Sobre o racismo

Sobre racismo, machismo e fascismo, ou a desumanização do ser humano.

1.Quando a vítima fez, disse, vestiu ou tem a cor da pele errada, criando “o qualquer coisa” que despoleta a barbárie em ti…

Ontem vi que tenho amigos que apoiam um certo partido. Aquele que oferece como solução política a desumanização de certos grupos de humanos. Este é o princípio do racismo, do fascismo, do machsimo e da misoginia.

Percebi num momento de clarividência que além do Alcindo, do Giovanni, do Bruno, da Beatriz, mais irão ser vítimas. Porque este ódio não é recente.
Há muita gente que desde antes de Salazar ter caído da cadeira é fascista, racista, misógino e machista e oferece este ser como herança.

E vão sempre culpar a vítima para desculpar a sua barbárie.

2.Eu sou do tempo daqueles que me insultaram e mandaram para a minha terra.
Sou do tempo daqueles que foram mandados defender a minha terra dos meus irmãos – então chamados terroristas – porque a minha terra lhes pertencia.
E os que iam para lá longe defender a terra violavam as mulheres e as adolescentes pretas porque estas lhes pertenciam e se achavam nesse direito.
São os velhos de oitenta anos que sessenta anos depois matam pretos.

3.Sou também do tempo que por ter sido comprada como escrava ou usar saia curta, era o argumento suficiente para ser violada, aterrorizada, maltratrada.

Da misoginia da minha vergonha e humilhação que nunca me deitou por terra como queriam, antes me tornou mais forte.

4.“É já tempo de embalar a trouxa e zarpar” destas concepções erradas.
A culpa não é certamente de nenhuma das vítimas destes crimes.
Nem de um país. Mas é de um país que não se cura nem trata. E por isso faz mais vítimas.
Não há racismo, nem machismo, nem misoginia, nem fascismo em Portugal.
E se alguém disser que há (como eu digo) é apedrejado.
Há apenas a negação. Ainda não vi nenhum criminoso assumir os seus crimes. São todos inocentes.

Portugal (ou o planeta?) deveria estar no banco do psiquiatra e muitos dos meus concidadãos nas mãos de Egas Moniz.

5. A culpa é de uma nova escravatura/regime que alimenta a ignorância e a pobreza.
Que alimenta as atitudes dos ignorantes da vida. Dos que dizem que estudaram na escola da vida mas que infelizmente na vida nunca foram à escola aprender que a mentira se esconde na negação.
Não há melhor desalfabetizado para ser manipulado.

6.Ergo hoje uma estátua a todos os que como eu ouviram frases criminosas e foram vítimas dos crimes de racismo, fascismo e misoginia – ligados como siameses- e pergunto quem são de facto os terroristas?

7. Hoje há uma manifestação em nome do Bruno Condé, que não conheci. Era um homem de pele preta, como o Alcindo e o Giovanni, Vítima do ódio numa cabeça cheia de vazio, ignorante e demente.
Vítima de um sistema que cada dia, ontem e amanhã, piano piano, injecta a desumanização, usado pelas mãos do fascismo na raiz de certos partidos, conseguindo realizar a farsa da manipulação.

E os meus amigos simpatizantes do tal partido – para minha vergonha e humilhação – que se vestem racistas, misóginos (alguns são mulheres) e fascistas, descobertos que estão, são convidados a ficar longe da minha casa.
Estou sem energia para lutar convosco tamanha é a minha vergonha. Sou uma ninja triste. Mas nada tenho a perder, vou usar a única arma que me resta.
Não vos deixar dormir descansados como se já tivessem ganhado o jogo.

Porque sou mulher e preta. Na pele senti tudo o que conto e sempre pensei que só um caminho de cura existia – o de juntar esforços com os amigos brancos, homens e mulheres para sair da rota do fascismo, da misoginia e do racismo.
Mas a cegueira tapou-lhes todos os sentidos.

Porque tu igual a mim, que começaste esta história do racismo há quinhentos anos, não a queres terminar.

Porque tu que começaste a história de ódio à mulher e lhe retiraste todo o poder não a queres terminar.
Porque tu que começaste esta história de uns seres superiores a outros por isso têm de dominar, não a queres terminar.


Anabela Ferreira

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