A ORIGEM DO FUTEBOL

O começo desta história de que fatalmente todos somos cúmplices fez-se aos pontapés a cabeças pelas ruas sinuosas de Londres. Uma turba de bêbados com turbantes, bandos de malfeitores, carteiristas, putas, até advogados e ministros pontapearam os primeiros esféricos cadavéricos que encontraram junto às sarjetas e deram-lhes uso da mais primária forma que podiam: ajeitaram a ponta da biqueira aos narizes mais profícuos porque não queriam – ambientalistas de alto quilate – que os odores putrefactos dos corpos em decomposição geográfica prejudicassem o turismo da Grã-Bretanha de um século anterior ao século passado.

Havia quem dissesse, entre-dentes e cheio de frio, que a torpe correria que afugentava os indígenas e estragava as roupas alinhadas em frente às janelas cheias de nevoeiro era coisa do demónio, que aquele sôfrego atropelar de gente, costas e unhas, braços e pernas pelas ruas abaixo aos insensíveis chutões de roliças cabeças de gente morta era o final feliz de uma história satânica que nem Jesus Cristo, afinal o melhor dos homens, podia contrariar face à tormentosa, porém genuína, ideia humana.

Começava tudo numa amena cavaqueira: dois homens discutiam os ângulos pelos quais a lâmina de barbear deve correr em direcção à espuma. Um defendia o projecto milenar e sem mácula do verticalismo começado no pescoço e acabado nas maçãs do rosto; o outro, mais gelatinoso, falava num certo condicionalismo da derme se não fosse executado o lance diagonal de aparar cuidadosamente os princípios pilosos segundo os quais o pêlo – louco e anárquico – deve ser levado ao engano, partindo de debaixo para cima e, a meio do trajecto do corte, surpreendê-lo com um toque incisivo e letal pela esquerda baixa. Ninguém sabia que tipo de assunto era aquele mas todos os que ladeavam os dois homens faziam expressões de assentimento e alguns, corajosos, chegavam mesmo a vociferar palavras de ordem: «exactamente, é assim que o corte deve ser feito!», «por mim, é tudo a eito», «tem razão o Senhor McFeist, sim senhor», «não pretendo provocar a ira dos demais, mas se me permitem…» e de repente as ruas de Londres estavam enxameadas de uma massa de indivíduos sem pobreza para vender nem riqueza para mostrar. Todos tinham opinião, menos um dos homens que iniciou a contenda sobre a forma exemplar de barbear a tromba visto que, antes de poder concluir a sua magnífica dissertação sobre a qualidade pubescente dos seus ascendentes, viu uma ponta-e-mola cortar-lhe o gargantil na zona onde quase nasciam imberbes penugens.

O sangue jorrou primeiro às golfadas pela zona onde os ossos acabam e se tornam macios num descanso de enseadas e pele amolecida pelos sons e líquidos que por dentro amaciam o externo do esterno. Parecia uma vaca no matadouro, de cabeça caída sobre a vertigem da gravilha-gravitação-gravidade e os dentinhos ainda atentos como se ainda pudessem vir enfrentar mais um trabalho aos maxilares. O povo de urgência clamou surpreendido mas logo a chusma esqueceu o degradante espectáculo e iniciou, de uma assentada e sem aviso filosófico (só havia padeiros, barbeiros e ilegais emigrantes), o que hoje pode ser considerado o jogo de futebol.

É curioso como uma morte a céu aberto pôde criar o nascimento precoce de um desporto tão dotado de inteligência humana. Não naquelas ruas, porém, onde já assistimos, de binóculos, ao corpo de um homem lançado para o chão enquanto a sua cabeça rola indistinguível pelas pedras, batendo contra as paredes da esquerda e da direita, porque a técnica individual dos praticantes – é bom de ver – ainda deixava bastante a desejar. O primeiro tecnicista reputado de que há memória terá sido alguém que num assomo de criatividade e clarividência escolheu parar o jogo, meter um dedo na língua, levantá-lo ao vento, compreender os ângulos da humidade salivar contra a intensidade do clima e decidir uma matemática de remate. Calaram-se os adeptos perante tamanha manifestação prodigiosa de génio: a cabeça, na vez de rolar intensa para uma parede, seguiu em frente, pontapeada de lado demonstrando efeito – a técnica passava por aproveitar o aquilino nariz do defunto – parecia-nos judeu (não digamos isto em voz alta) – para, num encosto de método, levar o esférico a descer aos saltos a estranha rua de Saint Thomas.

A turba incendiou-se com aquele movimento, correram a abraçar o herói sem nome (mais uma injustiça da História), e, quando todos esperavam que aquilo fosse o início de uma nova era na mortandade sem lógica, alguém decidiu, enquanto pulava sobre os corpos desvairados aos pontapés e correrias, que estava inaugurado o futebol.

Ricardo Silveirinha

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