Quando o Bannon festeja na Europa

(Estou não apenas indignada mas de cabelos arrepiados).

Hipocrisia que voas alto, a tua tibieza enfraquece-me a alma deixando-a vazia!

A proposta para salvar vidas no Mediterrâneo, votada no Parlamento Europeu, pelos deputados eleitos por nós cidadãos da Europa, foi chumbada por 290 votos contra 288. Dois votos. Nós seres humanos que sentimos empatia pelos demais seres humanos e somos pró-vida, não importa qual, nem em que região, perdemos contra alguns dos que são pertença de grupos anti-aborto, anti-eutanásia, católicos romanos e outras crenças profundas sobre o valor inestimável da vida (?), uns verdadeiros humanistas. O lobo escondido na pele de cordeiro.

Dois votos bastavam para que a proposta de salvar vidas ganhasse. De que lado da História queremos estar quando a nossa vida acabar?

Imaginemos agora que Nuno Melo (CDS, votou contra), Álvaro Amaro (PSD, votou contra), a Maria da Graça Carvalho (PSD, votou contra) e José Manuel Fernandes (PSD, absteve-se – quem escolhe a via política não se abstém, toma posições, sempre), estes quatro amigos (da vida) vivem algures num país africano à mercê de líderes totalitários, à mercê da destruição a que foram sujeitos por guerras – algumas financiadas em conjunto com países Europeus – ou à mercê de qualquer outro caos provocado que os deixa sem o seu chão, procuram a esperança utópica de uma vida digna, reúnem o que lhes sobra, fazendo-se às perigosas estradas de uma miragem. A liberdade. Alguns dos seus companheiros de jornada de medo são terroristas, mas estes nomes que escrevi, certamente não.

Sujeitam-se aos filhos de puta mercadores de vidas, comerciantes de carne humana que lhes sugam tudo o que têm, iniciam uma jornada solitária e desumana para se livrarem do que sofrem. A dignidade é o nome da fronteira que está ali, quase à mão de semear, que se chama Europa. Basta atravessar o Mediterrâneo. Os balseros mediterrânicos.

O resto da história é por demais conhecida de todos. Milhares estão sepultados no fundo do mar. Milhares salvam-se e são acolhidos, ainda no mar, por gente que os resgata, podendo ir presa por o fazer. Outros estão para ali atirados, em campos de refugiados, esquecidos. Outros…salvam-se e num camião qualquer, conseguem pisar chão livre. Ou morrem sufocados. Há histórias de horror ou de beleza para todos os gostos.

Continuando a história dos quatro amigos (da vida), porque os escolhi? Por serem Portugueses e terem sido eleitos por concidadãos que acreditam no salvamento de vidas e nos valores Europeus . Que afinal, talvez não sejam os deles.

Por representarem uma Nação de migrantes, de gente pobre, da sanzala que maioritariamente sofreu por não ter tido quem os salvasse. Por serem descendentes de um povo que precisa de gente que lute por quem não tem voz, como uma vez e ainda hoje precisam para si próprios, como só o podem fazer os parlamentares eleitos.

Porque são descendentes de gente que salvou vidas da morte certa. Porque são descendentes de gente que se atirou a todos os Mediterrâneos em busca de dignidade nas suas vidas.

Porque me indigna e condeno quem é eleito na política não olhando à dignidade da vida à frente de qualquer outra política.

Se estes deputados Portugueses, pró-vida (deles) tivessem votado a favor, o projecto não teria chumbado. Foram quatro votos a favor das políticas contra a vida.

Fazendo o favor ao Bannon, que anda pela Europa a fazer o que lhe compete. Destruí-la.

O que conta são os lucros. E matar os pretos todos que não servem para nada…

Senhores deputados, um dia, o karma vai encontrá-los, quem sabe na ponta de um verso “quando me vieram buscar não fui salvo, porque já não havia ninguém para me salvar”.

Até lá, espero que nunca mais nas vossas vidas tenham uma noite descansada de cada vez que morrerem migrantes no mar Mediterrâneo por não terem tido a possibilidade de uma lei Europeia que os salvasse. 

Anabela Ferreira

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