Anjos e demónios – Todos responsáveis (por Anabela Ferreira)

Vou falar sobre pais, filhos, escola, relacionamentos entre estes e engrenagem. Esta que é a grande viagem de finalistas. A do relacionamento dos pais com os filhos, com a escola e a engrenagem.

Vou falar na qualidade de mãe, filha, finalista, agente de viagens, hoteleira. Não vou falar que no meu tempo é que era bom. Dava-me um ar sobranceiro de meia-idade e afinal de contas sou apenas uma jovem avó. Nesse meu tempo, houve sex, love, Maria, booze e rock & roll. Tudo a que tínhamos direito. Não fomos expulsos porque não nos excedemos, ultrapassando fronteiras. Estavam presentes. Porque tínhamos a família nuclear presente a desenhá-las. Mas não para todos. Isso é comum a todos os tempos.

Talvez soubéssemos usar aquilo que me proponho fazer como exercício: pensar no uso da liberdade com responsabilidade.

Andamos azedos a tentar capitalizar culpas para um dos lados. Nem os adolescentes são todos atrasados mentais que não usam as células em vários tons de cinza, nem os pais são todos uns desleixados, nem os agentes são todos irresponsáveis ou os hoteleiros mentirosos e exagerados.

Não seremos antes – todos nós – uns vendidos à engrenagem e culpados de termos chegado aqui?

Falo como mãe, filha, finalista, agente de viagem, hoteleira. A responsabilidade de cada um cessa onde começa a responsabilidade do outro, quando encosta a linha de fim da liberdade na linha que a separa do início da liberdade do outro. Não é o que diz o senso comum?

Uma sem outra e são eliminadas mutuamente. De nada servem.

Vou fazer apenas um exercício e desenvolver uma ideia.

Nestas viagens há álcool a mais para menores e maiores – uma droga legal que tomada em excesso provoca enormes estragos e a perda temporária de lucidez sobre os actos – o que nos deveria levar de imediato a pensar sobre o assunto, antes de atirar toda a responsabilidade sobre um grupo, sejam pais, sejam hoteleiros, sejam agentes de viagens, sejam adolescentes. Mas em todos nós que sabemos, autorizamos, usamos, abusamos e damos o exemplo.

Os adolescentes têm para além do álcool, tempo de sobra, dinheiro sem esforço, supervisão nula e falta de bússola porque são adolescentes desorientados. Ou seja, sem a orientação diária sobre o uso da liberdade com responsabilidade. Venha de casa, da escola ou da engrenagem.

Aqui levanto a questão, afinal que queremos dos filhos que escolhemos ter? Que queremos que sejam quando chegarem aos 30, aos 50, aos 80?

Os hoteleiros e os agentes de viagens são parte da engrenagem. Querem vender e ter lucro. São pressionados, a competição é altíssima e por isso lhes exigem resultados. Não interessa organizar algo com responsabilidade. Também são pais desorientados.

A engrenagem está montada para os pais pensarem em dinheiro, trabalho, consumo – por um punhado de qualquer coisa numa área qualquer – e, o tempo, dividido em vinte e quatro horas por dia tornou-se insuficiente para lhe juntar educação, brincadeira, lazer com filhos, amigos, família – ou também dizendo, relacionamentos.

Quanto mais isolados, alienados e embrutecidos estivermos mais fáceis de dividir e sermos consumidos pela engrenagem. Logo, mais infelizes e com necessidades de compensação automáticas activando os mecanismos de sobrevivência. Desligamos da tarefa árdua de educar e de pensar o que queremos para os filhos e para nós.

Já sabemos isso tudo não é? Então porque não revertemos o processo?

Sabemos que a engrenagem nos dá – sempre deu – demasiados papéis a desempenhar. De cada um exigem-nos pelo menos um Óscar.

A vida profissional exige que sejamos perfeitos e trabalhemos 16 horas para ganhar ou o salário de escravo pobre ou o salário de escravo rico. No final da matemática não sobra tempo nem a um nem a outro. A engrenagem não falha…

Nesse mesmo comboio chegamos a uma estação, a da escola, construída sobre bases defeituosas.

Então o que fazemos?

Vivemos desorientados o melhor que podemos e sabemos fazer…

Recebemos o óscar para o perfeito desempenho das gerações mais desorientadas desde que demos início a esta engrenagem desenfreada.

Desde quando ela se tornou o centro das nossas vidas? Aqui reside o busílis.

Imaginem que estão a representar Hannibal – o canibal e se esquecem que são o Anthony Hopkins. Prolongam na vida real o papel…

Então anuncio que se acabaram de tornar assassinos em série.

