Somos uma anomalia politicamente correcta (por Anabela Ferreira)

Até de discussões superficiais surgem profundas mudanças de perspectiva. Por esta razão as redes são tanto pró clarificação quanto pró idiotização.

Vou lendo e acompanhando as polémicas e deu-me vontade de pensar e escrever o outro lado. As razões do politicamente correcto, as razões de não gostar de uma parte e as razões de o aceitar nas situações que falarei.

As palavras têm significados – por vezes – duros e ofensivos. E o primata que as usa não é por genética bonzinho. Mas também é. Quando o primata nasce não traz uma ligação neuronal entre cérebro e preconceito, ofensa, racismo, homofobia ou outros.

Nasce puro, criativo, livre. Um livro em branco. É com o crescimento, desenvolvimento, factores familiares, ambientais e vida em tribo, que desenvolve essas famosas capacidades de boçalidade. O lado cinzento-escuro das células toma relevância. Por vezes tornando-se predominante. Foi uma festa quando descobrimos o fogo. Há-de voltar a ser outra festa quando descobrirmos em conjunto que não temos razões para voltar à barbárie.

Há evidências e estudos, nem que sejam os detectados apenas por mim e uns quantos outros primatas, de que somos feitos assim. Bonzinhos e também da pior espécie de primatas que existe. Somos feitos de vírus que sofrem de doenças auto imunes. Porque a boçalidade, a estupidez e outros vírus semelhantes são auto-imunes. Destroem todos os sistemas e foram inventados e desenvolvidos em paralelo a linguagem.

Quando o primata detectou que seres da sua espécie eram descontrolados no uso das palavras e da linguagem (tipo taxistas, malta da construção, racistas, e preconceituosos de marca pistola no geral incluindo políticos e banqueiros e outros manipuladores) decidiu-se criar a novilíngua do politicamente correcto.

É ela uma linguagem neutra que não ofenda nem descrimine minorias ou outros grupos sem meios de defesa.

Um bom princípio de salvaguarda dos direitos, de quem não se pode defender de ofensas gratuitas, vindos de boçais que não medem o fim da própria liberdade, com a responsabilidade pública pelos outros. O seu contrário, o politicamente boçal.

Lembrem-se que não estamos separados como espécie.

Assim as contínuas da escola passaram a auxiliares de qualquer coisa e os cegos passaram a invisuais. Os deficientes a portadores de deficiência e por aí vai. Todos começámos a reprimir o uso da linguagem para não ofender. Mas há bois que têm nomes e é bom que sejam chamados.

Os verdadeiros deficientes boçais usam a linguagem sobre os outros sem filtros nem responsabilidade. Nas transmissões neuronais o primata boçal desenvolveu-se preconceituoso, racista, homofóbico etc.

Usar linguagem neutra e politicamente correcta passou a ser norma. Mas o “desenvolvimento” apenas se revelou na linguagem já que evoluímos pouco no pensamento.

Carecemos de ligações neuronais equilibradas e exageramos tudo. Assim nasceu o exagero do politicamente correcto. Tudo passou a ser ofensivo porque regressámos à Idade da Pedra no que diz respeito aos relacionamentos entre primatas.

Não ofendo a dignidade de uma contínua se a tratar por contínua ou se disser que tenho uma criada, em vez de auxiliar de limpeza ou técnica da esfregona.

Não me ofende ouvir alguém chamar-me preta nem chamar preto ao preto. Ou monhé ao monhé. Não é depreciativo nem ofensivo. É o que é.

Mas não gosto de ouvir “macaca queres uma banana?” (sendo macaco a expressão mais boçal e ofensiva da dignidade humana). Não me ofende chamar nem ouvir dizer “deixa passar o deficiente”, “aquele é paneleiro pá” ou “ganda maricas seu preto”, ou “este gajo é um cigano” ou “ganda judeu que aquele é” quando o implícito na palavra não é a ofensa. São expressões vindas de estereótipos mas não colocam em causa a dignidade. Ofendem-me os primatas que o fazem com a categoria de ofensivos.

Aos humoristas permito todas as desconstruções de linguagem para mantermos a sanidade como espécie e eles fazem-no.

Odeio a censura. Ofende-me que não possa dizer o que penso se a minha opinião não ofender a dignidade de ninguém. Mas se o que penso tiver o propósito de descriminar e ofender e, o disser publicamente então sou uma primata boçal.

Falta-nos a ligação neuronal que vem da deficiência em vitamina BS- bom senso e não usarmos a linguagem para dizermos anormalidades discriminatórias, racistas, homofóbicas, misóginas, preconceituosas, ofensivas. Quem constrói a linha que separa? Nós, primatas desenvolvidos no pensamento.

Que nenhum primata se coloque nos ramos do topo da árvore dizendo o que lhe vai na alma apenas porque se considera com direitos que os outros não têm.

Sou uma primata idealista preocupada com as ofensas que conduzem à pobreza, à injustiça, às guerras, à manipulação e à ganância, aos preconceitos, essas sim discriminações que conduzem à falta de respeito pela dignidade da vida humana.

Todas elas anomalias ofensivas para a dignidade da espécie.

Os laços ainda estão deficientes em força. Precisamos de novo descobrir o Fogo.

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