Carta aberta à Ministra da Saúde

Exma. Sra. Ministra da Saúde, Dra. Marta Temido

Sou Cuidadora Informal dos meus dois pais. Ambos com 70 anos; ambos com 80% de incapacidade e várias comorbilidades associadas. 

 Vivo em Coimbra e, tal como no resto do país, vivo o pânico de saber que os Cuidados Intensivos se encontram em ruptura e que os Profissionais de Saúde estão perante a impossível tarefa de ter que escolher quem salvam… Quem vive e quem morre. 

 Perante este cenário, sabemos todos que a esperança média de vida, as patologias de cada um, serão dados a ter em conta num cenário em que a ética é relativa e que a moral será algo que só a consciência de cada profissional lhe cobrará (quiçá sem o apoio devido!), num futuro próximo. 

No entanto e, apesar de sabermos que nos encontramos numa situação pandémica imprevisível, não posso admitir que haja a relativização, da parte dos nossos governantes, de uma situação que também tem que ser assumida por um estado social de representação democrática. 

 Hoje, tive conhecimento que, no Hospital dos Covões, que está a dar apoio à situação Covid-19 na minha cidade, o pai de uma amiga, com 76 anos, deu entrada infectado. Foi comunicado à família e ao próprio doente que, no caso de necessitar, não seria transferido para os Cuidados Intensivos. Assim, familiares e o dito cidadão, aguardam a evolução da doença, sabendo que, em caso de piora, está condenado. 

 Como Cuidadora Informal e activista dos direitos dos Cuidadores Informais e dos Cuidados em Portugal, tenho-me mantido informada, quer através de notícias, quer directamente com jornalistas e responsáveis associativos nas diversas áreas de saúde. 

 Foi comunicado ao estado de forma atempada que, o grande problema que vivemos não é apenas logístico (falta de camas e ventiladores) mas, também, falta de profissionais de saúde com formação especifica em Cuidados Intensivos. 

 Assim, ao manter o esforço continuo focado em hospitais de campanha; comunicando esses números à população, os governantes estão a dar uma falsa noção de segurança, sabendo que não há quem possa acompanhar os novos infectados. 

 A ordem dos Médicos já fez declarações neste sentido, tendo aliás, pedido o fecho das escolas para que não houvesse o risco de disseminação da doença. Réplica que aliás, foi sendo rejeitada até às vésperas desta missiva. 

 Foi, também, oferecida ajuda internacional da parte do Luxemburgo na pessoa da ministra da Saúde Paulette Lenert, que se demonstrou disponível para receber doentes Covid oriundos de Portugal, bastando para isso que esse pedido seja formalizado. 

 Portugal, até à data rejeitou. 

 Necessitamos de importar profissionais de saúde com a máxima urgência e aceitar o auxílio que nos está a ser oferecido. 

 Como Cuidadora Informal, junto a minha voz à de muitos que estão a ver os seus familiares a serem escolhidos para morrer, não pelos profissionais de saúde que, com prejuízo da própria segurança e sanidade mental tomam decisões e têm que as assumir sem apoio Estatal. 

 Aponto o dedo à falta de acção de quem de direito, declarando, desde já que, no caso de acontecer uma destas situações a um dos meus Cuidados, levarei o caso às ultimas instâncias, responsabilizando o Estado Português por negligenciar as necessidades dos seus cidadãos em detrimento de tomadas de acção que se encontram, no momento disponibilizadas por terceiros. 

Rita Joana Pinheiro Maia

Coimbra, 23 de Janeiro de 2021

Nota da Redacção: Este texto foi publicado originalmente na página de Facebook da autora e pode ser consultado aqui

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