Se não tivermos consciência de que estamos a representar e que ao terminar a peça, nos esperam os filhos, como único verdadeiro e importante público com quem nos deveríamos preocupar, seremos apenas assassinos em série. De filhos desorientados.

Como mãe que teve todas as tentações de desorientação, cheguei aqui a pensar:

-os nossos filhos, até se tornarem adultos utilizadores da liberdade com responsabilidade e crescerem como seres humanos decentes, bondosos e capazes de se relacionarem no mundo, não são nossos amiguinhos, são nossos filhos.

A responsabilidade é nossa. Ponto.

Precisam que sejamos as suas bússolas. Precisam que os encaminhemos pelo exemplo. Precisam que estabeleçamos fronteiras e limites. Dizer que não e marcar uma posição mostrando quem é autoridade é uma prova de amor para com eles.

Certamente que mostramos um sinal de amor sem pernas para andar, quando não sabemos transmitir o principal valor como pais: que os estamos a educar para serem do mundo e não da nossa casa fechada.

Um dia vão sair numa viagem de finalistas, com toda a liberdade, relacionando-se com o mundo e vão poder usá-la. O que vão fazer se estiverem preparados e não forem estúpidos? O que irá acontecer se não estiverem preparados e forem estúpidos?

Como pais na engrenagem temos antes sim de colocar um pau na dita, e, arranjar tempo para pensar o que queremos para os nossos filhos.

Se queremos perder tempo com eles e deixar cair outras máscaras, ou, se um dia vamos constatar que os perdemos como gente do mundo. Nesse momento, o tempo já não nos vai oferecer tempo para voltar atrás.

A engrenagem está-nos a falhar e nós estamos a falhar aos nossos, em casa e no mundo. A engrenagem somos nós que a fazemos girar. Somos parte do todo. Como é que a queremos?

Já mãe, agente de viagens e estando na engrenagem, decidi estudar Educação. Tive uma reacção estranha como quando comemos ovos estragados. Tinha que regurgitar o que aprendia nos livros.

Então mas um Curso em Educação não me serve para aprender a pensar? A colocar questões? A ser curiosa? A não apenas emprenhar pelos livros?

A sorte foi ter passado uma vida a colocar pedrinhas na engrenagem e a questionar tudo à minha volta. Percebi – tirando honrosas excepções de Professores e cadeiras brilhantes – que tudo na Educação está concebido para oferecer mais do mesmo.

Vejo a Escola naturalmente como o lugar para aprender o que é essencial do mundo – História, Matemática, Física, Línguas, Filosofia, Literatura, Artes, Astronomia, Finanças, Música, Clássicos Gregos, Comportamentos Sociais e Relacionais por exemplo. Para entendermos como chegámos aqui como humanos e também vejo nela o lugar para aprender como vamos evoluir como grupo.

Deve a Escola ser também o maior espaço para criação de novas ideias e propostas. Dar ferramentas para viver fora da Escola quando dela sairmos. Ensinar a ler e escrever e não só. A estar uns com os outros, a ouvir e pensar, a escolher, a sabermos organizar as finanças do dia-a-dia, a lidar com emoções, sentimentos, e, relacionamentos.

Ou seja, o complemento ou antes, a confluência entre o núcleo familiar e o mundo.

Hoje a engrenagem mostra-nos que a Escola não escolariza nem os Pais educam.

A anarquia instalou-se e esta nada tem a ver com a verdadeira, onde  liberdade com responsabilidade são o centro da vida.

Sabemos que os Professores- que também são pais – estão cansados, divididos, desmotivados e mal pagos. São talvez a parte mais importante da engrenagem e também a mais vulnerável. Convém abatê-los ou fazer com que se sintam estendidos no chão. Assim resta-lhes pouca habilidade para serem criativos e ajudar os alunos a criarem.

A Escola evoluiu pouco e muito lentamente num período da nossa História que evoluiu tão rapidamente que nem deu tempo – aos pais e educadores – para absorver e aprender tudo.

De filhos chegámos a pais e, fomos enfiados na engrenagem, sem passar pelo amadurecimento.

Sabemos que os adolescentes vão para a Escola – o depósito dos desorientados – não para se escolarizar e aprender mas para servir de chouriças de encher.

Ninguém – nem mesmo o tempo – se compadece com a falta de tempo. Temos todos a vida facilitada para nos perdermos e vivermos desorientados. Ainda por cima sem liberdade e cobertos de responsabilidades.

É esta a vida que queremos? São estes os filhos que educamos? Não existe uma entidade – anjo ou demónio – fora de nós que diz para irmos por este caminho. Podemos até não saber ainda por onde vamos, mas somos todos nós responsáveis, que temos de saber que não é este o caminho por onde queremos ir.

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