Porque me orgulhei da Wallonie, esta aldeia gaulesa na Bélgica? (por Anabela Ferreira)

cavalo-de-troiaQuantas vezes um problema – que pode parecer ou até mesmo ser- do tamanho de um grão de areia pesa uma tonelada? Quantas vezes esse grão de areia é um problema chamado mundo?

É nesses momentos que me viro do avesso, faço o grão de areia dar um pino com flic flac à rectaguarda, seguido de empranchado lateral e me transformo em problema para o mundo.

Eu, ou qualquer um de nós o pode ser. Indíviduo, vila, cidade, Estado. Cada um tem o poder – mesmo com dores pelas costelas partidas na queda que se segue ao brutal movimento descrito- de reclamar a sua medalha.

Foi o que fez um pequeno estado belga, a Wallonie. Bateu-se pela não assinatura do CETA, o acordo comercial entre Europa e Canadá. Todos os estados têm de o ractificar. Eles desobedeceram.

Dizem as más-línguas contra o grande capital, as grandes corporações e os mercados – onde se encontram três bancas de compra e venda: dinheiro, poder e ganância, que este é o cavalo de Tróia do TTIP. O tal tratado trans-oceanos que faz com que o poder dessas três bancas poderá fazer com que legislação em caso de litígio entre interesses dos cidadãos e das corporações venha a favorecer as últimas.

Claro que o Canadá não é a Arábia Saudita. É bom fazer acordos de parceria e comércio. O estado canadiano é de confiança. É um estado de bem. Assim deveriam ser todos num mundo perfeitinho sem distopias. Mas os mercados com as suas corporações que mandam não são. E são essas que vêm dentro do cavalo.

Portugal já foi vendido à China em indústrias e serviços cruciais para a Nação. A Europa não tem uma classe política a protegê-la, não de bons acordos comerciais mas da prostituição comercial. E agora, encontramo-nos num momento crucial. O mundo, qual prostituta, tem vindo a obedecer à ordem de abrir as pernas, não cobrar, nem tugir, face a estes mercados e corporações fundamentalistas, cuja prioridade é proteger os seus próprios negócios. Estúpidos que somos…nem queremos ver o capitalismo na sua forma mais pesada, qual apartheid, escravatura ou idade das trevas.

Estes acordos retiram direitos civis em troca de direitos para empresas e corporações. A legislação protegerá apenas e exclusivamente as mesmas fazendo política de terra queimada dos cidadãos, pequenos comércios e pequenas indústrias.

O que importa agora, num mundo com o problema de ser governado por corporações e mercados, cada um tornar-se um problema para o mundo. Desobedecendo. Vivemos como diz o sociólogo Zigmunt Bauman um período de “interregnum” ou de encruzilhada, segundo Manuel Castells. Qual o caminho a seguir e quem é que o vai começar e fazer?

Somos nós, cada um de nós, que determinou sempre o curso do rio, na direcção do mar, o futuro. Não queremos que seja o mar a vir na nossa direcção e nos alague. Somos e vivemos como bombas-relógio, ou minas prontas a rebentar.

Temos e podemos ser terreno fértil para soluções de futuro e não oferecer terreno fértil para o minar. Virando as costas à obediência de quem manda abrir as portas de par em par como bons anfitriões. Não sejamos bons, tolos e ingénuos. Sejamos feios, porcos, maus e desconfiados.

As piores situações que passaram pela existência da Humanidade resultaram da força da obediência. De deixar entrar cavalos. Se temos cavalos de Tróia fundamentalistas- as corporações com a sua lei da selva- a tentar entrar em casa, sejamos o problema fundamentalista, disposto a saltos mortais sem prancha,  que os cavalos terão de enfrentar.

Desobedecendo  às ordens dadas, o pequeno estado belga da Wallonie com o seu parlamento, protegendo os seus cidadãos, neles incluindo agricultores e indústrias, está a fazer o único caminho que a encruzilhada indica, o da política, o da desobediência política. Para sairmos deste interregnum que é assistir à puta deitar-se sem questionar, sem se defender, nem aplicar um gancho empranchado ao cavalo fechando-lhe as pernas.

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