As putas do bordel ou a ópera dos malandros

Um caldo de leituras e conhecimento – vulgo cultura –  são a receita para perceber porque razão o tsunami atingiu as costas brasileiras. As cozinhas andam a fechar por falta de cultivadores e agricultores que preparem os ingredientes. No entanto ler alguns clássicos gregos e Shakespeare bastam. 

Em ambos temos as receitas, os preparados, as personagens, os tempos de cozedura que inspiraram Agatha Christie, John Le Carré, Victor Dumas, Shapkespeare e as tragédias de tantos mais. Estas tragédias pontuada por alívios cómicos, crimes, mentiras, corrupção e orgias entre poder, negócios entre empresas do estado, privadas e justiça fazem o enredo. Nas costas lusas, um dia na história da minha imaginação, será construída uma Alcatraz com vista mar por todos os lados, para as figuras trágicas que cometem os mesmos pecados.

A sinopse deste drama é bem simples. Era tempo do PT sair do poder antes de mais porque estava no poder. Porque tirou da pobreza milhões que vinham da sanzala. Com estudos, alguns até chegaram aos degraus de cima da escada dos senhores da casa grande. O PT tinha de sair do poder porque abusou do poder. Porque se corrompeu. Porque não podia mais criar espaço para igualdade, equidade e justiça que determina o fosso entre os senhores da casa grande e da sanzala-.


Lula da sanzala não podia mais estar na Casa Grande. Teria de ser derrubado, nem que para isso fosse necessário inventar crimes.


Por detrás do pano aparece Temer – vice de Dilma – que crava o punhal envenenado nas costas da sua Presidente. Também nas suas mãos foi descoberta a sujidade da corrupção e em seguida à sua presidência segue para a morada na prisão.

Um juiz – julgado mãos limpas – impôs-se como justiceiro da moral e dos bons costumes. Um cavaleiro da casa grande, moldou-se, vendendo-se como um ídolo. Esquecendo-se que é apenas feito de barro como todos os personagens narcisistas. Nascia um personagem entre Iago de Otelo e Shylock do Mercador de Veneza.

Não fosse este ambicioso vilão com as suas criações e invenções de factos e Lula da sanzala não estaria preso. E seria Lula de novo o Presidente do Brasil. Moro o juiz, com este golpe de vilania tornava-se a eminência parda que todos os cordéis manipula.

O povo comprou o medo, comprou a mentira, comprou a ignorância e a facilidade com que “se repete uma mentira tantas vezes até esta se tornar verdade”. O povo participou espalhando a água suja que o tsunami carregava. Dividiu-se. Tornou-se uma guerra de quintal entre casa grande e sanzala. Na sanzala muitos passaram para a varanda defendendo a casa grande. No final seriam expulsos na ponta do pé. 

O juiz, narcísico personagem Shakespereano, protegido pelas muralhas de Elsinore, criou um mito na figura de um vulgar, ignorante e grotesco homesco. Que viria a tornar-se o seu alter-ego a quem ofereceria a Presidência sem que este fosse desafiado num só debate, num só questionamento de políticas onde pudesse vir a ser exposto como fraude que é. O juiz venceu e toda a imprensa, judiciário, e demais putas compradas no bordel. Tornou-se ministro da Justiça e da Segurança. No poder enfim. 

Um jornalista – o americano Glenn Greenwald – fez o seu trabalho de vasculhar entre a podridão do saco de lixo, encontraram provas da trama e expuseram-nas. O ídolo de pés de barro caiu. O Iago com a sua ambição desmedida e suja – acreditado como sumidade do judiciário no país irmão – já desfila despido. Em comum estes personagens têm a necessidade de protagonismo e de luzes sobre os seus feitos tecidos a água podre.

A justiça pode ser moro- sa mas azeita-se é o novo ditado da trama. Que justiça será esta? A queda conjunta de Iago e da figura abjecta e grotesca que mentiras, falsas acusações, falta de provas (agora provadas) colocaram no poder máximo. Como pano de fundo, na casa grande do actual Presidente, ronda o fantasma de Marielle Franco (da sanzala), que tal como o Rei, pai de Hamlet, pede para que a trama da tragédia seja desvendada.

Se eu pudesse pedia a Chico Buarque para escrever a banda sonora desta nova Ópera dos Malandros. 

Anabela Ferreira

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