Para ti cuidador

Hoje é o dia em que nos lembramos dos cuidadores. Em particular os informais. Dedico estas palavras em particular aos que cuidam de pessoas com Alzheimer. Porque são especiais. 

Porque desempenham este papel quase por instinto, sem saber como se orientar, porque não há linhas orientadoras. Porque não sabem bem como fazer, o que fazer, porque tudo é um quebra-cabeças. Um puzzle sem peças que encaixem. Porque raramente cuidam de si, ou têm quem deles cuide. Em Portugal em particular, estes cuidadores são ainda filhos de um Deus sem memória.

Para eles escrevo este pedaço de memórias,

Imaginem um doente com Alzheimer, sentado numa cadeira, num momento de lucidez. 

-“Olhem para ela, a minha cuidadora. Está esgotada. Passa vinte e quatro horas comigo. Ajuda-me a fazer todas as tarefas que damos por garantidas depois dos 5 anos de idade. Aquelas das quais já não me lembro.

Lavar os dentes, comer, limpar-me, lavar-me o cabelo (que eu detesto), lavar-me o corpo (que eu detesto), dá-me os comprimidos, muda-me as roupas, faz as tarefas domésticas, sabe sempre onde está a minha mala e o comando da TV que escondo dentro da carteira, mantém-me todos os jornais debaixo da almofada do sofá, atura-me todos os caprichos e surtos. 

Lembram-se quando quis ouvir e ver o concerto do Robbie Williams 8 vezes por dia porque me esquecia que o tinha ouvido há 15 minutos atrás? Ela, pacientemente ouvia também sem se queixar, sem ralhar comigo. Ali estava ela ou sentada ao meu lado ou dançava e ria comigo como se cada vez fosse sempre a primeira vez.

Divertido mesmo foi daquela vez que me acompanhou debaixo de chuva, porque eu queria ir visitar a minha avó noutra cidade (eu que já tenho oitenta e seis anos). E quando eu punha a mesa com cinco garfos e cinco facas junto ao meu prato? Ela deixava e dizia-me que estava uma mesa linda… E quando punha a loiça na máquina de lavar roupa e guardava as roupas no armário da cozinha? Ali estava ela como uma sombra a dizer-me “muito bem”, agora vamos dar um passeio. Eu ia. Ela sem eu ver, repunha tudo nos seus lugares. 

Ou quando me ouve repetir as mesmas perguntas e dizer as mesmas coisas vezes infinitas, perder-me nas palavras, na impossibilidade de fazer frases, de ter uma ideia, repetindo-me incessante e de modo insano, ou qualquer coisa assim?

Agora, dá-me a comida à boca e deixa-me dormir sem me soltar a mão. 

Pergunto-me, se esta cuidadora de mim é humana olhando para a paciência que tem comigo. Às vezes noto-a quase em desespero.

Olho os seus belos olhos claros e eles falam comigo dizendo – “Esqueceste quem és. Hoje o drama é viveres no lugar onde a morte chegou, antes da tua vida se apagar. Sem te lembrares porque razão vives. Ou porque deves beber água. Ou porque razão queres ficar sentada a falar para aquela imagem na revista de domingo. Estou aqui a cuidar de ti. Envolta em neblina tu não sabes quem és, mas eu sei quem já foste.”

Bem hajam cuidadores. Votarei no partido que vos elevar ao lugar que merecem, o de reconhecimento. Votarei no partido que pensar nos seus cidadãos, não como se estivessem a mais, mas porque contam e são importantes. Vitais, digo!

Anabela Ferreira

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