Ao abandono

Há muitos anos viajando pela ilha de Santiago, da Praia ao Tarrafal, parei para gravar a paisagem na memória, quando um casal com várias crianças se aproximou de mim. Estava sozinha naquela estrada junto a uns casebres e começámos a conversar. De repente, apanhando-me desprevenida pediram-me juntando as mãos, que lhes levasse uma das crianças. Assim sem avisar. “Por favor, toma e leva a que quiseres”. Pensei no meu filho que tinha apenas dois anos. E se fosse eu no lugar daquela mãe? Quais as probabilidades daquelas crianças de vingarem e terem vidas saudáveis com as mesmas condições que o meu filho?

Fiquei de rastos com tamanha miséria e desespero, sentindo-me culpada pelo abandono a que estavam sujeitos aqueles pais e aquelas crianças. Despedi-me sem saber que argumentos apresentar para não salvar uma daquelas crianças. Ali estava eu envergonhada com a minha fuga, cheia de perguntas sem resposta e sem poder ajudar. Ou podia ter salvado uma que fosse? Repetiu-se a história anos mais tarde em Moçambique. E Portugal não está isento. Nem outros países mais desenvolvidos.

Este preambular vem de saber que a lama que depositámos está a aparecer. Escrever direito por linhas tortas? Não sei onde está o lado direito, porque vejo todos os lados do avesso.

Que ninguém se julgue dono da ética e da moral atirando ao lixo a jovem de 22 anos, sem abrigo, que em vez de abortar no tempo permitido na lei, decidiu continuar a gravidez, teve o filho na beira da estrada pública e o deitou no lixo para morrer, em lugar de o deixar na porta da estação. Nenhum de nós conhece a sua tragédia. Se teve de se prostituir, se foi vítima de violação, se, se, se…

No conforto das nossas casas, comendo 3 refeições por dia, com telefones espertos, viajamos, temos acesso a saneamento básico, hospitais, escolas e livros, com vidas do lado direito, não fazemos a menor ideia do que significa viver a vida do lado avesso. Aquela mãe-criança, de vida criminosa para consigo, merece o silêncio da nossa reflexão em lugar do barulho de acusações.

Para o resto da sua vida, no silêncio da sua consciência, ouvirá o choro do seu filho quando nasceu e decidiu o que fazer da sua vida. Abandoná-lo no lixo para que não viesse a ser mais um sem-abrigo, abandonado na vida.

A condenação deve sim sair à rua para que não mais abandonemos os nossos e não deixemos que nos abandonem. Culpemos quem nos abandona no lixo, deixando as nossas vidas tão precárias e miseráveis que nos leva em cadeia a nos abandonamos uns aos outros. A maior obscenidade é a imposição da pobreza e da miséria que leva ao gesto obsceno de cometer crimes.

Se atiramos lama, destapamos lama. E quem nunca cometeu um crime, que atire a primeira pedra. Porque a vida precisa de cuidado a começar com os que já cá estão nela.

E, antes de julgar todo o desespero e miséria contido nesta história pergunto-me se hoje já estendemos a mão a alguém para que não caia em situações extremas? (o meu coração conforta-se ao saber que este filho já recebeu muitas propostas de salvamento, ofertas que a mãe não recebeu). 

Anabela Ferreira

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