Metro de Lisboa: Administração e Governo a brincarem com o fogo

É sabido que o Metro de Lisboa vem acumulando problemas de funcionamento uns atrás dos outros. Assim, e para não irmos mais longe, verificaram-se problemas nos freios de travagem electromagnéticos nos comboios (em 2015 e 2016) e nas portas (2015, 2016 e 2017); falta de bilhetes à venda (entre Setembro e Dezembro de 2016); falta de rodados, cada vez mais desgastados (Janeiro de 2017). Tudo isto decorrente de uma política de empresa assente na ausência da devida manutenção, quer do material circulante, quer dos sistemas de bilhetes, da sinalética, da energia, da própria via férrea, e até das instalações (sejam as do serviço reservado, sejam as utilizadas pelos passageiros), no desguarnecimento das estações e na falta de trabalhadores qualificados, quer para as áreas oficinais (onde eram precisos mais de duas dezenas e não entrou um único trabalhador), quer para as estações (dos 80 necessários, entraram apenas 30), quer para o sector dos maquinistas (e dos quais, sendo precisos pelo menos 30, foram admitidos apenas 10).

É igualmente facto que no referido mês de Janeiro de 2017 já se verificara a imobilização de 23 comboios (Unidades Triplas), com graves consequências para o serviço público de transporte de passageiros, como por exemplo a de a Linha Azul passar a operar, ainda por cima à hora de ponta, com comboios que, alternadamente, iam ou até à Reboleira (fim da linha) ou até ao Colégio Militar.

Para fazer face a todas estas situações, a Administração tratou de colocar aos trabalhadores a necessidade de que trabalhassem 6 dias por semana (abdicando assim de um dos dias de descanso semanal) e determinou unilateralmente a alteração e o agravamento das horas de trabalho dos maquinistas, obrigando-os a operar em condições ainda mais penosas e degradantes.

Mas é óbvio que nem mesmo assim foi possível tapar o sol com a peneira.

Sobretudo depois das tragédias de Pedrógão Grande e do 15 de Outubro, é absolutamente intolerável que coisas dessas se repitam. Todavia, a verdade é que o Metro de Lisboa persiste em ser, também ele, um exemplo cada vez mais gritante da manifesta incompetência e da cada vez mais perigosa irresponsabilidade.

Com efeito, não obstante as sucessivas denúncias e protestos por parte das organizações dos trabalhadores da empresa, a sua Administração nada faz, nem fez, para alterar o actual estado de coisas, e a tutela governamental (o ministro do Ambiente) até veio entretanto dizer que… “o Metro de Lisboa está muito melhor”.

Porém, o que esses responsáveis não dizem e até tratam, por todos os meios, de ocultar, são três coisas, todas elas de enorme gravidade:

PRIMEIRAEstão neste momento parados no Metro de Lisboa 32 (exactamente: 32!?) – comboios e para lá caminham entretanto mais 3, num total de 35! Tudo isto por força da falta de capacidade de resposta da entretanto desinvestida e desarticulada Manutenção, quer em termos de peças, quer em termos humanos (nº de trabalhadores). Com a actual Administração da empresa – que há mais de 2 anos se procura desculpar com o anterior governo… – apenas a querer “tapar buracos”, e não contratando os trabalhadores necessários (designadamente, mais de 20 electromecânicos) mas sim tratando de promover a negociata dos “outsourcings”.

SEGUNDA – (E esta, verdadeiramente criminosa) – Perante as faltas e avarias de comboios, a Administração, através do seu Director de Operação Tiago Silva (que se atreveu mesmo a dirigir aos trabalhadores no Domingo, dia 5/11, um mail nesse sentido), e sob o pretexto da realização na cidade de Lisboa da “Web Summit”, está a dar instruções aos inspectores e encarregados de tracção para que estes acompanhem os comboios em circulação e obriguem os maquinistas a circular em clara violação das regras de segurança, designadamente as fixadas no próprio RCC (Regulamento de Circulação de Comboios). Para além da já denunciada e agora reforçada prática, para assim tentar recuperar atrasos, da imposição como normais de manobras com acrescidas margens de risco (como as “entradas directas” para o lado direito das plataformas e as “circulações de serviço” que não param em apinhadas estações intermédias), agora a Administração do Metro pretende também que a circulação em toda a rede seja feita à velocidade máxima (60 Km/h) e que os comboios circulem mesmo com avarias graves, como as das portas.

TERCEIRA – Face à acima descrita falta de material circulante (mesmo pondo a circular comboios que não o deveriam estar) e à realização da referida “Web Summit”, com qualquer coisa como 70 mil bilhetes já vendidos, e para procurar “fazer omeletas sem ovos”, a Administração do Metro de Lisboa está a tratar de desviar para as linhas vermelha e verde comboios que deveriam circular nas linhas azul e amarela, obrigando os passageiros destas últimas a terem de suportar tempos de espera ainda superiores aos já hoje indevidamente praticados e incumprindo assim, e de forma ainda mais escandalosa do que já vinha fazendo, as obrigações de serviço público de transporte.

Apesar de todos os avisos mais que repetida e atempadamente feitos, designadamente pela Comissão de Trabalhadores e por alguns Sindicatos, o Metro de Lisboa tem actualmente 3 dezenas e meia de comboios parados e já teve de mudar, em apenas 8 meses, cerca de 400 rodados de comboios, e daqueles que circulam, vários continuam a apresentar deficiências e avarias graves, designadamente ao nível das portas e são operados em manobras particularmente perigosas. Tudo isto de par com a degradação do serviço prestado, com atrasos e espaçamentos horários cada vez maiores e composições e estações cada vez mais sujas e degradadas.

E o certo é que, à mesma maneira como se lidou com os fogos florestais, todos os responsáveis assobiam para o lado e negam os problemas, e do que tratam é de procurar impor modos de funcionamento irregulares e que pisam por completo a linha vermelha da segurança de passageiros e trabalhadores.

Até pode ser que, muito por via do enorme e dedicado esforço dos seus trabalhadores, felizmente nada suceda por agora.

Mas, na verdade, é absolutamente inaceitável que tenha mesmo de acontecer algo de grave para (só então) se ir constituir comissões de inquérito, elaborar relatórios, apurar responsabilidades e adoptar medidas a sério!

Basta, pois, de incompetência e, sobretudo, de irresponsabilidade! Antes que seja tarde demais!…

Lisboa, 9 de Novembro de 2017

António Garcia Pereira

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