Farewell and welcome – Crónica de uma morte não anunciada

A vida

Estamos a viver a História e isso é duro. E louco. Estamos a viver o mundo que descontinuou. Connosco cá.

Estamos a viver o imposto de valor acrescentado. Quem somos, quem seremos. O Produto Interno Bruto chamar-se-à evolução da espécie.

Estamos a viver o luto. Sobretudo.

Costumo contar histórias às minhas netas e digo-lhes que o mundo é um grande sistema imunitário. Nós somos as células brancas, as vermelhas, a linfa, o sangue. Andamos todos juntos a crescer, a batalhar contra ameaças, a criar anti-corpos, a criar defesas, a entretermo-nos, a ganhar a vida.

A morte

Até chegar a morte.

Estamos a dizer adeus ao mundo que foi. Adeus. Toda a segurança desapareceu. O sistema imunitário desintegrou-se.

Há três semanas vivia num mundo quando cheguei a Lisboa. Decidi por conta própria isolar-me. Sem muita consciência do que aí vinha. Tinha um espectáculo de Teatro com crianças para ir ver. Cancelei por precaução. Quase intuitivamente ouvi campainhas de alarme. Era o meu sistema imunitário a avisar-me. De repente, fui chamada para voltar ao trabalho no Reino Unido. “Vem trabalhar, precisamos de todos os braços. E cabeças”. Reuniam-se as células brancas para enfrentar o inimigo externo.

É que sabem, eu trabalho com a morte. Digamos de uma forma mais suave, trabalho com a vida em casamento com a morte. Sabemos que ela está para chegar. E temos de cuidar dos que ainda vivem, frágeis e vulneráveis. Sem sistemas de defesas. Sou eu a célula branca deles.

Vim a correr. Se tiver de morrer que seja a viver pela sobrevivência do sistema imunitário que é o conjunto do “nós”.

As fases

Apenas cheguei a consciência mudou radicalmente. Este drama vai ser uma tragédia. O modo de vida vai mudar as pessoas, vão ter de passar por um processo radical de transformação. Coisa que ninguém gosta, nem sabe, nem está preparado. E até que a ficha da consciência se ligue, demora. Porque tem de passar por fases estudadas.

O mundo como o vimos, absorvemos, vivemos, partilhámos, foi engolido. De um momento para o outro.

Exactamente como quando a morte acontece. Não contamos com ela, nem a queremos. “Afasta de mim esse cálice” diz o poeta Buarque. No entanto ela chega.

Neste preciso momento deixámos de saber como ultrapassar a falta daquilo a que estávamos habituados. O nosso modo de viver. Estamos em luto.

O mundo – sistema imunitário

Nem sabemos mais o que será o amanhã.

O desconhecido está agora a viver na nossa cama, escarrapachado no nosso sofá. Podemos e devemos encontrar mecanismos para cooperarmos com a perda, mas ela já está aí bem visível. Visita não anunciada. Estamos em negação.

O sistema económico é a outra face da mesma moeda – a forma como sobrevivemos, baseado no dinheiro e nos mercados – não é hoje só dinheiro, somos nós, as pessoas.

O momento delicado é vermos o caminho que queremos desenhar. Dele vem a nossa maior angústia e o medo mais visceral.

Quem está a tomar decisões – por nós e em nosso nome, por azar dos Távoras, são parte do problema de um sistema imunitário debilitado – tem de estar consciente (exigência mínima) do que o que está em jogo.

A sobrevivência e a evolução. Mas não podemos deixar de ter um papel activo nas escolhas. Nós somos as células brancas entenderam?

A mente

No entanto, antes de mais, estejamos conscientes dos cinco estágios do luto, definidos pela psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross.

Mais que qualquer curva que nos faz ficar de joelhos, agora que estamos vergados à força para a ajudar a achatar, devemos estudar a do gráfico na imagem que deixo.

Porque diz respeito ao momento presente, vivendo nas nossas casas e nas nossas mentes.

A morte chegou. Ou o veredicto de um fim (uma doença incurável) bateu-nos à porta. Este veredicto entra pela pele dentro.

