Delírios no diário do manicómio

Por razões de segurança convém vivermos aterrorizados.

Acordei numa ala a sul no manicómio. Dia gelado, com o sol a espreitar por entre as copas das árvores num alegre bom-dia. Um daqueles dias que nos faz ansiar pelo oxigénio da vida. Daqueles dias que nos faz desejar desconhecer o sabor da cólera, nesta ala a sul do manicómio. Uma ala de cheiros doces e tranquilos aromas. Uma barreira onde apenas entra a sanidade.

Nas restantes alas? Furacões com olhos de ciclopes. Assustadores. Que me fazem sentir raiva.

Nós os outros que queremos oxigénio, esbarramos na porta fechada da câmara de ar. Pelos carcereiros (os que dominam as alas do manicómio) apoiados pelos zombis complacentes.

Tu que me lês, podes estar vivo ou já não. Vejamos. Quantos ganchos aceitas ter espetados na tua carne? Quanto sangue deixas derramar da tua alma por entre as veias rasgadas? Para viver uma vida insípida, sem poesia?

Sofremos de eclâmpsia cerebral, uma forma de paralisação, quando deixamos as portas escancaradas para a violência. Deixamo-la entrar e ela suga-nos a alma da casa como qualquer planta invasora.

Falo para mim e todos os zombis. Consegues ser autêntico e viver a tua própria essência? Consegues fazer escolhas de acordo com a tua substância? Se sim, estamos conversados, faz o teu caminho. Ou és feliz, tonto e louco ou mentiroso e alheado. Não tens que pensar como eu, nem tens que me odiar. Apenas vejo assim a cegueira e a felicidade fingida.

Há uma terceira via que é estares morto sem que ainda não te tenha sido oficialmente comunicada a tua morte.

Porquê? Porque ninguém pode estar feliz neste manicómio onde tudo está errado, todos os caminhos dos homens foram trocados, alguns selados. Estamos a ser enganados. 

Atiraram-nos milho e com fome os comemos. Provaste? Estavam envenenados.

Fazemos então o fingimento da vida para não morrermos da morte matada. Fingimos quase sempre, em quase todas as situações. Fingir faz parte das rotinas que cada um usa para se proteger e refutar a rotina.

Porque permitimos a mentira? E porque somos tolerantes com os intolerantes? Porque queremos fazer parte de uma manada de ovelhas, com pastor, guru, governo, maçon-guru, Papa, ou outra figura simbólica que nos dita regras, leis absolutas? 

Porque gritamos e nos matamos para defender outros iguais ou piores que nós? Precisamos de ser seguidores de uma “sandália ou ramo de oliveira” no infinito deserto que nos consome a vida? 

Que tempos absurdos estes, de comédias do absurdo. Neste manicómio infeliz de gente morta que não recebeu ainda a certidão de óbito.

Leio no ‘noticias do manicómio’ : ’Violadores soltos – com prova feita dos factos – por estarem bem “integrados social e profissionalmente”. Culpados livres no caminho do trânsito em julgado, por mortes em nome do desrespeitado “amor”.

Amor exigente este que se acumulou na veia cava do culpado, que leva ao coração, ao ponto de a entupir de colesterol barato, deixando um coágulo se formar explodindo de “amor”. Do amor que mata…

“O patriarcado é o juiz que nos condena por nascer”, a nós mulheres. Como dizem bem “Las Tesis” essas chilenas que desaparecem nas masmorras da renovada ditadura. Representam-nos em todas as alas do manicómio.

Continuo a ler no ‘noticias do manicómio’ que se realizarão na bela Lisboa, novas cimeiras de Lajes, entre serpentes surucucus, venenosas no seu âmago, para preparar o rompimento de novos ovos que espalharão mais veneno.

Leio noticias de golpadas que não são só filmes de Scorcese, de ciclones que devastam, de notas lavadas que ganham asas. De sexo, mentiras, vídeos, palácios e poderosos. Tudo verdade. Impossível esconder.

São os gananciosos por vitamina dinheiro, o espinafre do Popeye que lhes devolve a musculatura do poder. 

Tudo em nome do amor viciante da cocaína do poder. São os doentes da ala maníacos- obsessivos por controle. A ganhar o jogo.

As janelas de todas as alas estão escancaradas e ventam o que se passou por detrás das cortinas. Eu sinto raiva. Tenho de ir tomar a medicação.

