadora para assistir uma detida que tinha sofrido uma queda, ter-se-á alguma dificuldade em acreditar porque a detida tinha a cara toda amassada, eventualmente caiu várias vezes, Cláudia Simões afirma que foi violentamente agredida pelo policia dentro da viatura. Os sinais visíveis assemelham-se mais a uma agressão que a uma queda? Sim, tudo indica que assim será, mas é preciso dar tempo às autoridades para que investiguem, para que concluam, para que actuem em conformidade e no caso de se confirmar a agressão, mesmo nesse caso, há uma pergunta que não podemos deixar de colocar. O polícia agrediu barbaramente uma detida por ela ser preta ou porque é uma besta independentemente da cor da pele de quem agride?

No caso de Cláudia Simões o que já está provado e não carece de mais prova é que os anormais do sindicado liderado pelo polícia compulsivamente reformado são racistas. Esses, num país decente, já deviam ter o Ministério Público a investigar e a promover o encerramento da tasca por violar a Constituição da República Portuguesa.

A pergunta que se impõe, neste caso dividida em duas perguntas: Se Cláudia Simões fosse branca tinha sido detida? Sim, tinha de ser, não se identificou perante a polícia quando solicitado e resistiu à ordem de detenção. Naquela situação teria sempre de ser detida e para isso teriam de ser usados os meios necessários à sua detenção.

A segunda parte da pergunta: Se Cláudia Simões fosse branca teria sido espancada na viatura da polícia? Esta resposta é mais complicada de responder, se estivermos perante um caso de racismo claramente não, se estivermos perante um caso “apenas” de brutalidade policial então sim. Primeiro é preciso investigar e só depois concluir.

Daniel Oliveira, no papel de incendiário de serviço, mas com o fato de bombeiro vestido para disfarçar, afirmou que gostava de ver em relação ao caso de Cláudia Simões a mesma indignação que se viu em relação ao adepto do Benfica em Braga. Daniel Oliveira sabe bem que há uma enorme diferença entre ambos os casos, no caso do adepto do Benfica não havia nada a investigar, estava gravado, foi visto por toda a gente, não havia dúvidas. No caso de Cláudia Simões falta essa parte, indignemo-nos no momento certo e, nesse momento exijamos que se puna, até às últimas consequências os culpados antes disso é apenas indignação inconsequente.

Por último o caso do motorista da Vimeca que foi agredido, alegadamente, por ter denunciado Cláudia Simões, como represália por esse facto. Estranha-se o silêncio da “indústria” do racismo em relação a esta situação. Terá sido uma agressão com contornos raciais? O motorista se fosse preto teria sido igualmente agredido? Não sei a resposta, apenas sei que gostava que todos os casos tivessem igual tratamento e que todos os casos fossem exemplos para que não se voltassem a repetir.

Em conclusão, quase da mesma forma que comecei, há racismo em Portugal? Há sim, há racismo em Portugal, há racismo institucional, há racismo funcional, há racismo conceptual. A base do combate ao racismo passa por anularmos estes tipos de racismo e não por institucionalizar o racismo, passa por termos a capacidade de conseguir distinguir efectivamente o que está na origem do crime, investigar, recolher elementos e sobretudo ter a capacidade de obter resposta à pergunta: Isto teria acontecido independentemente da cor da pele?

Só conseguiremos chegar a este ponto no dia em que expurgarmos a nossa sociedade da indústria do racismo e da indústria dos supermacistas. Nenhuma destas indústrias existe para proteger ou defender brancos ou pretos, existem apenas para se promover e para viverem à conta das desgraças alheias.

Como quem vive à custa das desgraças alheias é cangalheiro… Buraco com eles!

Jacinto Furtado

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