Os fantasmas estão acordados!

Ou a promiscuidade das origens – o racismo é uma farsa mas existiu deu origem à escravatura e ao colonialismo!

Queridas amoras filhos de Viriato e Afonso Henriques, cujas mães têm origens várias. E os pais? Esses vinham de todos os lugares.

Sobre a nossa História fazemos como Pilatos, varremos para debaixo do tapete, assobiamos para o lado e fingimo-nos de cegos, surdos e mudos?

Gostaram dos lugares-comuns? São lugares comuns porque factos indesmentíveis. Provados em documentos e na História.

O que está na origem da nossa Portugalidade é a diversidade da Humanidade. O nosso legado para a Humanidade? A diversidade!

Mais um lugar -comum. Porque facto.

Então porque razão insistimos na cristalização dos grandes feitos e na sacralização do domínio de outros povos e terras como eternos bonzinhos?

Chegámos e dissémos: “A minha pila é a maior de todas!”

Foi mesmo!

Fomos os donos do mundo, vejam o falo em forma de padrão.

Não quero apontar dedos, mas enquanto não mergulharmos a cabeça na diversidade que nos traz hoje aqui, a base da humanidade e, nas aberrações que cometemos sobre outros povos quando invadimos as suas terras e as conquistámos à custa de armas e cruz ao peito, não nos vamos livrar do passado. Já acordaram para a realidade?

Este é o tempo de destapar e desmascarar minhas amoras selvagens.

Ou querem que eu vá para a minha terra? Qual?

A minha minha ou a que foi vossa e era minha e hoje também é minha?

Para que não haja enganos eu falo em nome da nossa. Esta aqui. A da raça humana que um dia veio ali do continente africano no hemisfério sul.

Que nós dividimos por cores porque precisávamos de vistas para o exterior.

Fronteiras abertas para o mar e não tarde se fez cedo ao engenho do Infante.

Não quero apontar dedos mas nós começámos a bestialidade da divisão. Acaba-se já aqui a inocência.

Se duvidam leiam certas crónicas de um tal cronista Eanes de Zurara.

Não sou eu que invento, quando ele escreve que os pretos são selvagens e nada humanos, nem sequer estão cristianizados.

Foi ele!

O prostituto escreve (pago, obviamente), para que o Rei convença o Papa a dar-lhe carta branca sobre as terras e as gentes selvagens. Está escrito!

Foi uma epifania directamente dos anjos e a ideia cimentou na terra.

(a talho de foice leiam também uns documentos de um certo bretão Stewart Chamberlain que dá origem ao pensamento racista dos nazis. Ou também querem negar o Holocausto e o seu legado nefasto até hoje, incluindo o sentido reverso de Israel contra a Palestina? Só aqui entre nós acho que eles não deixam os palestinos atravessar a fronteira para pichar monumentos).

Sim, eu, descendente da galega condessa Dona Teresa e do conde francês Dom Henrique, mãe do Rei Dom Afonso Henriques. E descendente de uma Princesa do Império do Mali e de umas pessoas de cor preta, escravizadas ali nas ilhas de um arquipélago de Cabo Verde onde eram vendidas a homens espanhóis, ingleses, holandeses, franceses, enfim, gente de pila alva.

Caraças, já contei esta história mil e uma vezes mas nunca me canso da beleza da minha origem!

Como estamos no presente e não no passado, ora vamos lá olhar a escravatura e o racismo aos olhos do tempo. Pensemos:

-Esta era aceite e usada por outros povos desde a Antiguidade.

Deixem-me contrariar com factos. Nunca a divisão foi feita tendo por base a cor da pele.

Esta foi uma inovação fodida de brilhante! Portuguesíssima.

Vinda dos descendentes do Viriato e do Afonso.

Diz o meu lado branco, com base em documentos.

Continuemos a olhar para o passado – E aos olhos de quem era escravizado, também era normal? Agora encarno trisavós levados para as plantações de algodão, e para as roças de cacau:

– Wow, vou ser escravizado(a), violada para parir mais escravos ou apenas para satisfazer a libido destes homens brancos, tratada como um animal, desumanizada, ver roubada a minha vida para trabalho forçado e reforço da fortuna de certas corôas europeias.

