Não penso, logo existo!

As vítimas de abusos – sexuais ou outros – não são culpadas. Culpados são os agressores. Culpados são os que se sentem confortáveis nas suas posições de poder e por isso se consideram impunes. Porque esse poder lhes é oferecido e à sua volta os olhos estão bem fechados.

Este é um axioma que deveríamos escrever numa ardósia de cada vez que como grupo ou indivíduo, desdenhamos ou relevamos para o estatuto de oportunista uma verdadeira vítima.

Aquilo a que os enólogos chamam “corpo” no vinho, é o que nos falta na vida: alma. E pensamento.

Como o sushi, a caldeirada, as sardinhas, o pão e o melão nos alimentam estruturando o corpo, a palavra escrita tem esse efeito no ser humano, estrutura-lhe o espírito. Deste modo, escrevendo, enlouqueço mais lentamente ao pensar no assunto que vos proponho reflectir.

Que tem o vinho a ver com a loucura, sexo, poder, alma e o pensamento?

Fiquem comigo que chegarei ao corpo do paralelo em menos de um pequeno voo.

Para manter um grupo em situação precária – seja ela qual for – basta criar climas de tensão, que qualquer pessoa ficará aprisionada dentro do seu medo. A partir daqui manipulam-se os humanos a belo prazer. Está estudado e verificado.

O sexo é usado desde sempre para criar situações precárias na vida de outros seres humanos. Basta pensarmos no sucesso das redes de pedofilia, de prostituição, dos abusos sexuais e nos círculos de violência doméstica.

Os homens têm sabido colocar a testosterona ao longo de milhares de anos de regime patriarcal tornando-se quadro normal – a violência contra as mulheres e a sua aceitação quando fechamos os olhos e assobiamos para o ar- associada a uma vida em clima de tensão, ficando estas vítimas aprisionadas no medo e na vergonha.

Mulheres também procuram o mesmo poder quando repetem estes comportamentos hediondos. Sempre em nome de um pequeno grande poder: o domínio pelo sexo.

Daí que as vítimas se adaptem e sobrevivam por muitos anos sem expor o seu medo e a sua vergonha. Antes subjugá-los que ser julgado pelos pares reavivando-os de novo.

Todos os casos vindos a público de assédio sexual – sobre homens e sobre mulheres – violência doméstica, abusos sexuais, violações, fazem levantar o sobrolho aos mais cínicos: “aqui há muito oportunista”. Certamente que os haverá. Mas a minha questão está centrada no meio usado para criar tensão e medo: o sexo. Sempre o sexo.

O fantasma obsessivo de catarse colectiva ainda não expurgado pela espécie (por milénios de castração, medo e vergonha da sua prática) vem talvez sob a forma de serpente cuspideira de veneno como forma de domínio e poder de uns poucos sobre muitos. A Igreja usou-o desde sempre, os nobres usaram-no, e os privilegiados de sempre no poder usam-no sem agravo e como apelo à própria sobrevivência.

Pensar que o maior prazer físico que estrutura e alimenta o corpo – o orgasmo – é usado desta forma predadora e canibal, faz-me pensar no possível erro da existência.

A ignomínia do uso de um poder- seja ele qual for – para colocar uma vítima num ciclo de tensão e medo por forma a tê-la dominada, por predadores impunes– alguns muito bem educados, com meios materiais de estrutura e alimento do corpo e espírito – está cimentado nalgum erro evolutivo que nem Darwin se apercebeu.

Enquanto o sexo e o seu uso forem a obsessão da raça, assistiremos a comportamentos de abuso do poder do mais forte, sendo afinal o mais fraco aquele que terá de melhor se adaptar para sobreviver e evoluir.

Quais canibais procuramos sangue e carne fresca à velocidade da luz, para satisfazer o nosso voraz apetite. Por isso talvez, ainda hoje, façamos sacrifícios com animais e crianças, usemos o sexo – a mais íntima e mais sagrada dignidade do ser humano – como catarse para sacralizar e/ou expurgar fantasmas e demónios e manter outros subjugados.

Acredito – como diz o neurocientista António Damásio e outros que o precederam até Séneca – que é a cultura e a educação que nos distinguem dos restantes bichos. No íntimo regozijo-me (apesar de enojada) com a descoberta de todos os horrores. Não é caça às bruxas, é finalmente a consciência do axioma com que comecei este texto. É sentir a libertadora vontade de romper o círculo de medo e vergonha.

Qualquer tentativa de violência sexual conseguida (ou não) sobre crianças/jovens/adultos de qualquer sexo é uma violência. Que deixa marca pela vida fora e condiciona toda a estrutura do espírito, da alma, do corpo.

Haver homens e mulheres que desdenham ou menorizam estes comportamentos não é ser politicamente incorrectos é ser humanamente ignorante. Para além de muito estúpido. Fazem parte do grupo de predadores de olhos fechados que não pensam, porém existem.

Até chegarmos à lógica distintiva dos demais bichos de Descartes, “pensamos, logo existimos”, estaremos condenados a cometer muitas abomináveis acções que nos levam à desestruturação como raça, ou antes faremos uma correcção da rota no caminho evolutivo?

Não tenho resposta mas sim uma crença estrutural. Descermos ao abismo para vermos cruamente quem somos, de como nos alimentamos para estruturar corpo e alma e pensarmos qual o caminho que queremos traçar, é talvez a maior aprendizagem que temos a oportunidade de fazer enquanto espécie.

Anabela Ferreira

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