Onde nos leva a ideologia capitalista

Pelas 3 horas da madrugada de Domingo, 10 /10, Paulo Correia, um jovem de 23 anos, foi violentamente agredido com murro, pontapés e pancadas com uma garrafa à porta de uma discoteca na zona da Rua Passos Manuel, no Porto. Desta brutal agressão – cometida, ao que foi noticiado, por dois indivíduos, com a ajuda ou o incentivo de mais cinco – acabou por resultar a morte do jovem. Não obstante a brutalidade do crime, foi publicado nas redes sociais um vídeo feito pelos suspeitos quando se encontravam detidos e algemados no interior de uma viatura da polícia, rindo-se e ostentando um ar de gozo pela situação, e desde logo pela própria detenção, numa gritante postura de inqualificável alarvidade.

Entretanto, exactamente uma semana antes, no estabelecimento de diversão nocturna “Club Vida”, em Albufeira, e conforme se pode claramente ver por imagens de câmaras de vigilância do próprio estabelecimento, um corpulento segurança, com notória experiência em artes marciais, agrediu violentamente um outro homem com dezenas de socos e pontapés durante cerca de 30 intermináveis segundos, tendo a vítima ficado desmaiada no solo e, soube-se mais tarde, com inúmeras contusões por todo o corpo e o maxilar fracturado. Nessas imagens, choca, antes de mais, a forma primeiro traiçoeira (a seguir a uma aparentemente amena conversa, com umas pancadinhas nas costas e até um simular de afastamento) com que o agressor apanhou a vítima inteiramente de surpresa, e, depois, a forma completamente brutal e cobarde com que prosseguiu a agressão, mesmo quando o agredido já estava no solo, incapaz de se defender. Mas choca e impressiona igualmente a arrepiante indiferença com que a meia dúzia de pessoas presentes no local a um ou dois metros de distância absolutamente nada fez. Mesmo os dois elementos da GNR que apareceram próximo do final das imagens actuaram com uma brandura para com o agressor que é de estarrecer.

A estes dois casos, separados por uma escassa semana, somaram-se outros, quer anteriores, quer posteriores, de cobardes violências física e psicológica.

Ora, tão grave e vergonhosa é a brutalidade destas agressões agora publicamente conhecidas como o é a ufana cobardia daqueles que, a coberto da superioridade física ou de meios, a praticam, nalguns casos diariamente, sempre na, infelizmente muito habitual, certeza da impunidade deste tipo de condutas. E até por isso mesmo tão importante é investigar e determinar a responsabilidade dos seus concretos autores, e também dos seus cúmplices, instigadores e encobridores, e sancioná-los devidamente, como é compreender de que modo e porquê se vem tonando possível esta verdadeira banalização da barbárie, bem como que é preciso fazer para a vencer.

A verdade é que vivemos hoje numa sociedade em que os valores da solidariedade, da amizade, da entreajuda, do respeito pela pessoa e pela dignidade do outro, da elevação de princípios e da honradez de carácter são, e cada vez mais, desvalorizados, atacados, destruídos e substituídos pela lógica do individualismo extremo, do desrespeito, da confiança e até do ódio pelo “outro” (muito em particular se ele for “diferente” em razão da nacionalidade, do género, da cor da pele, da orientação política, religiosa ou sexual ou simplesmente da sua opinião[1]), da busca do dinheiro e do poder a todo o custo, do sucesso obtido por qualquer forma e das teorias, das mais ostensivas às mais subtis, de que os fins justificam todos os meios, por mais brutais e indignos que estes sejam.

Na lógica da negação do colectivo e da apologia do individualismo mais extremo e da competição mais feroz – próprios da sociedade em que o dinheiro, a busca do máximo lucro e o poder são os valores supremos – o apelo aos sentimentos mais primários e mais baixos das pessoas, a pregação da admissibilidade e da pretensa necessidade de submissão às mais humilhantes e vexatórias violências, designadamente morais[2], a contínua defesa laudatória da concorrência mais feroz e da concepção do colega de escola ou de trabalho como um inimigo[3] que pode, e deve, ser “abatido” por qualquer meio como forma de assim se abrir caminho ao “sucesso”, são desta forma todos os dias cultivados, desenvolvidos e reproduzidos na nossa sociedade e nas suas organizações.