Roubam-me a cultura, a língua, as riquezas da minhas terra – o ouro, as especiarias, o açúcar, as sedas e claro, o rum, mas sobretudo a minha força de trabalho forçado, noutras terras lá longe. Ai já sinto a excitação subir-me pelas pernas a agarrar-me o centro da vida!

De repente estes homens chegam da Europa, com egos desmedidos, a impor-me um padrão como se fossem cães a marcar território e deixam-me à beira de um orgasmo.

Foi tão bom, não é?

Ah espera, uma última exigência dizem eles – tenho de me calar e aceitar durante quanto tempo? Ok, compreendi-te, cinco séculos mais coisa menos coisa. E quando chegar lá para 2021 se me atrever a falar, zangar, ou vandalizar – “ah e tal, aqui del rei que não és portuguesa de bem or something like that!”…

Regressando ao presente, ao fazer este simples exercício de análise, de reconhecimento, de ponderação estarei a vandalizar a civilização ocidental que dominou o mundo durante estes últimos séculos e apagou as restantes?

Que neutralizou, emudeceu, varreu para debaixo do tapete e assim e agora nega? “ó mãe não fui eu, foi ele, eu até não só sou bonzinho como me dou com ele”…E a mãe olha de soslaio “ está bem abelha!”.

Ou como diz a canção de amor- “nega o teu amor e carinho e eu mostro a boca molhada pelo beijo teu”!

Não deveria eu branco já estar a reconhecer o que aconteceu e a dar voz a quem foi silenciado? E a falar abertamente sobre o assunto?!

Eles (os roubados) comeram o pão amassado pelo diabo – que nós inventámos – ainda hoje recebem resquícios da herança desse abundante legado. Uma espécie de recebimento de royalties para a vida.

Não é maravilhoso?

Somos mestres a lavar as mãos, a esconder, a fazer de conta que nada se passou, que não vemos, nem ouvimos, nem dissémos nada, não somos?

Em lugar de arregaçarmos as mangas e dizer: amoras minhas não queremos mais isto para o futuro!

Chegámos à vossa casa, fomos bem recebidos, o anfitrião não correu connosco para a nossa terra porque não tinha armas iguais mas nós mandámos o anfitrião para longe, partimos tudo, sujámos e nem limpámos.

Vamos ajudar a limpar a cagada que ficou espalhada depois da festa e depois vamos obviamente beber um caneco juntos porque somos fruto de sexo (violações sem fim) uns com os outros.

Uma enorme promiscuidade. Mesmo nem sempre consentida a nossa enorme diversidade está aí.

Se eu ainda hoje não andasse a cortar-me nos vidros da destruição deixada, ainda era como o outro. Só que não!

Simbolicamente o padrão e outros monumentos representam só e apenas uma parte da moeda da Portugalidade. No outro lado da moeda está o sangue da humanidade, como lá deixaram escrito.

É absurdo negar.

As restantes nações europeias esclavagistas com quem dividimos as posses ultramarinas, há muito que fazem esta discussão. Pegaram no pano de limpeza e continuam a conversa de perdão.

O mundo está a discutir a festa que destruiu a casa do anfitrião.

Porque razão os descendentes de Viriato, franceses, galegos, ingleses, vikings, suevos, visigodos e africanos não o querem fazer?

Quem quiser discordar está à vontade, porém esta casa reserva-se o direito à admissão a quem a quem visitar com factos, sem a visão afunilada de um túnel desactualizado, se estiver aberto a ver a outra face da moeda.

Eu não estou aqui nesta página a colonizar ninguém, nem nunca mais serei colonizada (a não ser pela UE e o FMI e o capitalismo descoberto com esse grande movimento da colonização e da escravatura) – sou uma boa anfitriã e só deixo entrar quem vier por bem.

Se alguém vem com a sua caravela a gritar “aqui quem manda agora sou eu, vais fazer como eu digo e aceitar o padrão”, receberá certificado de licença graciosa para trás. Pode-se ir queixar ao Rei, ao Papa ou ao Infante.

Pode entrar se estiver aberto a pegar no pano para ajudar a limpar. Não a branquear.

Anabela Ferreira

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