O saque que se seguiu e o révu Luaty Beirão.

Faz hoje dois anos que conversei com Luaty Beirão na sua passagem por Bruxelas, onde eu vivia na altura. Foi um encontro quase às escondidas, rodeado de algumas precauções, tomadas por ele e por quem o protegia, num hotel onde nem se inscreveu com o próprio nome, por razões de segurança. Todos sabíamos que o regime não gosta de perdoar os seus inimigos. Normalmente quem se opunha ia parar a parte incerta, aos calabouços ou recebia a morte. Ou seja, o tratamento comum dos ditadores aos seus oponentes.

A liberdade é nestes regimes a aspiração sagrada, mais do que a própria vida. A utopia da distopia. Tornando-se na luta dos heróis que atravessam os tempos. Parar as desigualdades e o medo.

O retrato do país rico que é Angola, apenas nas mãos de uma mão cheia de dedos, era visto e sabido por toda a gente. Não eram necessárias provas, porque a vida miserável deste povo, privado de pão, abrigo e liberdade estava num esgoto tendo o céu aberto por cobertura.

As provas do roubo chegaram agora pelas mãos de denunciante(s). Talvez um pinto filho de um dos ovos das muitas galinhas vendidas e que deram fortuna à filha de dos Santos.

Luaty, um filho de um dos homens fortes do regime, tinha acabado os trinta e seis dias de greve de fome, contra o regime de Eduardo dos Santos. Privilegiado e por isso mesmo com mais responsabilidade, a esta não se escusou.

Estava em Bruxelas para ser recebido pela UE e receber um prémio pelo seu activismo político, em nome da sua amada terra Angola, que quase lhe custou a vida.

Um jovem homem inteligente, sensível, consciente de todas as realidades, motivado, desafiador, rebelde, confusicionista e à altura do combate pela força do seu carácter. Em nome da ética e da moral que demonstrou possuir.

Um exemplo comparável a heróis que lutaram pelas independências das ex-colónias portuguesas que posteriormente morreram às mãos de assassinos, em nome ou do colonialismo ou dos que se sentaram no poder pós colonialismo, cadeira essa que os preparou para o saque que se seguiu.

A experiência da prisão, dos abusos policiais, dos maus tratos e da greve de fome, em nome de uma causa maior que a sua própria vida e da sua família, falam sobre ele.

A sua experiência de proximidade e convívio com a morte deu-lhe certamente o sentido verdadeiro da vida. Somos apenas um corpo que acaba, mas o que fazemos no tempo que chamamos vida é a razão da existência e fica na história da espécie.

O privilegiado Luaty podia ter escolhido o caminho mais cómodo. Podia estar acomodado, ser um mero espectador. Não ser nem criminoso, nem vítima, apenas ver sem se incomodar. Podia ter escolhido o combate do bem-estar para si e para os seus próximos. Nada tinha que o incomodasse.

Tantos filhos do regime escolhem esse caminho. Luaty ( talvez a psicologia tenha mais explicações) deu-se a si próprio a elevada missão de mostrar a feiúra do regime angolano ao mundo.

O seu pai, João Beirão, desde o início do regime angolano, esteve ligado a este e a José Eduardo dos Santos. Talvez quem entre no ovo de lá não possa sair, como nos conta a música “Hotel Califórnia”. Deu ao Luaty os privilégios que significavam estar ligados ao regime.

Estudos fora do país, viagens para saber do mundo lá fora. Sabia (certamente) que o filho poderia ser uma de duas coisas. Ou um cidadão consciente que questionaria o que via e acontecia na sua terra (com a sua conivência – do pai) ou escolheria a confusão.

Por aquilo que o seu pai podia (e devia) ter feito e por negligência, comodismo, incapacidade ou medo não fez – que seria lutar pelo povo angolano independente e a viver na prosperidade – as razões da guerra de libertação do governo colonial Português, moveu-se Luaty.

Há testemunhas (mulheres) que contam os maus tratos, responsabilidade de João Beirão (entre muitos do MPLA/DISA- polícia do Estado Angolano), num processo de absurda maldade e terror que foi o 27 de Maio de 1977, em tempos do presidente (para alguns denominado maquiavélico) Agostinho Neto. À minha questão sobre estes testemunhos Luaty disse-me que um dia gostaria de os conhecer (o que talvez venha a ser muito difícil porque estas mulheres têm o pesadelo enterrado no passado e não lhe querem mexer).

