O País dos Franzidinhos (por João Prudêncio)

Chamava-lhe, cá para mim, o Franzidinho. Na Baixa de Lisboa, entre os transeuntes, lá estava ele todos os dias, agachado nas escadas do Metro, fingindo a cegueira na calçada portuguesa do Rossio, de mealheiro profissional e tudo. Quando não era cego era paralítico. Depois, noutras ocasiões, o Franzidinho (assim lhe chamava cá para mim porque tinha quase sempre os olhos profissionalmente franzidos, quase fechados, para fingir a cegueira) via-o de olhos um pouco mais abertos convivendo com os comparsas, contando moedas e talvez vantagens, nas mesmas ruas repletas de multidões. Como se ninguém desse pela fraude, como se a turba da baixa lisboeta fosse mais cega ainda do que ele(s) fingia(m) ser. E não era e, pelo menos eu, descobri a marosca. Não era preciso ser génio.

Lembrei-me deste episódio da minha juventude a propósito do Brasil. E das reações que muitas das pessoas que me rodeiam aqui no interiorzão brasileiro têm perante tudo o que cheire a honestidade, lealdade, verdade, boa vontade e ação desinteressada.

Vendo um vídeo do concerto da Marisa em Lisboa em 2006, em que a artista pára de cantar a meio da canção “Gente da Minha Terra” porque se emociona, um amigo meu sentenciou que se tratava de “demagogia de artista” e que portanto era emoção fingida a paragem da artista e as lágrimas que levavam o público a levantar-se em bloco e a aplaudir o “engasganço” emocionado da fadista.

Dei por mim a recapitular porque em três anos de Brasil nunca tinha mostrado este vídeo a ninguém (com uma exceção) e a meditar sobre a minha insensatez de o ter feito agora.

Afinal, reflito hoje, o Brasil é aquele país em que – dizem os meus amigos chegados – ninguém dá um passo em vão. Tudo aqui é trabalhado, planeado, estudado para tirar vantagens. Custa-me a acreditar que assim seja, mas eles asseguram-me que é deveras assim. Tudo é encenado. E quando vivemos num lugar em que tudo é encenado, descremos que possa não ser assim em algum outro lugar. Segundo essa visão, um político como Marcelo (presidente de Portugal) não abraça as velhinhas que restam dos incêndios porque genuinamente queira levar a solidariedade e a assunção de culpa do Estado às populações. Fá-lo para lucrar votos na próxima eleição, para a popularidade subir, em suma por puro fingimento. Como Marisa na Torre de Belém.

Boa parte das minhas discussões com alguns amigos daqui giram em torno disto. Se um artista consagrado vai buscar um jovem para cantar em dueto o objetivo de ambos é puramente comercial. Se um jogador de futebol dá uns milhares para tratar uma doença grave, é também comercial. Eu contesto a redundância, tento fazer ver que no mundo nem tudo gira em torno do dinheiro, que a beleza e a arte pura existem mesmo, que o interesse desinteressado pelo bem-estar das pessoas ainda existe… dou o meu próprio exemplo, eu que tanto trabalhei de graça, como milhares, milhões, trabalham em todo o mundo, no voluntariado, na música, no teatro, na literatura, no cinema, no jornalismo, na política, na medicina, na solidariedade social.

Realmente, muita da realidade atual do Brasil remete para o interesseirismo e manda literalmente às malvas os ideais da solidariedade, do igualitarismo, da justiça social. Neste país, as igrejas que por princípio deviam ser templos de espiritualidade desinteressada e de aspiração divina são antros da encenação mais embusteira, da extorsão mais chocante, da maior e mais obscena exploração comercial, do mais aviltante assalto às bolsas das dezenas de milhões de miseráveis que existem neste país.

Se assim são os “santos” que compram redes de TV com os dízimos dos desgraçados que usurpam enquanto se submergem em banheiras de ouro, como serão os assumidamente “pecadores”? Os leigos só têm que se desculpar com os de cima a quem deus abençoa, e seguir-lhes as pisadas, aguardando a paga em bençãos e já agora um pouco de feijão com arroz.

Num país com tão escassa mobilidade social, com tão flagrantes injustiças, não admira que seja este o ambiente geral. Hoje, em cima de três anos de Brasil, compreendo o que nunca compreendi enquanto cidadão europeu: como pode este povo fazer orelhas moucas aos que defendem a Amazónia como maior pulmão do planeta, como se podem marimbar para os índios, para a inigualável biodiversidade da extensão?

A resposta é… são pobres! E depois de serem pobres são incultos. Que importa a biodiversidade para um povo que maioritariamente acredita na visão bíblica de que a Terra tem seis mil anos? E isso não casa bem com necessidade? Que importa o ambiente quando se tem fome? Não soa a coisa de menino rico? De sueco? De japonês? De gente de países que têm todos os seus problemas resolvidos e andam agora a… preocupar-se com os dos outros? Mesmo não ganhando dinheiro com isso?

Num país em que 50% da população mais pobre fica apenas com 13% de toda a renda gerada, ficando os restantes 87% para os restantes 50%, num país em que a favela é um lugar comum enquanto há gente que tem terras a perder de vista, do tamanho de Portugal inteiro, num país em que a fome é uma realidade quotidiana vivida por milhões de pessoas, qualquer truque é bem-vindo para ascender socialmente. Mesmo o mais baixo dos truques.

Falar de política no Brasil é falar de lucros pessoais, terras de pessoas, casas, empresas, luvas (propinas). Corrupção em suma. Assim como falar de amor no Brasil, em muitas situações, é falar de proveitos, ascensão social. E falar de morte é falar de heranças. O casamento, a morte, o futebol, a música, são os elevadores sociais de quem não nasceu em berço de ouro nem pode estudar para ascender, dos mais rebaixados da sociedade brasileira.

Neste contexto é difícil conceber que haja gente genuína no mundo. Que deixa de cantar apenas porque se emocionou e não porque fingiu emocionar-se. Que foi solidário com uma criança doente e que essa solidariedade não foi apenas um investimento em mais publicidade. Que era realmente cego, ou paralítico, e não franzia os olhos a troco de moedas avulsas. Como acontecia no meu Portugal dos anos 80. Franzir os olhos continua a ser um desporto nacional neste Brasil dos Franzidinhos que eu, apesar de tudo, amo (em parte porque lhe vou conhecendo os defeitos). Mais do que muitos brasileiros que descreem dele. E portanto de si próprios.

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