Sarilhos do Carilho!

Manuel Maria, o Carilho, gosta de se meter em sarilhos. Infelizmente a justiça, mais propriamente os tribunais portugueses, mais especificamente uma juíza, não facilita as suas aspirações.

Carilho, andou anos a preparar a sua entrada numa penitenciaria onde, como pessoa bem informada que é, sabia que os condenados por crimes de violência doméstica (entre outros) têm tratamento especial. Como pessoa bem informada, mas malformada, Manuel sabia que, na primeira vez que o sabonete lhe caísse ao chão deixaria de ser Manuel Maria passando a ostentar, quem sabe orgulhosamente, um Maria Manuel.

O ainda, a contragosto, Manuel Maria, foi absolvido do crime de violência doméstica contra Bárbara Guimarães por uma juíza amante de gatos e da Alemanha nazi. Estranho não ter condenado Carilho por ter tido o desplante de não ter enfiado a cabeça de Bárbara Guimarães no forno lá de casa, abrindo o gás. Talvez tenha uma atenuante, provavelmente o forno era eléctrico, não permitia a reconstituição caseira da amada Auschwitz.

“Nunca lhe toquei. Mas amparei-a muitas vezes quando não se segurava nas pernas” declarou Manuel Maria em tribunal. Esta declaração levanta desde logo um problema, se não lhe tocou como é que a amparou? Querem ver que o filósofo Manuel desenvolveu dons especiais e usou a força do pensamento nos “aparamentos” que fez.

A conversa do “não lhe toquei” lembra-me a anedota do individuo que estava a ser julgado por ter esfaqueado outra pessoa, defende-se dizendo ao juiz “Ai senhor doutori mas eu nã fiz nada, estava com o canivete aberto e ele caiu-me em cima… dez vezis senhor!”. Será mais ou menos, uma variante desta história que se aplicará ao Manuel Maria, ele estava lá para a aparar e ela caiu-lhe em cima do punho ou do pé várias vezes. Absolva-se, portanto!

Argumenta ainda Carilho que o sarilho era que Bárbara “chocava com portas fechadas”, esta justificação já é catedrática, raio das mulheres que andam sempre a dar com a cara nas portas. Joana Ferrer desvalorizou a aparente tendência do Manuel Maria para “aparar” Bárbara alegando que estas coisas sucederam “apenas no contexto” do conflito entre eles (afinal havia conflito?) e contra “um grupo restrito de pessoas”.

Esta justificação para absolver o Manuel Maria não lhe permitindo transformar-se em Maria Manuel é fenomenal. A violência doméstica é sempre, repito, É SEMPRE praticada contra um grupo restrito de pessoas.

Quando na sua “douta” sentença a juíza refere que “Os tribunais de hoje não são os tribunais plenários de má memória, onde as pessoas entravam já condenadas” esqueceu-se de acrescentar que, neste caso especifico, entrou em tribunal um arguido já absolvido e uma queixosa já culpada por “ser destemida”.

A dúvida do tribunal, desta juíza em particular, prende-se com a sua dificuldade de entender como é que uma mulher como Bárbara Guimarães, poderia aguentar levar porrada sem fazer nada contra isso, sem denunciar a situação e sem, em última análise denunciar a situação. A explicação é tão simples, seja neste caso, seja em relação a qualquer caso de violência doméstica, praticada contra mulheres ou praticada contra homens, chama-se vergonha.

Vergonha de ver a vida exposta na praça pública, vergonha de admitir, reconhecer e compreender que a denúncia é a única via para acabar com o flagelo. Acresce à vergonha o receio de se encontrar do lado da justiça uma eminência parda que começa logo por estranhar não só o facto de Bárbara não se ter queixado de imediato. Joana Ferrer, a juíza, não acolheu a questão da vergonha porque… rufem os tambores… Bárbara já sabia que no dia em que denunciasse o caso seria público, ou seja, passaria pela vergonha. Dito de outra forma, se não queria passar pela vergonha o melhor teria sido ficar calada, quem sabe usando a expressão “come e cala”.

Manuel Maria é “uma pessoa perfeitamente integrada na sociedade, muito querido dos seus alunos e com obra reconhecida” argumenta a juíza, não entendendo ela que, uma vez mais, a ser verdade essa avaliação de Carilho maior seria a dificuldade de “Bárbara” ganhar coragem para se queixar do “Professor” e ser envergonhada pela justiça e pela sociedade.

Disse Jean-Paul Sartre, “Reconheço que a violência, seja qual a forma com que se manifeste, um fracasso. Mas é um fracasso inevitável, pois estamos num universo de violência. E ainda que seja verdade que o recurso à violência contra a violência corre o risco de a perpetuar, também é verdade que é a única maneira de acabar com ela.” Tudo indica que esta seria também a vontade desta juíza, resolvam as coisas em casa, não incomodem os tribunais, se tropeças e bates numa porta fechada, faz também com que tropecem e batam em portas, abertas ou fechadas!

Que sarilho, por causa desta sentença o Carilho vai continuar a ser Manuel Maria e não será (pelo menos a expensas do estado) Maria Manuel!

Jacinto Furtado

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