E correspondem, afinal, à necessidade de assegurar o cimento ideológico que sustenta, de alto a baixo, a sociedade capitalista, e que é essencial para assegurar a sua sobrevivência ou, dizendo melhor, a sobrevivência dos que vivem, ascendem social e politicamente e enriquecem, precisamente à custa de explorarem, espezinharem e oprimirem os outros[4].

A tolerância, para não dizer a compreensão ou até o elogio – sustentados inclusive pela doutrina de alguns autores da Política, da Economia e da Gestão, e pela jurisprudência de algumas das decisões da Justiça – para com os actos de violência doméstica ou de violências sexuais, para com violências infames como as de certas praxes universitárias, ou as dos abusos em meios religiosos, ou ainda para com o terrível flagelo em que se tornou, também no nosso país, o assédio moral no local de trabalho, constitui a outra face dessa missa ideológica com que todos os dias somos bombardeados e que visa moldar-nos nessa autêntica e criminosa corrupção ideológica.

Com a degeneração política e ideológica das organizações e dos dirigentes políticos que se dizem defensores de quem trabalha, e que se foram assim rendendo às “virtudes” do capitalismo, o discurso, muito conveniente para os interesses dominantes, de que as ideologias acabaram ou já não fariam sentido e o desarmamento perante as ideias e teorias mais bárbaras e retrógradas foram-se assim impondo cada vez mais.

Os discursos do individualismo feroz, do poder e do sucesso a todo o custo e do ódio tornaram-se mesmo um negócio altamente rentável, sendo, deste modo cada vez mais imprescindível assegurar a sua reprodução e o predomínio no quotidiano de cada um.

E é assim que, sobretudo após as públicas denúncias de Frances Haugen (uma cientista de dados que trabalhou até Maio no Facebook) e os inúmeros documentos por ela divulgados, o gigante das redes sociais não apenas tem acumulado lucros absolutamente fabulosos com as publicações mais falsas e odiosas como também que o algoritmo por ele criado – e que, nomeadamente, define quais os conteúdos que surgem e por que ordem no chamado “feed” de notícias de cada um dos seus milhões e milhões de usuários ­– foi programado precisamente para promover a difusão das notícias falsas e a ampliação do ódio ao outro.

E tudo se verifica também desde os anúncios publicitários – como o de que hoje em dia ninguém empresta nada a ninguém sem uma garantia – às teorias do Direito, da Gestão e da própria Ciência Política que continuamente sustentam uma espécie de “darwinismo social”, segundo o qual só os mais fortes e mais espertos conseguiriam sobreviver, tendo assim o direito “natural” a fazer tudo por isso, inclusivamente destruir, por qualquer meio, o “concorrente” mais fraco (porque simplesmente mais débil, mais doente ou mais velho).

O aluno que propositadamente induz em erro o colega para assim conseguir ter uma classificação melhor que a dele; o bufo que, para ficar de bem com o patrão ou o Estado, aceita (ou até se oferece) para espiar e denunciar os seus camaradas de trabalho; o político ou o jornalista que aceita manipular e distorcer a verdade dos factos e/ou até participar em verdadeiras “campanhas de cerco e aniquilamento” para assim eliminar adversários ou críticos incómodos e/ou alcançar uma qualquer vantagem, económica, política, de carreira, ou outra, são, todos eles, arvorados e incensados pela ideologia dominante como exemplos de “sucesso”, a seguir e a multiplicar, e, como se tem visto, devidamente recompensados, com lugares de destaque, com bons salários e/ou até com condecorações oficiais[5].