As razões do filho Luaty, talvez venham do inconsciente, da arte que imita a vida. Quando quantas vezes na tragédias Gregas assumindo o incumprimento do dever de seus pais, os filhos resgatam esse dever eles próprios, como gesto de compensação e reparação. E quantas vezes não são os filhos que pagam e sofrem pelo karma dos pais?

Considerações pessoais à parte, Luaty tornar-se-ia um ser consciente das injustiças, do mal infligido aos seus conterrâneos, consciente dos roubos descarados (apenas agora, aparecem os documentos que provam os mesmos com a denúncia “Luanda Leaks”), partindo numa missão de confronto, nem que tivesse de morrer. Uma Joana d´Arc contemporânea.

Sobre a possível participação de George Soros, através da Open Society, no apoio financeiro à causa, Luaty tem uma opinião firme. Se este de facto ajuda estes movimentos de activistas, para um bem maior e uma causa comum de libertação de regimes opressores, não encontra qualquer problema. Eu também não. Não é dinheiro sujo, vindo de diamantes de sangue ou do saque a um povo. É quase justiça poética vinda de um judeu mecenas. Se tem uma agenda escondida? É provável, mas a causa é bem maior que os intervenientes.

É muito fácil conversar com Luaty. Tão fácil que duas horas passaram a voar. Genuíno, puro, rebelde, culto, inteligente, iKonoclasta- aquele que quer quebrar e opor-se a más tradições.

“Não sou puro (em resposta à minha pergunta) – apesar de sair convencida da nossa conversa de hoje que é com pureza que fala e sente. É com a autenticidade de um homem bom e puro de que Angola tanto precisa. Respondeu-me a tudo o que eu quis saber, sem preconceitos – “apenas quero desbravar caminho, quem sabe um dia virão outros fazer a terraplanagem, e em seguida outros virão plantar árvores e a seguir outros colocar candeeiros. Bastava que Angola tivesse alguém que com amor e vontade mexesse um pedacinho na engrenagem para as peças se começarem a mover e começarem a encaixar e a funcionar para o bem de todos”.

Fazer nascer outra Angola. Se bem podemos agora esperar, do verbo esperançar, estamos todos – em especial os angolanos ou todos os que àquela terra estão ligados por amor – a ver os frutos da luta dos révus e de Luaty em particular.

A resistência através da acção de um só pássaro (ou poucos), prova mais uma vez que as utopias são possíveis e passíveis de alcançar.

Foram duas horas de conversa intensa que começaram num abraço caloroso e amigável e terminaram num abraço caloroso de cumplicidade.

O grande desejo de Luaty Beirão – “que o povo angolano deixe cair o medo pelas costas sofridas e o entregue nas águas para que seja levado e lavado nas marés” está claro como a água de uma das muitas cascatas angolanas.

A passagem de setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz-Birkenau (de relembrar o paralelismo, porque os campos de concentração e extermínio aconteceram com a complacência dos milhares que pactuaram, silenciaram, viram mas nada fizeram), vem com Luaty, provar que não se pode calar, pactuar ou aceitar qualquer tragédia, no caso de Angola, caída nas mãos de uma oligarquia mafiosa com ordem para acabar com o seu povo, sob o silêncio cúmplice de todos os Estados e centenas de cidadãos beneficiários.

Por todas as razões, recordo este dia de conversa com Luaty Beirão há dois anos. Como ele próprio disse, “vou semeando”. Esse é o papel que fez, faz e quer deixar feito.

Semeaste como outros e hoje Angola por causa das tuas acções ( e agora pelas revelações com provas do roubo da família toda poderosa do regime), e contra o homem que ajudaste a fazer sair do poder, poderá ter virado uma página, havendo um livro inteiro de páginas em branco para escrever uma nova História.

Saúde e liberdade Luaty. Para a tua terra e para ti.

Anabela Ferreira

Um comentário a “O saque que se seguiu e o révu Luaty Beirão.”

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