Salvação

Ao contrário de todas as expectativas, o Presidente do Governo não comparecera naquele dia no tribunal, para declarar das suas penas e angústias, contra o jornalista que lhe tinha chamado palhaço por escrito.

Em cima dos andaimes da obra ao lado acumulavam-se operários curiosos, espreitando disfarçadamente por entre as gelosias sujas, à procura da notícia que a comunicação social, que se apinhava nos bancos de madeira corridos, também não conseguiria dar. O sangue não escorrera, apenas um papel esquálido, cheio de frases feitas por um “minuteiro” qualquer, fora lido. O Presidente depusera por escrito, como era seu direito, retirando todo o charme àquele julgamento.

Faltavam cinco minutos para as cinco da tarde e, como sempre, o juiz não atendera aos rogos para que o julgamento terminasse às quatro e meia, a tempo de ela poder apanhar o táxi que a conduziria ao avião sem ter que correr, sem ter que suar, sem ter que desesperar. Em casa, os dois filhos pequenos tinham ficado à conta da mãe e o homem doente à conta da sogra, por isso se lhe afundavam as rugas de expressão, já cavadas pela perspetiva de ter que ali voltar, na semana seguinte, mais dois dias a contra-relógio, depois de aterrar naquele aeroporto que lhe enfiava a morte pelos olhos dentro. Apeteceu-lhe vomitar ali mesmo.

Ouviu o estalar das folhas do processo umas contra as outras, zás!, e correu para a porta, deixando um “boa tarde a todos, até para a semana”. Ainda se lembrou de que nem o cliente a acompanhara, um intelectual meio envergonhado, retido pelo desdém que votava às picuinhices dos julgamentos, essas realidades menores, mas sobretudo pelo medo de andar de avião. Um julgamento duro no enfrentar dos poderes fácticos, ambos, no entanto, tão frágeis que tinham falhado na coragem necessária ao confronto dos olhos nos olhos. A cartilha era sempre a mesma.

Apanhou o táxi, que galgava agora as curvas íngremes até à outra ponta da ilha, a toga a rojar o chão, quando saiu, a mala de arrasto, os óculos a caírem-lhe do bolso, uma e outra vez. Ainda estava longe do balcão, quando ouviu anunciar o fecho do check-in, por isso correu abanando o bilhete até à mulher vestida de hospedeira .  Ao esbarrar contra o reclame de cartão que mal se tinha em pé do lado direito, deixou cair o olhar fugidio naquele anel de ouro que a mulher ostentava no dedo aristocrático da mão esquerda e comparou-o instintivamente ao seu. Eram incomparáveis, ao menos no significado. O olhar caiu depois até às gotas de suor que já marcavam descaradamente o chão.

– Onde é a casa de banho, por favor?

– Ali ao fundo, mas despache-se, olhe que perde o avião!

Não sabia o que lhe apetecia exatamente fazer na casa de banho, apenas ansiava pela frescura da água na cara, nos olhos. Outra vez nos olhos. Respirou fundo enquanto sacudia os cabelos encharcados, depois de procurar em vão o papel e correu para o avião.

Foi só em Lisboa que deu por falta do anel, quando por fim se despiu no escuro e não sentiu o volume insolente da meia calote dourada, cuja malha se prendia invariavelmente nas camisolas de lã. Uma prenda especial, aquele anel, um carinho esforçado de alguém que não podia dar-lho. Por isso, nessa noite sonhou com a vergonha em forma de abismos claustrofóbicos. Como podia ter perdido aquele anel? Estúpida! Mereces rolar assim, no escuro, pela encosta abaixo e afundar-te no mar, sem remissão, à vista de todos. Quem te manda ter medo da morte, medo desse silêncio cego, gelado que à tua volta cresce?

Na semana seguinte, de novo à espera de entrar para o avião, de regresso a casa, ouve o seu nome repetido ao microfone.

– Passageira Maria Rodrigues! Passageira Maria Rodrigues!

Era agora a mulher que lhe acenava com uns papéis na mão, pedindo-lhe, por gestos desengonçados, meio grotescos, que se aproximasse. Sentiu o peso de cem pares de olhos a perseguirem-lhe as costas e a acompanharem o som da conversa da mulher, que não desligara o microfone.

– Não perdeu nada?

Encolheu os ombros acompanhando “Sim, um anel”.

– Pois foi! É uma mulher de sorte!

Despejou uma golfada de sarcasmo azedo para dentro do peito. Uma mulher de sorte! A gaja deve estar a gozar. Uma mulher de sorte! Que sabe ela da minha vida?

– De sorte? Se a senhora soubesse da minha vida, não dizia isso.

E deixou descair os cantos da boca.

– De sorte, sim! Há-de andar por aí uma estrelinha muda, um anjo sobre a sua cabeça. Veja bem: Vi-a chegar a correr, naquele dia, a deixar cair tudo pelo caminho, a tropeçar nas coisas. Depois chega ao balcão e eu reparei nos seus olhos, ou talvez naquilo que eles me disseram nessa altura, uma coisa estranha que me tocou, tal como o seu anel tão invulgar. Foi o último passageiro a fazer o check-in. Depois do avião partir, uma colega daqui veio ter comigo e disse: “Alguém encontrou este anel estranho ali nos lavabos. Pensei que fosse teu. És vidrada em anéis”. Mas infelizmente não era meu. Lembrei-me dos seus olhos e fui ver quem era a passageira a quem eu tinha feito o último check-in para Lisboa, nesse dia. Retive o seu nome e os seus olhos até hoje, na esperança de que cá voltasse. Hoje vi-a aí sentada – anime-se mulher! –  e reconheci-a. Eu tinha esta certeza de que havia de voltar.

Toda a sala de embarque estava presa às duas mulheres, uma, imóvel, respirando com dificuldade, outra num pungente júbilo infantil, por confirmar que estava completamente certa, de muitas maneiras.

Na luz gelada do fim da tarde a mulher tirou então da bolsa um pequeno saco de brocado azul e encostou-o ao peito da última passageira, que lhe reteve a mão suave e quente, bem junto ao coração, enquanto murmurava qualquer coisa que já não se ouviu ao microfone, mas que pareceu ser a palavra “salvação”.

Isabel Duarte

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