Pela independência da Catalunha. Como pode um português defender o contrário?

1. É-me fácil ter uma opinião sobre a Catalunha. Sou português e não tenho responsabilidades políticas, diplomáticas ou económicas. A minha opinião é a minha opinião, sem constrangimentos de qualquer espécie, sem a ambição de ficar de bem com o senhor x ou a senhora y. 

2. Sou a favor da independência da Catalunha, como poderia ser de outra maneira se sou português? Sabemos a história, mas talvez já não nos lembremos. Os castelhanos tiveram de esconder entre manter Portugal anexado ou conquistar definitivamente a Catalunha – se jogassem nos dois tabuleiros arriscariam perder as duas. Optaram pela Catalunha e nós pudemos festejar a Restauração, o nosso 1640. Se Felipe V de Espanha tivesse optado por Portugal seríamos hoje espanhóis. Seríamos espanhóis a falar português, como os catalães nunca deixaram de falar catalão. 

3. Portugal não tem nada a ver com Espanha. Somos mais parecidos com italianos ou gregos do que com espanhóis de Madrid ou de Valência. Como os catalães pouco têm a ver com Castela. Sim, é inevitável pensar isso. Gosto de me colocar no lugar dos outros e quando falo com os meus amigos de Barcelona penso sempre que poderia estar no lugar deles e eles no meu. Eu ser “espanhol” e eles da Catalunha, um país independente em definitivo desde quase meados do século XVII. 

4. O que faz a Catalunha um país, perguntam os que têm um país. Para já ter uma história de 1000 anos, uma história em que, de uma maneira ou de outra, manteve uma organização política e social própria ou as suas instituições até 1714, data em que foram conquistados por Felipe. E depois sabemos também que, com muita repressão e pressões que não imaginamos, souberam manter a sua língua, defender a sua história, cultura e maneira de ser. 

5. Trabalhei com espanhóis. E vi como os espanhóis veem os catalães e a Catalunha. Pode demorar muitos anos ou poucos. Pode até demorar uma geração ou cinco, mas um dia acontecerá. Porque nada existe de mais poderoso do que a convicção de um povo. A repressão, mais tarde ou mais cedo, perde. 

6. Espanha é um grande país. Um país único. Com sangue na guelra. Gente com coragem e uma arrogância patriótica. Um país que tendo perdido o Império continua imperialista. Faz parte da sua génese, é mesmo assim e não tem mal. Se eu fosse espanhol seria assim, mas sou português. E se sou português só poderia estar ao lado dos que não conseguiram o que o meu país conseguiu num dia em que um rei estrangeiro tinha de decidir por nós ou por eles. 

Luís Osório

NR: Texto publicado originalmente na página do Facebook de Luís Osório

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