O texto que se segue não é ficção (por Cláudio Lopes)

Anteontem, estava eu sentado numa esplanada, descansado a ler um livro, quando passa por mim um apressado casal que se senta duas mesas à frente. Vinham os dois super agitados. Nunca os tinha visto por ali.

Deveriam estar os dois na casa dos 30. Ela chamou-me a atenção pela sua extrema magreza e o seu constante e descarado coçar de nariz… Ele, de óculos de sol, sentou-se de forma perpendicular a mim o que me fez reparar que a sua mão tremia muito quando levava o cigarro à boca. Ela também fumava, em bafos ávidos e rápidos. Correndo o risco de ser preconceituoso, achei imediatamente que aquela mão tremida de um e aquele coçar de nariz do outro teriam a mesma explicação…

Veio cerveja para a mesa. Sentia-se um ambiente pesado, depressivo, acentuado pelas palavras de acusação que trocavam entre os dois. O rapaz deveria ter alguma dor – diria de dentes, pela forma que tinha a mão na cara. Alguém na mesa do meio -que ficava entre nós – conhecia o rapaz e perguntou, “estás doente?” ao que ele respondeu um curto e agressivo “sim”. O homem perguntou “posso fazer alguma coisa para te ajudar?” Ele respondeu “não” e dois segundos depois, talvez por se aperceber que tinha sido rude demais, acrescentou “Obrigado”.
A discussão aumentou de tom. Ele lembrou-lhe que ela estava em público. Por muito que me quisesse abstrair da conversa alheia, não estava fácil “tapar” os ouvidos e concentrar-me no livro. Coisas como “Isso é mentira, mas também não tens nada a ver com isso porque não és meu namorado” -ela – “também nunca quiseste saber de mim” – ele – deram para perceber que à parte do meu possível preconceito inicial, ali estava um ex casal que claramente ainda gostavam um do outro, mas que a vida – e talvez as drogas (preconceito de volta) – complicou o entendimento de tão nobre sentimento.

Senti uma energia muito má – mesmo muito má. A discussão nunca passou para gritos, mas sentia-se ódio nas palavras. Lembro de sentir grande tristeza, de me sentir mal por eles. Chegou a dar-me vontade de tentar moderar a conversa-discussão mas jamais poderia fazer isso – dificilmente seria bem aceite.

“Agarro já neste copo” – diz ele.

“E quê? E fazes o quê, com esse copo?” – diz ela.

À tristeza que eu sentia juntou-se alguma preocupação pela minha segurança já que facilmente se leva com um copo sem culpa alguma.

As coisas pareceram acalmar. Já não conversavam tão agressivamente, mas as palavras que trocavam eram de um carácter depressivo, deprimente, e lá está – triste, muito triste. Por momentos baixaram o tom e eu pude voltar à minha leitura. Enquanto lia números – livro de poker – os meus pensamentos eram interrompidos pela constante ideia do quão triste é o estado que alguns de nós nos permitimos chegar. Há tanta coisa boa neste mundo – porque nos contentamos em nos focar no negativo? Imerso nestes pensamentos, o silêncio foi interrompido pelas palavras deles. Ele deve ter dito algo – não sei o quê, não ouvi -, mas ela comentou “Não sei se vamos para o céu ou não, mas seja para onde formos espero que seja mais fácil do que aqui! Estou farta disto!”

Não estou a embelezar a frase – se é que há algo bonito nesta frase – , foi mesmo aquilo que ela disse. Fui invadido por uma tristeza muito grande. “Vocês já estão mortos e não sabem”, pensei. Para morrer não é preciso perder a vida. Há muitos que estão mortos e andam. Quando desistimos, estamos a cometer suicídio. Podem achar parvo, mas senti uma maior vontade de meter conversa com eles e tentar de alguma forma ajudar, mas não o poderia fazer…
Os dois fumavam sem parar. Ambos tinham as pernas em constante agitação. O tom de voz era seco, de desprezo, de escárnio – eram duas bombas prestes a rebentar. Às tantas a conversa começou a subir de tom – agora mais ela. De repente, ele diz “não estou para isto” e foi-se embora deixando-a sozinha na esplanada. Ela, visivelmente nervosa refugiou-se no ecrã do telemóvel e acendeu mais um cigarro.

Porquê esta história toda?

Bem, hoje fiquei a saber que aquele nervoso rapaz – o ciumento e apaixonado dorido de óculos de sol – quando saiu disparado da esplanada tinha os seus próprios planos. Segundo parece, imediatamente a seguir, dirigiu-se para uma barraca (…) e enforcou-se.

Nunca o tinha visto nem o volto a ver, mas a primeira coisa que me passou pela cabeça foi, “Será que sim? Será que é mais fácil agora?”

A cara dele visitou-me várias vezes…e ela…ela? Nem quero imaginar como estará ela…

Desengane-se quem pensa que isto é apenas “coisa de drogados”. Nunca sabemos o que se passa na cabeça do “vizinho”. Não se deixem afundar. Falem com os vossos familiares e amigos. A vida nem sempre é fácil, mas não temos de a tornar mais difícil.

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