Por detrás da porta fechada

Por detrás da porta fechada da corrida em direcção a lugar nenhum e a todos os lugares-Mergulho nas águas profundas da saúde mental dos refugiados da vida.

Espero viver até muito velhinha com os meus quatro r´s: -risco, rímel, ramelas e rugas, acompanhada do síndroma de evolução através do reconhecimento das emoções e dos sentimentos – SERES com o qual vivemos durante a estadia neste hotel – que nos dá cama e pequeno-almoço. Sobretudo nos deveria fazer procurar sentido e significado para lá da porta que abrimos ao público. Aquela parte à qual reservamos o direito de admissão. 

Espero estar neste quarto de hotel até ser muito velhinha, porque tenho ainda muitos tpc´s – compreender quem sou, como funciono, como me experimento, como ser coerente. Explorar, absorver e transformar as minha dores e fraquezas em sorrisos. Para tal preciso de uma vida inteira. Semeio há algum tempo a percepção que cresce como convicção, assim como ramo de cajueiro velho, sobre o maior desafio da viagem humana – ser coerente. 

Palavras, sentimentos e acções. O que dizemos, pensamos e sentimos num só laço. Quão difícil! A vida é esta interessante luta no olho de um furação entre amor e medo. Incoerências que precisam coexistir por serem a coerência da própria existência.

Emoções e sentimentos são parte de um todo a que chamo – eu pessoa livre no mundo. Os mais doidos de nós sabem-nas por dentro, reconhecem-nas, integram-nas, convivem com elas tomando chá e biscoitos. 

São velhas companhias que chegam para jantar, sem convite e trazem uma garrafa de rum envelhecido para degustar. Sejam bem-vindas, digo-lhes. Mesmo ansiosa e medrosa, aceito-as. Dou-lhes um copo para se servirem. Mesmo que estejam andrajosas, mascaradas de escuteios ou prostitutas, nunca as discrimino, nem as escondo dos vizinhos. Venham, entrem, jantem, discutam, resolvam-se, entendam-se e sigam a vossa vida.

Somos todas as emoções e sentires interligados, quais fios eléctricos que nos protegem, estimulam, trazem sentido, como a composição de um naperon com flores, folhas, cores, linhas e geometrias várias.

Vou saindo pela viagem adentro com a extravagante e incondicional intenção de encontrar a quebra na lógica, entre o amor que salva e cura e o medo da dor que aflige quem procura ser coerente, no palco do tamanho de uma folha da nogueira caída na via láctea com o poente do Estio, onde todos procuramos lugar.

Tantas vezes à deriva, mergulhando em mim, procurando não morrer afogado, mesmo que em secreto sofrimento. 

Porque esta é a maior tarefa de cada um de nós, mesmo quando o poeta poemando, mente na poesia da sua vida. Ser sensível e docemente coerente.

O compromisso comigo próprio de ser fiel às emoções e sentimentos, vivê-las, perceber-lhes o sentido, o complexo significado e florescer coerente. Com. Apesar de. Por causa delas. 

A reflexão vem a propósito de andarmos em constante fuga de emoções e sentimentos, de nos desvincularmos delas, de as enterrarmos, de deixarmos que eles nos afoguem e nos desintegrem. 

De as calarmos. Pior, de as enterrarmos, de nos fingirmos sempre felizes. O desequilíbrio e a incapacidade de coerência – em resumo, ao criarmos o abandono do nosso centro, levamo-nos a casos graves de dissociação cognitiva, de perturbações graves na saúde física, mental e emocional. 

Este desequilíbrio leva a relações tóxicas – sejam quais forem. É o momento quando permitimos o “bullying” de narcisistas, o assédio – seja ele qual for, de várias formas de violência. Incluindo connosco. É o que leva também ao suicídio. 

A ponta do icebergue está descoberta. Pouco se fala da saúde mental, agora que se fala de nos aproximarmos do final de um período brutalmente aterrador para toda a humanidade, contudo deveria ser esta uma prioridade dos governos nos próximos anos. 

Ela determina a qualidade de vida da existência de qualquer ser – humano. Sem ela, o hotel que nos hospeda pode fechar por falência humana. Sim é política! Toda a sociedade que estamos a construir está profundamente doente. Precisamos de muitos médicos, curandeiros, políticos, parteiras que comecem a fazer as ligações como pensos humanos. Todos nós. Ligados.

As redes sociais são hoje um palco do mundo. Onde todos tentamos estar. Por sorte nem todos queremos estar no centro. Os que lutam por retirar coerência das suas existências a partir das redes sociais poderão ter enormes desgostos e depressões, afogados num mar de emoções e sentimentos que se degladiam.

Afectou-me a notícia do suicídio uma jovem com dois filhos por problemas de saúde mental que não pediu ajuda. Afectou-me a notícia de um casal de namorados de vinte e dois anos, que numa viagem através da América do Norte vivendo numa carrinha durante mês e meio, o suficiente para serem atingidos pela incapacidade de lidar com o peso de sentimentos e emoções antagonistas. Ele acabou por matar a namorada estando agora fugido. 

Para nós humanos, compreender emoções e sentimentos é explorar a Caverna de Platão. A coerência de que vos falo como SERES entre sentir, pensar e dizer é a saída da caverna, a maior viagem da experiência humana, fazendo dela o melhor que conseguirmos. No meu epitáfio quero escrever: “Foi perfeita como ser humano – cheia de erros e em construção. Fez tudo o que pode para experimentar emoções e sentimentos. Ainda tentou ser coerente.”

Votem bem. Conscientes e coerentes com o melhor para a vida colectiva.

Anabela Ferreira

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