O heroísmo das operárias da Fábrica da Triumph – as falsas ilusões pagam-se caro!

Desde os finais de Dezembro último que os operários da antiga fábrica da Triumph, em Sacavém, na sua esmagadora maioria mulheres, se organizaram em turnos de 4 horas cada para se manterem à porta da empresa e impedirem assim a retirada da mesma de qualquer material ou equipamento como já foi tentado, aliás, pelos novos e antigos gerentes da empresa, com produtos já fabricados, viaturas e outros bens.

A Fábrica da Triumph foi criada em 1961 como uma filiar ou sucursal portuguesa do chamado Triumph Group International, um dos maiores grupos mundiais de produção e comercialização de roupa interior feminina, actuando em 59 países de todo o mundo, 20 dos quais na Europa.

A partir sobretudo de 2015, a empresa-mãe multinacional começou a levar a cabo um plano de “exteriorização” da produção, pretendendo manter em Portugal apenas a comercialização dos seus produtos que, aliás, não só nunca deixaram de ser reconhecidos pela sua qualidade como nunca deixaram de ter um elevado nível de vendas, quer no nosso País, quer por todo o mundo.

Começaram então as ameaças de encerramento da fábrica e de despedimento de todos os seus trabalhadores. O responsável máximo da empresa em Portugal, o administrador alemão Markus Spiesshofer, declarou mesmo, em Novembro de 2015, que se a fábrica portuguesa (entretanto com 530 trabalhadores) não fosse vendida durante o ano de 2016, iria ser fechada.

Sucedeu então que, após várias lutas e manifestações dos operários (uma em 17 de Dezembro de 2015, no Largo Real do Forte em Loures e outra em Maio de 2016 entre o Ministério da Economia, no Largo Camões, e a Assembleia da República) denunciando as manobras visando aquele despedimento, em meados do mesmo ano de 2016 foi anunciada, como verdadeira “tábua de salvação” da unidade fabril de Sacavém da Triumph, a sua venda a uma outra empresa, a Gramax.

Esta – sem que nenhuma organização política ou sindical a tivesse então desmascarado – apresentou-se, sob a nova denominação de TGI – Têxtil Gramax Internacional, como representando a renovação da empresa e a garantia do emprego dos seus trabalhadores, tendo mesmo prometido um investimento de um milhão de euros, designadamente em novas máquinas, em software, em formação profissional e até na contratação de mais trabalhadores (pelo menos, 20).

Chegou-se mesmo ao ponto de, em 4 de Janeiro de 2017, a Gramax ter feito uma pomposa apresentação de um suposto “novo modelo de negócio” numa cerimónia amplamente noticiada e que contou com as entusiasmadas e sorridentes presenças do ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral e do Presidente da Câmara Municipal de Loures Bernardino Soares.

Nessa mesma cerimónia, o Presidente Executivo (CEO) da Gramax, Manuel Pereira, declarou reconhecer a “localização geográfica privilegiada”, a “competência e valores da empresa”, gabando-se de ter mantido “os 500 postos de trabalho” e de ter “agregado um montante de 20 milhões de euros de volume de negócios”, reafirmando a plena viabilidade e a capacidade de expansão da Têxtil Gramax Internacional. Na mesma ocasião, Caldeira Cabral afirmava perentoriamente que “foi uma viragem positiva” e que “hoje temos uma empresa que, em vez de estar a fechar, está a investir, está a criar novos postos de trabalho (…) e tem também já um leque novo de clientes que garante um futuro interessante para esta empresa”. E Bernardino Soares proclamava: “esta fábrica não só continua a funcionar como alarga as suas perspectivas de futuro numa forma que nos dá hoje uma segurança de podermos vir a ter durante muitos e bons anos esta fábrica têxtil aqui a funcionar no concelho de Loures com os seus postos de trabalho e com a sua capacidade produtiva” (sic!?).