Primeiro negamos (o choque, o medo, a confusão, o evitarmos) depois ficamos zangados( frustrados, ansiosos), depois chega a tentativa de pactuar (exaustão, sensação de opressão de impotência e de luta e hostilidade com a situação), depois chega a depressão (tentativa de encontrar um sentido, contar a nossa história, tentar encontrar apoio nos outros) até finalmente chegarmos à aceitação (encontrarmos saídas, seguir em frente, recomeçar a vida).

Por mais que tentemos fugir, não há como escapar. Está estudado e faz parte de sermos humanos. Se escapamos fases, acabamos por ter de vir a lidar com elas mais à frente. Em que fase está cada um de nós é estudo individual. Temos tempo para o fazer.

O estudo colectivo é a fase em que já entrámos, o de luto.

O corpo

O nosso corpo físico ao longo da evolução da espécie lutou, sobreviveu, adaptou-se aos germes (vírus e bactérias) na natureza e foi-se transformando, criando defesas.

As células brancas estão preparadas para enfrentar e derrotar corpos estranhos.

No entanto, aqueles com sistemas imunitários mais frágeis morrem. Assim acontece agora com tantos de nós, até conseguirmos achatar a curva e proteger os mais velhos (as nossas bibliotecas e fonte de sabedoria).

Aparentemente os dados apontam para crianças e jovens (até aos cinquenta) que já sofreram alterações e evolução do sistema imunitário que os torna mais saudáveis e mais fortes, como sendo capazes de lutar contra um vírus desconhecido (não quer dizer que não haja pessoas mais velhas com sistemas imunitários fortes).

Sexta-Fase – Lições aprendidas

Como vai ser o amanhã? Ninguém sabe. Totalmente desconhecido. Medo e ansiedade. É esta a fase em que ainda vivemos. Por isso prevaricamos, não sabemos cooperar ou arranjamos mecanismos de cooperação que nos façam enfrentar o demónio da morte.

Até chegarmos à sexta fase devemos ajudar a criar uma vida diferente. Aprendendo lições, preparando o futuro.

Valorizando o que é importante individual e colectivamente. Não para a avó e para o tio ou para mim. Mas para o grupo. Não são conselhos, são factos estudados. Basta ler um livro de História. Se eu quisesse deixar conselhos, vendia-os e incluía o meu Iban neste texto.

O corpo, sistema imunitário, vai saber resolver esta guerra. Vai arranjar anti-corpos e superar. O que estiver forte e preparado. Este vai ficar a olhar para o resto de nós e perguntar “então e tu, fazes a tua parte?”

Não evoluímos só por sermos mais fortes, mas por sermos mais capazes de superação e adaptação às mudanças e transformações. Disse-o Darwin e La Palisse. Eu repito. É a evolução, estúpidos!

O vírus não é uma entidade viva, como o tubarão de Spielberg.

Desintegra-se se não conseguir encontrar um hospedeiro onde se possa reproduzir. Basta fechar a porta com sabão, ao filho da puta narciso.

Basta fecharmo-nos em casa. Ajudando as células brancas.

E depois? Continuamos sem saber. Precisamos da Ciência e da Educação e da Investigação para descobrir e dar-nos garantias de melhor saúde para o sistema imunitário individual e colectivo. E precisamos de soluções para nós.

Se vai ser um mundo onde andaremos com um chip e seremos controlados e manipulados pela Inteligência Artificial ou o “Big Brother”?

Se vai ser um “Brave New World” ou “1984”?

Se vão voltar os dinossauros? Se regressamos à idade da pedra?

E se for outro mundo muito mais criativo, empenhado, colaborativo, com um sistema imunitário forte e capaz de perceber ameaças e defender-se com os esforços de todas as células?

E se for um mundo melhor, cujo imposto de valor acrescentado tenha sido o da voz do bom senso? Onde as células reunidas para ser um corpo sejam as mais inteligentes?

E se for um mundo diferente, determinado por pessoas, como definição económica do novo produto interno bruto do sistema imunitário a que chamamos mundo?

To be continued…

Anabela Ferreira

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