O que fica nos livros

Uma mancha de sangue na página 68, a meio do texto sobre a palavra “vulnerável”, esbatida. Com o tempo, o vermelho foi desaparecendo até se imortalizar numa espécie de bordéus ressequido. Uma pincelada, apenas. Um borrão. Alguém que sangrou do nariz e terá passado um dedo desatento pela leitura? Um espinho de rosa que picou a pele, cruzou os vasos sanguíneos, seguiu por dentro do corpo do leitor até acabar molhando ao de leve a vulnerabilidade da palavra “vulnerável” impressa na página 68 de um livro lido em frente a um ribeiro numa aldeia do Minho? Ou uma leitora mais visceral, deitada sobre o próprio corpo, lia enquanto sangrava desejos? Uma mancha de sangue na página 68 de um livro encontrado e lido numa residencial de Monte Gordo, ali, à frente de todos os leitores, vermelha, depois castanha, no fim morrendo em bordéus semi-tingido. Quantos passaram os dedos por cima deste borrão, quantos se intrigaram, sorriram ao vê-lo, recordando antigos sangues próprios, ancestrais primevos eternos?

Logo no prefácio de um livro de Conan Doyle comprado nas ruas de uma cidade sem luz, não bem no prefácio, por cima do prefácio. No espaço em branco antes. Uma mancha em forma de arco-íris de tons alaranjados a perpassar a folha de um lado ao outro, vindo da ponta superior direita até acalmar a cor, já quase imperceptível, junto à costura central do livro. Um movimento cromático e geométrico intrigante para o leitor que, principiando o livro – ou nem isso, ainda antes de o principiar -, já tem uma trama com que se descoser. Que curva é esta? Um arco a cruzar a página composto por sucos de flores que alguém esfregou nas mãos e foi deixando, num gesto repentino e circular, no livro aberto numa desleixada tarde de Verão? Ou foi o livro a pintar-se a ele próprio, fazendo nascer cores da folha em branco ainda antes de o prefácio ser escrito? Ou o livro é que é uma flor que é um livro com cores de chuva e sol em laranjas? Ou o leitor, sem pudor nenhum, decidiu sonhar isto?

Enfiado entre o terceiro e o quarto capítulos, um pêlo púbico. Ou um cabelo suspeito? Uma ramagem minúscula de folhas? Desconhecendo a origem, o leitor decide que o elemento é das zonas baixas do corpo humano, não de cima nem de árvores, porque prefere as história por vezes menos óbvias. Qualquer coisa que o faça esquecer a última viagem a Dublin, as infinitas ruas sob o frio. A visão de um rio a congelar livros numa noite de pedras. O pêlo insinua-se, tocando as duas páginas num equilíbrio quase impossível. Este leitor, que está deitado numa cama de luzes baças dentro das páginas, olha o pêlo que o olha a ele e deixa que a ventania que a sôfrega leitura levanta faça voar para os lençóis brancos o último resquício celular entre dois desconhecidos.

Um vómito. Um extraordinário vómito. Ainda se notam matizes de linguiça, da gema de um ovo, de uma bebida verde. Está a página final de um livro de Chagas Freitas toda encharcada em vómito. As palavras quase extintas, apagadas, pouco mais que imperceptíveis. Um glorioso vómito a tingir de cima a baixo, de lado a lado, frases batidas e insonoras. Insondáveis. A leitora, ávida por concluir a história, procurou uma lupa para reconhecer as banalidades sob aquele maravilhoso quadro de dejectos gástricos. O castanho-sangue da linguiça numa primeira demão; depois, em segunda deboca, o amarelo já torrado de uma gema de ovo em decomposição; e, a finalizar, como último, derradeiro e mortal traço, a mancha verde de uma bebida em lava. FIM.

Ricardo Silveirinha

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