Patear o Panteão…

Temos mais um caso! Portugal é um país de casos, de escândalos, um país de virgens ofendidas.

O mais recente escândalo nacional aconteceu este final de semana quando se tomou conhecimento de que, na nave central do Panteão Nacional, foi realizado o jantar de encerramento do Web Summit. O coro de virgens ofendidas foi transversal a toda a sociedade, faço aqui o mea culpa, também eu, numa primeira fase fiquei chocado até ter parado para pensar um pouco.

Não há nada de ofensivo ou desprestigiante para o Panteão Nacional ao realizar-se, na sua nave central, uma área totalmente isolada dos “habitantes” do espaço, um jantar como o que foi realizado. Aliás já lá foram realizados outros e pelos vistos as virgens, nesses outros, não se ofenderam.

Teve até uma enorme vantagem a realização deste jantar quantos portugueses não sabiam, nunca tinham ouvido falar ou desconheciam o Panteão Nacional? Muitos, ficaram agora a saber.

É extemporânea a indignação do primeiro ministro, do presidente da república e, obviamente vergonhosa a pafiosa indignação dos ressabiados pafiosos, a começar pelo ex-secretário de estado da inCultura.  Tendo em conta que foi ele que regulamentou a utilização do Panteão Nacional para a realização de jantares é, francamente exagerada e demagoga.

O primeiro ministro não pode reagir a quente sobre polémicas fabricadas, muito menos pode decidir legislar através do twitter, isso é coisa do Trump. Já no que ao presidente da república diz respeito é perfeitamente natural que se junte ao coro de indignados, está sempre a jeito para o disparo das objectivas.

Acho estranho que o coro de indignados defensores do Panteão Nacional não tenha feito uso da arte das carpideiras quando a legislação foi apressadamente alterada para permitir transladar para lá um falecido ex-futebolista. Não se indignaram ao fazer leis à medida? Pois, se calhar não, quem sabe estão habituados a isso, a malta é que nem se apercebe.

Essa alteração legislativa apressada e à medida não só não vos chocou como não a consideraram uma falta de respeito pelos que lá estavam? Claro que não, o populismo da medida ultrapassa qualquer desconforto que o decoro possa exigir.

Por outro lado, acho estranho não ver ninguém indignado por ter sido revelado pelo ministro da defesa no parlamento que “está a ser apurada a razão pela qual, nos ativos [dos estaleiros de Viana], desapareceram literalmente muitas coisas, até gruas” e que “tenho sinais muito preocupantes quanto à forma como foi desenvolvido, ou não desenvolvido, o processo de liquidação”. Talvez com estas afirmações do ministro, talvez conhecendo os contornos da investigação, se entenda a absoluta necessidade que existia de assassinar politicamente o ministro. Talvez assim se entenda melhor a brutal encenação que foi feita ali para a zona do Ribatejo.

Também não vejo ninguém escandalizado com o facto de a comissão europeia ter concluído e afirmado que a Tecnoforma de Pedro Passos Coelho cometeu fraude e que quase 7 milhões de euros voaram para parte incerta. Muito menos vejo alguém indignado com a escandalosa atitude do DIAP e do DCIAP ao mandarem arquivar o processo mesmo contrariando a opinião dos investigadores de Bruxelas.

Será que o arquivamento também seria uma realidade caso os protagonistas fossem outros que não Pedro Passos Coelho e o novíssimo banqueiro Miguel Relvas?

Já agora, ainda no campo das indignações, que tal indignarmos todos com o facto de nas cantinas das escolas servirem frango cru aos putos ou “pão com dentes” ou, até mesmo lagartas na sopa? Não adianta virem com a mesma explicação que ouvi o outro dia “Peace bro… é comida biológica mano!”.

Que tal ficarmos todos indignados com o facto de um director dum agrupamento escolar ter punido disciplinarmente a miúda que denunciou a lagarta nadadora?

Que tal exigirmos todos que sejam apuradas responsabilidade em relação à vergonha que se anda a passar nas cantinas escolares exigindo, simultaneamente, que os responsáveis das escolas sejam igualmente punidos por não cumprirem as suas obrigações de verificar e garantir o bem-estar dos alunos nem o cumprimento dos contratos com as empresas externas e ficarmos indignados por isso não ser feito.

Panteão Nacional escândalo nacional? Deixem-se de tretas! O maior escândalo, no que a este jantar diz respeito foi termos passado pela monumental vergonha de Paddy Cosgrave se sentir na obrigação de pedir desculpa por ter organizado um jantar perfeitamente legítimo, num espaço com regulamentação para o efeito, com taxas definidas em diário da república e autorizado pela tutela, mesmo que a autorização tenha sido meramente administrativa.

Virgens ofendidas deste país acordai e indignem-se com o que de facto é digno de indignação.

Jacinto Furtado

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