O mundo cresceu e fez-se um bom negócio. Uma puta inspiradora para quem a quer usar e abusar. Uma Geni que está a ser assaltada à mão armada, mas quem sofre preso, condenado à morte em vida são os inquietos, os desassossegados, os acordados e os que denunciam os seus males.

Os zombis e os guardas oportunistas são complacentes com os carcereiros. Como se viu em todos os regimes do manicómio incluindo Dachau, Auschwitz e agora a Palestina. 

Os ladrões da caverna riem-se como hienas, encobrindo o fruto do saque. Perpetuando o ódio e o mal-estar. 

Quanto mais caótico ficar a savana mais fácil a tarefa dos predadores. Quanto mais medo sentirem, caído no suor das presas, mais fracas estas estão para se defenderem.

No manicómio fingimos e mentimos. Como se vestíssemos um casaco protector para o medo que nos faz transpirar. Medo de oxigénio.

A História conta-se sobre o tempo de espera entre a substituição de um tirano por outro. De um tempo insalubre por um tempo sem luz. De um tempo de cólera por tempos de ódio.

O cálice da bondade raramente se aproxima da mesa. Esquecemos. Dá nota de erro “não encontrado”. Poucos o bebem.

Porém exigimos tudo, de todos. Os outros são nossos criados. Mas os outros somos nós também. Nesta greta de divisão, as serpentes entram, chamando-o o canto da sereia. Quando aprenderemos?

A auto-estima do mundo está deficiente em nutrientes vários. De sal que alimenta, de minerais que fortalecem.

Como tenho raiva de ver este manicómio de gente que morreu sem que lhes fosse entregue a certidão que atesta o óbito. Fingindo, mentindo ou fugindo. Ou sendo complacente. Eis o resumo dos termos de referência em que aceitamos o internamento compulsivo no manicómio. Até morrer. 

Vive-se e morre-se sem se saber porquê neste fio de prumo que alimenta o coração sempre em tensão.

Nesta ala sul do manicómio nasceu um dia belo, onde o sol com amor nos espreita por entre as copas das árvores. Noutras alas rebentam obuses, explodem veias e corpos caem desfeitos. O gelo invernal está instalado.

É difícil não sentir raiva. É difícil não sentir raiva dos que querem por todas as alas impor a generalização do pânico e do caos, como forma de nos subjugar ao chuveiro final, debaixo da asa protectora e ordenada de uma qualquer tirania. 

Que se fodam! Irei aos berros para o chuveiro a apontar-lhes o dedo “o violador és tu”.

Ao cedermos às distracções, implantamos voluntariamente um mini-chip no cérebro que nos guia por entre as alas permitidas para deslocação da eclâmpsia. O medo. Que como coágulo parasita viaja na circulação, fazendo-nos fingir que estamos vivos. Que medo deste medo, quanta vergonha alheia. 

Somos tantos, diariamente, a pedir atenção. Continuarei a desentupir as artérias para que o oxigénio circule. Este é o meu coágulo, suponho.

Só os artistas me convencem. Os que me fazem rir e os que na arte me fazem ver nua ao espelho. Os que me dizem, escrevem, pintam, dramatizam, cantam ‘olha e toma consciência do absurdo’.

A arte e a cultura, a educação e a literacia serão o caminho da salvação. São o coração no nosso corpo. Por isso nos impõe a sua morte.

Somos seres moribundos em falha cerebral, a quem falta a certidão que ateste o óbito. A ressuscitação é sempre possível, ensina-nos a História dos milagres do Homem. Aguardemos que da liquidez venenosa dos tempos, surja algo solidamente bom. 

Que raiva! Posso morrer ainda hoje, neste belo dia solarengo, sem explicações da vida ou da morte e continuar sem entender nada das regras deste manicómio. Juro que não queria, sem antes os ver cair na mesma lama em que me submergem.

Imagino que o caminho seja o de continuar a criar arte de subversão maciça para acender consciências. 

Para poder continuar a acordar em dias solarengos, com o gelo da raiva e com luzes de esperanças a brilhar por entre as copas das árvores.

É de resto tudo o que nos resta e sempre restou. 

Anabela Ferreira

2 comentários a “Delírios no diário do manicómio”

  1. Anabela diz:

    Escrevendo para sobreviver à loucura, o que me afaga o coração é receber estas belas palavras. Obrigada.

  2. luis guerra diz:

    Uma “pintura” do planeta em que vivemos. Cores fortes, que representam a realidade da vida…Traços firmes, que não permitem dúvidas… Parabens á Pintora por mais um belo “quadro.”

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