Sobre dar beijinhos aos avós “coercivamente” (ou seja, à bruta)

Vou contar uma historinha que me traumatizou. Fui educada por umas pessoas muito bem educadas (os meus avós paternos) que me explicaram que eu deveria sempre que me cruzasse com alguém dar os “bons dias ou boa tarde”, um aperto de mão ou um beijinho. O que eu quisesse mas sem nunca deixar de cumprimentar. Era obrigatório e não estava aberto a debate.

Também me criaram um hábito. Pedir autorização para sair da mesa ao mais velho (o meu avô) e a dar um beijinho aos presentes na mesa . Éramos quatro em casa. Fácil. Nunca entendi a segunda parte do principio educacional mas cumpri. Cumpria porque essa era a regra. Não estava aberto a discussão.

Num ano qualquer, já crescida cheguei a Bissau para visitar a família materna e estando toda a tribo materna reunida à mesa, acabei de comer e pedi autorização para me levantar como era preceito obviamente. Ao meu pai. Ele disse que sim e de repente o meu tio Fernando pergunta surpreso e a gozar “mas onde é que ela vai?”….O que tinha originado a surpresa do meu querido tio (um beijoqueiro sem emenda) era que eu estava – como tinha aprendido – a dar um beijinho aos presentes na mesa. Dei a todos (o que deixou os meus avós orgulhosos). Deviam ser uns trinta…

Este episódio traumatizou-me. Tornei-me uma beijoqueira e uma abraçadeira e nem preciso de coerção :). No entanto, seria incapaz de obrigar as minhas netas a dar beijos e abraços que elas não quisessem oferecer. Nem tão pouco os aceito ou exijo dela quando ela não mos quer dar(à Iris – bébé – por enquanto roubo todos). Nem os meus pais como bisavós o fazem.

Não deveria estar aberto a discussão obrigar qualquer criança a cumprimentar com beijinhos e abraços.No entanto na minha tribo somos todos abraçadeiros e beijoqueiros. Porque gostamos.

Mas não está aberto a discussão não exigir que se cumprimente, agradeça e peça por favor.

Somos certamente uma tribo de primatas dissidentes.

Beijinhos aos meus avózinhos que tão bem me educaram. Descompliquem e usem de bom senso com cada criança para que se tornem primatas decentes uns com os outros.

Anabela Ferreira

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