Conto de pré Quaresma – O Carnaval de Emília

Eu, dona do meu bordel escrevo sobretudo a falar de mulheres. E para os homens que as ajudam, rai´osos partam! 

Num vulgar dia como o de hoje nascia Emília. No ano de mil e novecentos. Não fazia frio nem calor. Era um vulgar dia de Outubro. O céu de Lisboa, pintado escrupulosamente a azul claro, irradiava uma luz diferente. Brilhante, diria. Tinham os pais desejado grandes desígnios para esta menina. Havia que dizê-lo sem titubear, Emília saberia falar francês e tocar piano, ensinada pela avó materna, que animava serões da classe alta Lisboeta, numa casa sito na Rua da Prata ao número duzentos e quarenta, de olhar oblíquo para a Igreja de São Nicolau, onde todos os bebés das nobres famílias se baptizavam.

Prediziam os médicos e predizia a mãe ´esta criança será especial, Dona Georgina, entrada numa idade perigosa para conceber. Viram-se os médicos obrigados a fazer acontecer um parto pouco natural. A menina nasceria com a ajuda da linguagem nada poética de uns fórceps – que diga-se em boa verdade, lhe deixaram umas amolgadelas nas fontes – parecia prever que nada seria banal na sua vida. 

Toda a família veio visitar Emília e felicitar os pais, que não cabiam nos terços que rezavam pela menina, de tanta alegria. Caber cabiam, porque Deus tinha sido generoso demais, diziam a todos, como forma de agradecimento. 

Seria educada para ser dócil, comedida, caseira e muito prendada como se pedia a uma mulher de família. Os dois braços de Dona Georgina. Já que lhe começavam a falhar as forças. O pai arranjar-lhe-ia um casamento importante, à altura do seu berço. Quem sabe acomodava-se o noivo também naquela casa enorme com vista lateral para o rio Tejo. 

Veio o Senhor Bispo benzer Emília. Trazia consigo a catequista da Igreja de São Nicolau, que fazia questão de dar um beijinho na mão da menina Emilinha, como já era tratada carinhosamente. 

No mesmo dia da chegada a casa, saídas da Maternidade Alfredo da Costa, trazidas no carro elegante do Senhor Manuel, marido de Dona Georgina, veio também a vizinha do quarto-andar. A boa Josefa. 

Tinha ares de feiticeira. Solteira, solitária, de ar vulgar, igual a tantas mulheres na capital, a boa Josefa, como era chamada por Dona Georgina, como se fosse mais um nome de baptismo, enquanto para todos os outros, que tinham medo dela, era apenas ´Senhora Josefa´. Dizia eu, a boa Josefa era pouco dada a conversas mas muito amiga da mãe da pequena Emília, Dona Georgina. 

Prestava-lhe muitas ajudas domésticas e companhia, se se podia chamar companhia ao que a boa Josefa fazia. Mas a ajuda era preciosa como as pérolas planeadas para as orelhinhas da bebé Emília. Sobretudo durante a gravidez, tinha sido um anjo naquela casa. Dona Georgina era um ser muito frágil, dada a algumas doenças. Já tinha inclusivamente perdido alguns bebés. Volta e meia, meia que se volta, cueca que se solta, bastava Dona Georgina cheirar a cueca do Senhor Manuel e lá vinha mais uma gravidez. Desde que ficara de esperanças, todos depositavam uma enorme esperança na bebé que nasceria Emília. 

Da boa Josefa pouco se sabia e ela nada dizia. Falava-se que tinha herdado a casa na Rua da Prata, de uma madrinha que nunca sequer tinha ocupado aquela casa. Ninguém lhe conhecia marido, companhia ou veia para atrair quem quer que fosse. Ela estava bem com o seu destino e parecia nada se importar com as vozes que falavam de si. Eram vozes de burros. Nem se aproximavam do seu céu.

Puxam-me pela língua e eu perco-me a falar da boa Josefa. Contava eu que a boa Josefa foi visitar a menina Emília no mesmo dia que o senhor Bispo. Não ao mesmo tempo, claro. Detestava padres e ratas de igreja como aquela catequista. 

O Bispo e a catequista tinham-lhe pavor. Benziam-se sempre que passavam por ela em qualquer lugar. A boa Josefa nem se dava ao trabalho de olhar para eles. Ouvindo as vestes do Bispo a roçar nos degraus, deixou-os sair e subiu ela atrás como esconjurando os demónios deixados, para ver a bebé.

Como de costume a boa Josefa fez um chá para Dona Georgina e outro para si e sentou-se numa cadeira que trouxe da cozinha, aos pés da cama de Emilinha. Como sempre fazia, quedou-se em silêncio. De olhar imóvel e vazio. O tempo perdeu-se no tempo que a boa Josefa ali ficou.

