Portugalindo, o país do estilo emanuelino e da gentrificação

Tirando o estilo emanuelino – aquele que acrescenta uma marquise às casas, já que o ordenado mínimo não dá para mais uma assoalhada nem para comer bacalhau – e a gentrificação massiva, gosto-te meu país.

Em particular também te gosto muito “Lisbonita”. Desde o tempo em que ainda não estavas na moda nem ganhavas prémios. Desde o tempo em que nas suas ruas não havia pragas de vendedores de farinha sem levedura e louro prensado. Ou tuc-tucs patrocinados pelo CR7 a ocuparem os passeios. Ou castanhas assadas bolorentas. Ou emel. Desde o tempo em que cruzar a Baixa pela Rua Augusta não era o mesmo que atravessar o free-shop do aeroporto no Dubai (para quem não conhece, o maior e mais movimentado centro comercial que conheci).

Andando pela cidade pedi mais vezes desculpa por tropeçar em gente e gritei mais vezes “ó cromo não me vês com uma criança?” do que se estivesse na Índia. Desesperei em bichas, para andar num carroussel na Wonderland, como se os sete biliões de humanos estivessem sentados no Parque Eduardo VII.

Acolho-vos de peito aberto tal como o país e Lisboa acolhem todos os que lhes sabem ver as cores, a luz, as manchas e as marquises, lado a lado com os condomínios privados de um luxo quase pornográfico num país com o ordenado mínimo inferior a seiscentos euros, onde uma renda custa, na cidade, no mínimo quinhentos euros por um quarto sem casa de banho. Fundamentalmente estamos à mercê da quadrilha Ali Bá-bá.

Decidi fazer companhia à Madonna, e com ela partilhar “Lisbonita” e passeei-me vivendo-a. Ela vive num palacete eu mudei-me para uma casinha com marquise, num dos poucos bairros não gentrificados da cidade. O que vi fez-me andar de cabelos em pé com a falta de civilidade da cidade e do país. E com a sua medonha gentrificação.

Como sempre, ando aí ao garimpo. Para encontrar o ouro de quem somos. Com a sorte que me caracteriza encontrei o autêntico no meu novo, antigo bairro lisboeta.

No meu bairro ainda vivem velhos que se conhecem de uma vida inteira, ainda faço compras numa pequena mercearia e fico a dever €8,00 – porque levei poucas moedas e as frutas e os legumes expostos piscavam-me o olho. Não pelo brilho artificial das expostas nas grandes superfícies mas pelo ar feliz com que dançavam arrumadas nas caixas, a convidar-me ao prazer de uma sopa e sobremesa com sabor autêntico. O dono confiou no meu ar de avó, como confiaria se eu fosse a criada da Madonna e nem sequer me conhecesse. No meu bairro ainda se come por €3,50 uma meia-dose bem servida e bem cozinhada e onde quem entra se cumprimenta, e oferece com prazer dois dedos de conversa. É um prazer perceber que a gentrificação ainda não chegou ao meu bairro. Ali ainda vivem os herdeiros do vergonhoso ordenado mínimo e das pensões obscenas que nos atiram para o final da lista dos países desenvolvidos mesmo que na moda.

Ainda temos a aprender muito sobre civilização com estes velhos valores humanos que desaparecem, desprotegidos por nós e que muito nos ensinam sobre humanidade.

Por decreto lei deveríamos ter a obrigação de os reaprender e de os praticar. De igual forma que por razões de segurança fomos por decreto obrigados a usar cintos de segurança, a ter limites de velocidade e álcool no sangue, deveríamos ser obrigados a deixar de manter os maus hábitos que nos definem como pouquíssimo civilizados – (na falta de sinalização – quando temos de adivinhar por onde vamos para chegar a qualquer lugar; no trânsito – quando pensamos que as estradas são pistas “le mans” privadas; nos transportes públicos – quando não damos lugar aos mais velhos, às grávidas, às crianças e nos sentimos orgulhosamente inchados de valor mantendo o assobio para o lado; nos salários desiguais- mesmo quando homens e mulheres exercendo as mesmas funções, os primeiros têm sempre vantagem até chegarmos à politica, gentrificada também ela, esquecendo-se dos que nomeiam os seus representantes.

Teria para falar mais uma scut de incivilidades que se pagassem portagens para entrar na vida da polis e do país nos transformaria numa Suiça com duchaises e rins de chocolate da verdadeira pastelaria portuguesa.

Aprendemos e desenvolvemos tanto em tecnologia e ciência, somos simpáticos, poliglotas, castiços e mantemos vacas sagradas, como os pombos que enfeitam as nossas praças, mas falta-nos a essência: sermos seres melhores. Não tenho nenhuma vaidade ao ver tanto desenvolvimento e tanta gentrificação ao lado de tão pouco desenvolvimento humano nas pequenas coisas. Aquelas que fazem a diferença no desenvolvimento dos países. Sendo a principal o escabroso ordenado mínimo.

Como podemos deixar viver na paz dos seus palácios envidraçados a vidros duplos e basculantes – sem levarem uma cagadela de pombo nas cabeças –  os primatas que defendem que se mantenha baixo o valor do trabalho daqueles que apenas conseguem uma marquise bolorenta como as castanhas?

Como podemos deixar descansar os que desejam gentrificar todo o país até que apenas restem estátuas, história e pequenos trapaceiros?

Como será que a Lisboa da moda – bem como o país, medalhado de norte a sul – gentrificada, com as suas gentes a receberem salários terceiro-mundistas se irá desenvolver – de facto – até se tornar civilizada, se não for por um decreto?

Não me resta nada mais que arranjar um reduto numa aldeia lisboeta e de vez em quando virar as costas ao sujo Tagus para conseguir pagar a renda e comer um bacalhau na brasa e castanhas decentes, esperançando o nascer de uma geração competente, que deixe de te gentrificar, de te emanuelinizar e te saiba valorizar.

Anabela Ferreira

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