Dentro desta lógica não nos deve, pois, espantar – mas antes indignar e suscitar o nosso firme combate – algumas outras coisas a que assistimos recentemente com toda esta podridão, também ideológica. Já nem nos deve causar surpresa que, em diversos sectores da sociedade totalmente dominados e controlados pelo Poder, tais como a Administração Pública ou a própria Comunicação Social, predominem a servil submissão ao chefe, o espírito de alcateia e a sempre conveniente amnésia.

E é assim que, ao mesmo tempo que personagens como Miguel Relvas[6] podem regressar, e em horário nobre, aos grandes ecrãs televisivos (neste caso da TVI, na chamada CNN Portugal) como grandes “especialistas” e “comentadores”, os mesmos que elogiaram e sustentaram personagens como Zeinal Bava, Ricardo Salgado[7] , Joe Berardo, Luis Filipe Vieira e João Rendeiro, agora que alguns deles se encontram na mó de baixo, acorrem, na maior das hipocrisias e como se afinal não os conhecessem de lado nenhum, a chafurdar na lama e a bicar nos respectivos corpos ainda quentes!…

Significa tudo isto que o mundo está perdido e nada há a fazer? Não, de todo! É que é precisamente nestas alturas que exemplos mais elevados como os de Miguel Unamuno (que já por diversas vezes citei, quando enfrentou o sinistro general fascista Millán-Astray) e de Gabriel Garcia Marquez (que, na carta/testamento que terá dirigido aos amigos proclamou que “um homem só tem de olhar outro de cima para baixo se for para o ajudar a levantar-se”) mais devem ser lembrados e seguidos. Mas, sobretudo, que temos de compreender que só desmembrando o sistema que produz aquela ideologia reacionária será possível desmontá-la e derrotá-la de forma consequente.

Batermo-nos por uma sociedade mais justa, sem opressão nem exploração, em que todos os seres humanos sejam prezados e tratados com igual dignidade e onde os valores éticos mais elevados estejam sempre presentes em toda a nossa actividade constitui, assim, um horizonte que pode estar longe, mas pelo qual valerá sempre a pena lutar!

Essa tarefa será difícil, sem dúvida; impossível, jamais! Por isso, digamos em conjunto, tal como José Régio, “Não, não vou por aí!”.

António Garcia Pereira


[1] As teorias do chamado “otherism” procuram justificar a exclusão social, a discriminação e a perseguição de todos os que não se insiram nos critérios (política, social, religiosamente) considerados “normais”. Nesta lógica, os desempregados e os pobres são estigmatizados, discriminados e até perseguidos, inclusive criminalmente, por não terem conseguido alcançar o “sucesso”, sendo assim apontados como responsáveis pela própria situação em que se encontram.

[2] Quase sempre o abuso e o culto da submissão andam de mãos dadas, na lógica, própria de certas praxes universitárias e militares, por exemplo, de que aceito hoje ser humilhado para me treinar a ser submisso e sobretudo para amanhã poder humilhar.

[3] É o caso da famigerada lição de gestão que ensina que se eu estiver com um colega e for perseguido por um urso devo é correr mais depressa do que o colega para que enquanto ele seja devorado pelo urso eu tenha tempo de fugir!…

[4] Sobre as consequências pessoais, designadamente de carácter, do trabalho no capitalismo moderno importa ler a interessante obra A corrosão do carácter, de Richard Senneth. O desprezo e até o ódio por aqueles que não conseguiram singrar no mundo capitalista, muito em particular pelos pobres e pelos “divergentes” são também um corolário desta lógica.

[5] Vejam-se as homenagens, comendas e condecorações atribuídas ao mais alto nível a gestores e empresários ditos de “sucesso”, de Zeinal Bava a Ricardo Salgado, passando por Joe Berardo e João Rendeiro, por exemplo.

[6] Recorde-se que Miguel Relvas, Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, de Passos Coelho, obteve, em Outubro de 2007, uma licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Lusófona feita num só ano, com apenas 4 exames e… 32 equivalências.

[7] Nunca foram objecto de quaisquer notícias os nomes dos jornalistas, em particular da área económica, que fizeram viagens pelo Mediterrâneo a bordo do iate de luxo de Ricardo Salgado…

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