Comunicado do EPU- Exército das Putas Ultrajadas

Antes de morrer, quero escolher o molho com que vou ser comida. O chulo que disser “não”, receberá o meu desprezo, como é habitual. 

Preciso da vossa ajuda para ouvirem um desabafo. Vou dizer a alma, em estilo linguístico de metáfora carrascão.

Há uns anos a esta parte fui vitima de um desfalque. 

Uns tipos abriram as portas do bordel, deixaram entrar 

– em conluio evidentemente – a vilanagem.

Tem sido um fartar ladroagem.

Sacaram-me todo o dinheiro a ressuscitar bancos e a engrandecer contas de certos chulos, em paraísos fiscais.

Agora, muitas como eu já nem dinheiro têm para vinho a copo há muito. Quanto mais para dar de beber em bares de alterne. A alguns é até pedido que se sustentem sem dinheiro. Milagre de Fátima, ou de pensamento positivo? 

Vejamos, a profissão de um chulo é viver bem à custa do trabalho da puta- o que, jesuis. 

Chamar-me puta não é um ultraje. 

Ultrajante é o chulo obrigar-me a dobrar, receber o meu dinheiro e dizer-me não não fiz os bóbós com suficiente camarão. Dá-me uma fúria enorme.

Estes assaltos duram há algum tempo, contra os povos (na UE desde que perdemos a soberania e nos impuseram a moeda e as regras alemãs sem apelo nem agravo, criando desigualdades profundas, em particular aos povos do sul), 

a sul do Equador – estou a pensar em três mil mortes num dia, no Brasil, enquanto presidente, militares e pentecostais ostentam perversidades – ou em qualquer lugar onde os chulos depois de atirarem as putas ao chão e de as comerem, dão dinheiro para fundar ong´s que as protege da prostituição… 

Chamando-lhe flagelo…

Por mim e por mais alguns amigos falo, até tínhamos uma vida compostinha. Assim a atirar para o desmemoriado, diga-se. 

Deixávamos passar tudo e dávamos uns cheques em branco aos chulos. 

Por causa desses chulos sem escrúpulos – uma redundância- quando veio um vírus do morcego e do pangolim, ficámos nas ruas da prostituição abandonada. 

Nem uma bazucada nos tira do buraco que ajudámos a cavar. 

Entrámos nas montras do “red heavy district”, e já levamos anos de combate nas trincheiras – só me faltam as pinturas de guerra. 

Agora com o perigo de contágio já nem vemos nem tocamos em quem nos consola a alma. Isto pode até ser pior que uma má foda. 

Sem chorinhos, na ante-câmara da desgraça, fomos obrigadas a procurar sustento fora do nosso país, longe dos nossos próximos, desprezados pelos governos, muitos trabalhando quase de borla ou às vezes pagos em “gratidão” e “reconhecimento”, com uma palmadita nas costas, já curvadas por tanto esforço de inclinação. 

Veio a maior tragédia e continuamos a fazer bóbós. 

Só não sabemos em nome de quê e aqui residem os meus nós. 

Nem sequer nos prometem um dia melhor. Se calhar chegará com a morte em massa. Os chulos pouparão imenso dinheiro. 

Sabem tanto de como resolver as nossas vidas como nós as putas sabemos de como eliminar chulos. 

Saber sabemos, mas não praticamos. Como ir à missa ao domingo mas não ser cristão praticante.

Com tanto que os salvámos deveríamos ter agora o retorno, diria eu. 

Mas como podemos ainda esperançar que um chulo seja diferente? 

Esperamos sempre que o psicopata que nos agride venha a mudar e a ser melhor, às vezes até esperamos que nos beije a boca. Santa ingenuidade das putas!

É humilhante chegar aqui e ver amigos no lixo, pessoas a serem despejadas, a suicidarem-se, a sofrerem humilhações só porque são putas imprestáveis, sem lugar na montra.

Que grande experimento humano está a acontecer neste planeta de experiências fodidas como nós putas deste exército. 

Cobrem-nas com o cartão vermelho que diz “és inútil e não serves para nada” ou “até sabes fazer bóbós mas estás gasta, já não produzes o que deves”. 

Prometes salvamento dos males que me afligem. Venha de bazuca ou de reconhecimento em versão leve-leve. Quem precisa de sexo se a pele já fica mais brilhante só com esse pensamento? 

Como todos os narcisos no poder vocês chulos “acham feio tudo o que não é espelho”. 

Nós somos feias. Vocês são os porcos e maus a combater. Todos os que não forem capazes de perceber o mau, o sujo e o errado. 

Falo também daqueles chulos que “têm medo que o medo acabe”, como disse Mia Couto. 

Têm medo que os privilégios se acabem, têm medo que a História que foi enterrada venha ao de cima com todo o seu esplendor, pelas mãos das putas que foram enterradas e descriminadas. 

Como aqueles chulos que se esforçam para que o passado não venha à tona de certas putas descriminadas, separadas e compartimentadas num gueto. Esforçaram-se e bem por contar uma narrativa e agora vêm estas putas dizer “somos putas e sabemos o que fizeste nos séculos passados”! Anda cá para fora, seu chulo, assume. Fiz-te bóbós de lagosta a vida inteira, agora nega publicamente que não me conheces. 

Ainda ontem, no conselho de chulos, uns outros chulos, fartos de ver a verdade te disseram: “larga as putas” e tu nada, foste para a guerra comigo. És casmurro, mas eu sou pior. Vou-de despir.

Os tempos são de guerra, de incerteza, de medo. E de nudez. Não para fazermos sexo, mas para mostrarmos quem és tu, chulo, a nós putas de um exército. 

Aqui da minha trincheira asseguro-te sob compromisso de honra que o terrorismo do capital a par com o terrorismo da descriminação, como mulher e preta, têm sido os maiores ataques sofridos. 

Que mais gente matou à minha volta, continua a matar e esses são o inimigo que combaterei até morrer. 

Que divide para bem viver, que tem medo da paridade que “tem medo que o medo acabe” e que não suporta perder o status quo.

Aqui da minha trincheira esburacada prometo fazer guerrilha da radicalização da democracia. Usando cocktails motolove, palavras em ponta de lança, porque sou uma pobre puta e apenas sei escrever.

Com o meu EPU, neste bordel onde me encontro, usada pelos homens que bebem vinho caro, fechei as pernas aos apelos terroristas do capital, do fascismo, da violência da descriminalização, da violência das castas, da violência contra outras putas como eu. 

Para o peditório desses terroristas já dei. Nada tenho e nada quero ter, apenas sonhos. Também nada tenho a perder. 

Um dos sonhos – sem muita esperança de o ver acontecer – é que um dia os chulos que me enfiaram neste saco, se comam, canibalizando-se uns aos outros. Numa orgia de sexo, que os salve e leve. 

Por cada palmada dos chulos, darei um soco de volta. Continuarei puta, porém, na vossa frente, vou continuar também a participar no futuro que está a acontecer. 

Escrito há quatro anos e adaptado para os dias que correm. 

Obrigada a quem lê.

Anabela Ferreira

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