O que nenhum destes personagens revelou porém, e desde logo aos próprios trabalhadores da Triumph, é que a referida Têxtil Gramax Internacional não passava afinal de uma subsidiária (e detida por ele a 100%!) de um Fundo de Investimento Suíço, o Gramax Capital, criado em 2011 e que em Portugal tinha, em Julho de 2015, adquirido à Sonae a participada francesa Darbo, SA.

Ora, todos sabemos que a lógica dos Fundos de Investimento não é, nem nunca foi, a de “viabilizar empresas”, mas sim a de as esquartejar e depois “vender às postas” pelos valores mais rentáveis em cada momento.

E é assim que, cerca de 11 meses depois daquela gongórica cerimónia, logo a gerência da TGI começou primeiro a falar na pretensa necessidade de um plano de reestruturação e do despedimento colectivo de, pelo menos, 150 trabalhadores, invocando para tal a falta de carteira de clientes de que precisamente se vangloriara antes, e, depois, acabou por se apresentar à insolvência em Dezembro último.

Isto, após já ter vendido parte do património da empresa em Camarate e de ter ilegalmente diminuído os salários dos trabalhadores entre 40% e 50% através da redução ou do não pagamento da componente retributiva fixada a título de prémios de produção.

Entretanto, o mesmo Presidente da Câmara Bernardino Soares vai “declarar solidariedade” e bater nas costas das trabalhadoras em vigília à porta da fábrica e o mesmo ministro da Economia Manuel Caldeira Cabral procura pôr-se à margem da questão, recusando qualquer intervenção e afirmando apenas e unicamente que “acompanha o processo com preocupação”.

Ou seja, depois de terem sido iludidos e levados a acreditar que os seus problemas estavam resolvidos mediante a compra da fábrica por um Fundo de Investimento, os trabalhadores da antiga Fábrica da Triumph vêem-se agora abandonados à sua sorte e confrontados com a crua realidade de que aquilo que o tão elogiado Fundo fez foi tratar de entretanto retirar de lá tudo o que fosse rentável e vendável (da carteira de clientes ao know-how, passando pelo património) e de seguida atirar para o desemprego os mesmos trabalhadores.

A coragem demonstrada pelas operárias da antiga Fábrica da Triumph – ao impedirem, com a sua própria presença, à chuva, ao vento e ao frio, à porta da empresa, a continuação do saque e a retirada dos bens e produtos que ainda restam – é heróica e exemplar.

Mas não deixando nunca de lutar, não podem nem devem deixar de retirar a lição essencial de todo este processo: a de que ilusões como aquelas que foram pregadas pelos capitalistas novos donos da fábrica e propagandeadas pelo Ministro e pelo Presidente da Câmara se pagam muito caro e que, enquanto houver capitalismo, é precisamente esta a lógica que prevalece, a de as explorarem durante toda uma vida e depois atirarem-nas para um canto como coisa imprestável.

António Garcia Pereira

Um comentário a “O heroísmo das operárias da Fábrica da Triumph – as falsas ilusões pagam-se caro!”

  1. Fernando Nunes diz:

    Caro Garcia Pereira,
    justiça ao seu comentário frontal á realidade, porque até ao momento foi o único “notável” a desmontar a arquitetura fraudulenta de uma insolvência também ela fraudulenta e premeditada.
    Não foi só em Portugal que este “grasshopper” se instalou. Temos o caso da Schmal na Alemanha que é outro exemplo dos verdadeiros objetivos e especialização desta empresa https://www.rheinpfalz.de/lokal/kusel/artikel/waldmohr-hoffnungsschimmer-fuer-moebelhersteller-cs-schmal/ (artigo em Alemão).
    De realçar ainda o investimento financeiro em Outubro último na empresa Francesa Huit. Esta é a vitima seguinte.
    http://www.thebestofintima.com/en/magazine_detail/huit_acquired_by_gramax-3454.html
    Palavras para quê! Os indícios estão todos aqui! Haja apenas coragem para agir juridicamente em conformidade.

    Fernando Nunes

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