Placebo em tempos farpados

Capitalismo sem regras e Civilização não coexistem na mesma frase. Se o primeiro é sinónimo da segunda então a segunda não é uma boa forma de vida para a humanidade.

O primeiro é o comboio que transporta a segunda para os portões abertos do lugar sem saída. A segunda que lá vai dentro, pensa estar a seguir o caminho da “salvação”.

O primeiro expõe agora perante a segunda, a sangrenta desarrumação da desigualdade que criou, dando-lhe um placebo.

Água açucarada bebida pela segunda, que sugando desesperada na palhinha oferecida, sem questionar, agradece o cuidado da primeira. “Se calhar vamos todos morrer”, pensa, encolhendo-se a medo. Pois vamos. E desde quando a marca da segunda, sobrevivente a tantos desafios, se define com o agachamento?

Enquanto o primeiro tira proveito da tempestade e acumula, segue no salva-vidas a motor, perante a baixa médica generalizada, enquanto despede deixando milhões no vazio, a segunda, nua, no barco a remos, sem bóia de salvamento, pratica mesmo assim, gestos de solidariedade com os outros despidos. Esta é uma marca da segunda.

Porém a nudez do primeiro começa a mostrar-se. Naturalmente nada será como antes, porque a certeza de tudo mudar constantemente é a única que a vida oferece.

O primeiro, em processo de poda não mais terá campo fértil para se tratar como cavalheiro de primeira classe, mesmo que demore a perceber a mudança. Indústrias, comércio, mercados, negócios como de costume, entre tantas outras formas de organização terão os dias contados. Quanto mais não seja porque cada dia as gentes de segunda, da segunda, estão mais acordados a organizar-se de maneiras novas.

Se o primeiro tem por objectivo a eugenia (a Suécia parece ter amizade por este programa), a vacinação (pessoas imunes e saudáveis não precisam dela) obrigatória (só interessa a quem a quer vender), a chipização (um Admirável (louco) Mundo Novo), o zombismo (os Média), o fascismo (a adorada repressão vinda da extrema- direita) ou seja, tudo arrumado num lacinho colorido, o controlo total e poder absoluto sobre a segunda – segundo as teorias existentes – temo que o seu plano tenha sido abalado por este organismo anafado, monárquico, pesado, anti-capitalista (faz as bolsas cair), ecologista (odeia poluição),retrógrado (não gosta que aconteça convívio e o toque entre humanos o que entre latinos e africanos torna tudo mais exasperante) e conservador (prefere a distância).

Se alguns do primeiro querem dominar a segunda através do anafado monárquico, irão certamente provar do próprio veneno, num volte-face desta novela mexicana agora na sua série 2.0 diz o Oráculo de Delfos da queda dos Impérios da segunda.

A segunda não se fez tendo o medo por inspiração. É tempo de entendermos isto como base da civilização. Somos nascidos para a rua, para a criação, para os descobrimentos, para o pensamento, para a inteligência, para a razão, para a ciência, para o Renascimento (com maiúscula).

O primeiro alimenta-se no seu âmago, da energia de medo que estamos a oferecer agora.

Para impor mais medo, diz-se que a segunda vaga é uma certeza(?) fazendo-se mais umas proibições. Talvez até venham a acontecer meia- dúzia de vagas.

Como com outros micro-organismos graves – menos elitista que este – e menos graves, que não fecharam o mundo. Se calhar teremos de conviver com o anafado monárquico como acontece com o HIV.

As razões do confinamento foram e poderão voltar a ser apenas para não sobrecarregar ventiladores e UCI´s, com tudo o que acarreta de custos para os serviços de saúde pública depauperados e seus desgastados profissionais.

Nunca para que a propagação do vírus não acontecesse. Essa irá continuar. E irá afectar – nos a todos mais cedo que tarde (a falada imunidade de grupo), porque todos somos veículos. O uso da máscara poderá ser visto como um gesto de bondade entre os cidadãos da segunda. Apenas isso.

E, antes que o primeiro diga à segunda que viveu acima das suas possibilidades ao não combater o anafado monárquico (profundamente cínico como forma de implementar o medo, já que o combate se faz com políticas eficazes de protecção da vida humana, não deixando que o primeiro roube os recursos da segunda), torçamos para que a poda se faça no primeiro. Já está a acontecer, repararam?

Apesar de alguns mais anafados, a segunda começa a entender o que não poderá nunca mais ser como foi. Quer dar por terminada esta relação abusiva.

Para que aconteça a segunda deverá fazer de tudo para fortalecer o sistema imunitário, não deixando que o primeiro lhe roube as refeições de qualidade, a existência digna, o trabalho com condições e bem remunerado, o ar respirável e um planeta sustentável (nenhuma das exigências é utópica).

Incluindo a ida à praia. Nem que tenha de se juntar no Marquês, ou em qualquer Ágora, sem medo, num desfile de chi qong se for preciso sob a bandeira revolucionária, “a praia unida jamais será vencida”. Com o dedo do meio farpado e levantado!

Anabela Ferreira

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