TAP – A nova “low cost” portuguesa. Buckle up!

Alerta – este artigo contém “spoilers” e manobras de emergência.

“Batata frita ou torta de cenoura”?

Quando no último dia de Outubro ouvi esta pergunta, imaginei que agora a TAP servia snacks antes de me darem o “wrap” de cogumelos que invariavelmente devolvo, porque não gosto de cogumelos, recebendo como extra um pacotinho de bolachas de água salgada e um queijinho de mistura, que me sabe pela vida, junto com o copo de vinho, ao final do dia em que só quero chegar a Lisboa e ver-me em casa.

-“Desculpe, estes são agora os standards da TAP? “Perguntei rindo, sem fé nenhuma nesta religião que agora se usa, a dos cortes em tudo para ter mais lucro.

Sim, aquela era a refeição. A partir de agora e é se quiseres. Se não gostares reclama, ou vai a nado. Ou reza.

Perguntem-me se sou capaz de estar duas horas e meia sem comer, sem fazer exercício, sem beber um copo (de plástico) de vinho, sem ir à casa de banho no tubo pressurizado onde tenho de ter alguma flexibilidade para fazer xixi com o rabo levantado, meia perna no ar e a outra a tremer de esforço apoiada no bico do pé, ou imagine-se, sem me queixar de algum mal que vai pelo mundo? Claro que sim. Aqui trata-se de falar sobre o declínio de um nome, de uma marca que me fez já ter orgulho.

Esta cantiga de mal-dizer é uma reclamação sobre a nova companhia aérea portuguesa, low cost, privada num fim de tarde escuro de uma sexta-feira por um governo Passista e que dá pelo nome de TAP.

Já foi a companhia de bandeira que leva pintada nos seus Airbus, ao lugar mais alto, com vista privilegiada dos anjos, nomes grandes de Portugal.

Conhecida pela elevada formação do seu pessoal de cabine e das suas equipas de manutenção, foi sempre um orgulho nacional.

Viajo nela desde que me lembro de ser pessoa. Tornei-me profissional de cabine da TAP a partir dos nove meses de idade.

Há dois anos que faço viagens de quinze em quinze dias entre Albion e Portugal. A minha pegada de carbono é elevada, mas o meu trabalho também o é. Tenho que poupar nos custos? Tenho, claro. Por isso compro tarifa discount. Serve-me na perfeição. Vou onde vão todos os demais passageiros. Morreremos juntos da mesma maneira ou aterraremos seguros no mesmo aeroporto.

Não gosto de companhias de aviação low cost – pela forma como as empresas tratam os profissionais de cabine (é bom lembrar que estes não estão dentro da cabine para nos servir laranjadas nem raspadinhas, mas para nos salvar a vida em caso de necessidade) e os passageiros – por isso escolho a TAP.

Mesmo pagando um pouco mais, prefiro, porque sei que estão ali os melhores entre os melhores, no melhor conforto dentro daquela máquina perfeita que existe graças à combinação entre superioridade criativa do ser humano e a capacidade de colocar em prática sonhos elevados.

Qualquer viagem de avião é um desgaste físico e neurológico que coloca o corpo em situação de risco. Para passageiros frequentes a carga é ainda maior.

Para nossa distracção e bem-estar uma refeição quente (ou posteriormente a sandes gelada em pão dos restos do lidl), uma bebida, muita água e exercício são fundamentais dentro de um voo, mesmo que de curta duração.

Na era moderna do culto ao deus dinheiro, as companhias aéreas tudo fazem para cortar custos, colocando nos passageiros e nos baixos ordenados o peso dos cortes no bem-estar.

O que interessa é facturar.

A acrescentar, dentro da cabine agora também se faz abertamente a luta de classes, conforme as tarifas. Assim os passageiros são sentados numa determinada cor.

Eu fico sempre na cor verde, correspondente à tarifa mais baixa, claro. Quando me sento naquele voo de curta duração penso para comigo” no momento em que esta máquina perfeita começar a rolar na pista, se cair, o passageiro sentado à minha frente na cadeira vermelha, ou na executiva, vai morrer a beber champagne com uma refeição quente de faca e garfo, enquanto eu vou morrer com uma batata frita engasgada na garganta.

Quem sabe os meus restos mortais serão encontrados carbonizados com uma mini torta de cenoura desfeita na testa e dirão “aqui está a passageira frequente que viajava com tarifa discount”.

Se posso estar duas horas e meia sem comer ou beber? Posso.

Se a companhia aérea teria um custo agravado por aí além ao manter a qualidade? Obviamente que não.

Agora comerei uma bucha em Heathrow ou em Lisboa antes de partir, ou levarei uma marmita e a minha garrafa metálica de água com licor Beirão (se morrer na queda ao menos estarei alcoolizada).

Todos estes são custos extra de um bilhete na cadeira vermelha da cabine, que me leva ao mesmo lugar que a verde, ou de embarque prioritário (também têm sempre de esperar pelo último passageiro, normalmente eu). Mas já agora como é o meu dinheiro, gasto-o onde eu quiser, no meu conforto e bem-estar.

Está por isto e também formalmente instalada uma ainda maior luta de classes, dentro de uma das maiores invenções do sapiens, a cabine pressurizada.

O spoiler alert é que agora quando comprar os meus voos evitarei a low-cost TAP (nunca colocando em causa o seu pessoal) mas a sua administração e decisores.

Não porque não possa passar sem comer ou sem beber durante duas horas e meia, mas como protesto pela forma desagradável com que tratam pessoal de cabine e sobretudo sendo quem são, com a História que carregam de companhia de bandeira, hoje privada, mas sempre coberta pelo dinheiro do Estado Português, privam desta maneira pobre, triste e pindérica o conforto e bem-estar dos passageiros.

Anabela Ferreira

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