De vez em quando abanava a cabeça e mantinha o olhar no tecto. Emilinha esperava, perdida. Que estava toda aquela gente ali a fazer como se ela fosse um milagre? A incerteza dominava-a ainda no ventre de Dona Georgina fazendo arrepiar a placenta. Alguma coisa teria de ser feito. Ouvia os pais palavrearem os planos que lhe tinham. Para aquilo? Devia sair? Se saísse teria de ser por uma razão muito forte. Viveria para perder o verso, decidiu. E saiu. Não era um milagre como dizia o homem vestido de saias pomposas. Ela era uma certeza da natureza. Ali aos pés do seu pequeno mundo estava aquela boa mulher a adivinhar-lhe os pensamentos, sem sequer a olhar, tirando aquele sobrolho franzido de raspão quando se sentou. A mãe, frágil, dormitava. Aquela boa mulher também parecia adormecida não fossem os olhos tão abertos quanto os seus. Talvez ambas tivessem chegado à sabedoria, naquele momento de profunda visão. Da razão de serem servidas pela vida. Não é coisa pouca. É preciso rompê-la com tesão-  pelo que lia do seu entorno, talvez esta fosse uma palavra pouco cortês na sua casta, Emilinha considerava, talvez nem sequer fosse usada por aquelas mulheres abaixo da cintura.

A boa Josefa levantou-se de repente, fez uma festa a Emília enquanto se dirigia palavreando a Dona Georgina,´esta menina nasceu para escrever a sua vida! ´. ´Ai Josefa, tenho tantos planos para ela, Emília será uma musa´, choramingou Dona Georgina, `esqueça-se disso, minha boa senhora, ela será a protagonista da sua história`. 

No epílogo, a sentença proferida pela boca da boa Josefa com ares de feiticeira, Emília preferiu, cumprindo-a. Viveu para escrever o seu próprio verso.  Deram-lhe tudo de mão beijada pelo senhor Bispo que esperava conseguir uns trocados. Este via em Emília uma rival para a sua Igreja. Emília crescia sem moral, sem nunca lhe beijar a mão, sem nunca beijar a mão de ninguém. Excepto da outra. Emília era um modelo para nunca ser seguido, pensava a gente de bom berço. Emília não se importava. Vivia em segredos e escondidos becos que ninguém conseguia acompanhar. Usava o dinheiro e a posição do pai, um abastado comerciante de cavalos para circular pelos meios políticos e recrutar gente para a causa feminista. A sua tesão, se me permitem. O impulso do futuro para a vida que a acolhia. Generosa Emilinha, distribuía o que tinha. O senhor seu pai, nada lhe recusava mas dormia em sobressalto, não fosse a sua Emílinha, em quem ele depositava tanta esperança, ser comunista. Na altura um crime, agora quem o é sofre de desdém aberto vindo dos seus pares de raça. 

Morreu Dona Georgina de tristeza e vergonha galopante por ver Emília tornar-se menina e mulher independente, criada por Josefa de quem nunca Emília se desligou. Antes pelo contrário, aquele era o deslavado desgosto de Dona Georgina. A boa Josefa e a sua Emília pareciam carne da mesma unha. Dizia pesarosa ao senhor Bispo ´foram os fórceps no parto, foram os fórceps, que fizeram a minha Emilinha assim”. 

O senhor Bispo bem caladinho, não se chegando a perceber se de pavor se de vergonha, tinha a certeza que um quebranto da feiticeira do quarto-andar tinha acontecido. Se assim pensava assim se benzia. Deu a extra-unção e morreu Dona Georgina, amargosa mas sempre piedosa, dando a mão a Emilinha – ´podias ter sido uma mulher como eu minha filha, mas escolheste ser filha de outra. Foram os fórceps´, disse como últimas palavras, afagando-lhe as fontes ligeiramente amassadas desde o parto. 

´Uma desgraceira vai o mundo assim. Mulheres destas…´, foram os últimos pensamentos antes de morrer o Senhor Manuel, de velhice precoce – com o senhor Bispo a extremar a unção devida – por ver a sua filha secar-lhe os bens, participando de encontros secretos em caminhos esconsos, com jovens duvidosos, anarquistas, comunistas ou lá quem raio eram aqueles homens, calçando botas de montar, bebendo da aguardente na sua garrafa, debruada a prata pela piedosa Dona Georgina, morta há algum tempo, de fragilidade feminina, nesses movimentos de apoio a mulheres, umas tais feministas, segundo lhes chamava Emília quando a tinha ouvido enquanto escutava atrás de uma porta num estábulo, depois de terminar uma transacção de cavalos em Évora. Era o fim de tudo, tudo. Não lhe restava mais nada. Antes tivesse perdido tudo ao jogo. Seria mais honroso. Emília, em quem ele e Dona Georgina depositavam tanta esperança, não tinha a quem sair. Sairia aos forceps que lhe amassaram as fontes. Foi isso. Toda a vida nunca tinha querido sequer a bênção do Bispo, até lhe virara a cara na comunhão e no crisma que maldizia, sendo que até o homem das saias e dos sacramentos parecia ter medo da sua filha. Emília tinha tido sempre o apoio incondicional de Josefa. Para tudo. Esta, de boa nada tinha. Além de feiticeira era feminista. Não tinha passado nos genes a ninguém porque era seca como uma uva passa na mesa da Consoada mas passaria por osmose a Emílinha como a tesão passa no Carnaval. Raio´sas partissem!

Anabela Ferreira

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