Em busca da pedra filosofal (por Isabel Duarte)

No sábado passado, dia mundial da terceira idade, surgiram na comunicação social portuguesa, duas notícias sobre a vida eterna. Numa, publicada na rubrica Lifestyle, da plataforma SAPO, informava-se que em Acciaroli, na Itália, 81 dos seus 700 habitantes são centenários e que, para os observar, ali se deslocaram, no início do ano, alguns investigadores das universidades de San Diego, na Califórnia, e de La Sapienza, em Roma.

Nesses “pacientes 100” foi encontrada falta de adrenomedulina, o que lhes potencia a longevidade, muito mais metabolitos do que nós, humanos mortais e, como corolário, ter-se-á concluído pela suspeita da existência de um gene preparado para melhor aproveitar os benefícios gerais da dieta mediterrânica e, em particular, do alecrim, amigo do cérebro.

Disse “velhotes” mas arrependi-me, porque muito pouco no seu perfil real corresponde ao conceito em nós enraizado. Nos “pacientes 100” de Acciaroli há muito sexo, muita caminhada feliz, trabalho prazenteiro e divertem-se como poucos.

Largas somas de dinheiro será entretanto investido a estudar os longevos, porque, segundo parece, é precisamente nisso que os poderosos aplicam hoje  a maioria dos seus recursos disponíveis, como se intui da entrevista concedida por António e Hanna Damásio ao Expresso – também deste sábado – tomada por factos que até há bem pouco tempo considerávamos obra de milagre, desenrolando-se, no entanto, hoje, já debaixo dos nossos narizes.

Enquanto as formigas não se inquietam com a mortalidade, mas continuam a construir rotineiramente sistemas seguros e complexos de suporte de vida, nós destruímo-los, mas inquietamo-nos com a nossa finitude. É por isso que os milionários de Silicon Valley aplicam os fundos na busca da pedra filosofal: Querem ser eternos no meio do caos.

Como eles, pensa também Elisabeth Parrish – Liz na boca dos cada vez mais velhos amigos – a mulher que, ao contrário de nós, rejuvenesce  um pouco em cada dia e para quem o processo de envelhecimento é uma doença que deve ser combatida. Ela é, já hoje, a “paciente zero” de uma terapia com que se pretende alcançar a vida eterna. Atualmente com quarenta e cinco anos, Liz tem células de vinte e cinco, por via da potenciação benfazeja dos telómeros ou tesouras que as dividem, protegendo-as da degeneração natural que normalmente ocorre depois dessa divisão celular. Liz não tem medo da busca que abraçou, ainda que esteja cada vez mais carregada de vírus que transportam os sinais informativos destinados à regeneração do corpo, para concretização desta terapia genética.

Liz, os milionários de Silicon Valley e os cientistas que analisaram os maganos de Acciaroli, trabalham hoje, aceleradamente, na inversão do que até aqui considerávamos a ordem natural das coisas, em busca da tão cara vida eterna. Resta saber se o mundo se aguenta até lá.

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