The Dust Lady

O dia acordava ensolarado e o céu limpo não fazia adivinhar o que este trazia guardado. 

Marcy Borders, trabalhava há um mês no Bank of America no octogésimo primeiro andar de uma das Torres Gémeas do World Trade Center. 

Tinha vinte e oito anos no dia onze de Setembro de 2001, no ano de início do século XXI. 

Um avião embateu na primeira torre – o edifício tremia e balançava. 

Sem que ninguém percebesse o destino que lhes tinha entrado sem convite nem aviso – como o destino nunca faz – contrariando as instruções da sua chefe, para ficarem no escritório, Marcy lutou para sair do lugar que se transformava na descrição do Inferno de Dante. 

Desceu em pânico quase oitenta andares, puxada a adrenalina, certamente com ordens vindas do centro de comando para que sobrevivesse, escapou por uma saída para a torre adjacente e num instante parou em choque. O instinto de sobrevivência enviava o sinal para perceber onde poderia encontrar uma saída, por entre o fumo espesso negro e o pó que não a deixava ver as próprias mãos, que a engasgava e sufocava, quando foi capturada numa imagem por um fotógrafo que se encontrava no lugar e olhando-a pensou sem fazer nexo: “ bem vestida, coberta de pó e perdida”.

Naquele dia de um quase final de Verão do primeiro ano do início de século, todos nos lembramos do lugar onde estávamos, o que estávamos a fazer, com quem partilhámos a incredulidade e o horror que se transmitia em directo e, como zombies revíamos as imagens.

Todos vimos colegas de Marcy se atirarem das torres ao fugirem da morte para os braços da morte. Sem que exista nenhuma poesia nesse dia. 

A macabra poesia escondia-se na quase beleza da poeira que cobria Marcy, que encontraria a porta de saída e sobreviveria com a ajuda de um estranho. 

Vestida de poeira mortal branca, transformaria o seu retrato numa das imagens icónicas do dia – The Dust Lady.

O ensolarado dia 11 de Setembro de 2001, aquele seria o dia do ataque terrorista a civis que a História recente guardaria memória, seria considerado o contemporâneo Pearl Harbour. 

O 14 de Setembro concedia ao Congresso Americano a mão para autorizar guerras contra os terroristas que se pressupunham envolvidos no mesmo. 

De alguns deles, nos escombros, por entre metal derretido e retorcido, foram encontrados os passaportes. 

Como aconteceria em Madrid, Paris, Londres e Bruxelas, entre outros, anos mais tarde. 

Há quem diga e tente provar que foi um ataque interno para que essas guerras que se seguiram, pudessem ter lugar. Em busca de controlo e poder. 

E de fazer negócios rentáveis, para Neros que a salvo nas suas torres de marfim, assistiam ao desenrolar da tragédia civil. 

Do trauma civil. 

A 07 de Outubro, Bush filho, o ignorante e Dick Chenney o maquiavélico invadiam o Afeganistão, aliado e anfitrião de Bin Laden, o culpado oficial dos atentados, naquela que era uma vingança, por nutrir ódio oficial pelo ocidente. 

Na preparação do “Império contra-ataca” envolvendo os “amigos”, as Lajes preparavam uns snacks para receber os criminosos de guerra Bush, Blair e Aznar, servidos pela mão do anfitrião e cúmplice Barroso.

Na sequência, a 21 de Março de 2003 alegando “armas de destruição maciça”, Bush e a sua trupe de mentirosos invadia o Iraque, matando posteriormente Saddam Hussein e mais uns milhares. 

Pelo meio destes anos, Obama o narciso inteligente mataria Bin Laden, continuando a guerra. 

Os banhos de sangue foram a continuidade em perpétuo movimento na corrente, ao longo destes vinte anos. 

Trump o esperto narciso petulante, continuou o próspero negócio da guerra e foi preparando com os Talibãs o regresso destes ao poder, através da saída americana em Maio de 2021. 

Biden o senil simpático que não muda nada, concretizou-a em Agosto de 2021. 

Não desfazendo de nenhum, todos são o mesmo rosto, mudando apenas os cognomes. 

Nesta guerra não há melhores nem piores, há apenas roupas e formas de comunicar para se diferenciarem. 

Completam-se vinte anos de uma história de terrorismo, da qual todos guardamos muitos detalhes na memória, daquele dia em que assistimos numa pequena caixa a memórias provocadoras de inúmeras náuseas e traumas, como a outros traumas que aconteceriam não apenas nos dias seguintes, nem apenas em solo americano, mas ao longo de vinte anos. 

Três mil pessoas morreram no dia 11 de Setembro. Mais de seis mil ficaram feridas como consequência dos desabamentos. 

Para cima de cinquenta mil são as mortes que foram acontecendo por doenças respiratórias, traumas – incluindo nos familiares e amigos – cancros vários e suicídios. 

Só em solo americano. 

Sem contarmos os corpos caídos nos países invadidos – quando as provas irrefutáveis se revelariam mentiras irrefutáveis – onde as vidas contam evidentemente o mesmo que as do ocidente. 

Um cancro é uma célula maligna com uma missão – a destruição. 

Assim fizeram as células malignas que se metastizaram a partir do dia em que o mundo mudou. 

Na linfa de uma parte da humanidade correm as células malignas da ganância, que se reproduzem a enorme velocidade, não se interessando por salvar o Bioma Terra ou da Justiça, ou dos Humanos com direito à vida, corrompendo todos os sistemas, fragmentando-os e fragilizando-os, destruindo tudo à sua volta. 

São células camaleónicas que adequam o seu modus operandi apoiadas que estão nos seus sistemas de operação militares. 

Com uma missão: a destruição.

Gostava de ver a bondade salvar o mundo mas tal parece uma utopia, se calhar, trabalho afecto apenas à poesia. 

Tentei pensar em poesia no dia em que visitei o chamado “Ground Zero” em New York em todos os dias que passeava por qualquer ponto da cidade, enquanto lá vivi menos de um ano depois do dia fatídico, olhando os nomes e os retratos de algumas das quase três mil pessoas mortas. 

Não conseguia. Tinha sempre a garganta sufocada por uma bola de raiva. 

No dia 11 de Setembro de 2001 em Maputo onde vivia na altura, assisti a tudo quase sem reagir como uma sonâmbula, depois de ter sido obrigada pela segurança do meu local de trabalho a ir buscar o meu filho à escola e a ficar em casa. Um aparato de segurança rodeava os nossos escritórios das Nações Unidas. 

Vivi atordoada, quase em modo levitação, sem entender se teria entrado num universo paralelo ou num filme de George Lucas. 

Só muito mais tarde o meu cérebro processou alguma informação. Vinte anos depois consigo escrever com alguma clareza, olhando para trás. 

Guardados na mente ficaram os retratos no Ground Zero e no metro de New York. 

Anos mais tarde, em 2016, depois dos atentados em Paris, tendo passado pelos atentados em Bruxelas – ambos consequências do dia 11 de Setembro – percebi (ao de leve) como funciona um trauma. 

O medo instala-se e tudo serve como gatilho para o descontrole e ansiedade da mente. 

Tudo serve para que o cérebro coloque em marcha planos de sobrevivência ou de perda absoluta de controlo, para que faça alguém atirar-se de uma janela de um octogésimo andar em busca de salvamento ou dando razões de sobra ao coração para desistência em bombear sangue. 

Vítima de um cancro provocado pela inalação do fumo, depois de anos a lidar com depressão profunda, alcoolismo, perda da custódia dos filhos – tendo conseguido reavê-los depois de longos processos de desintoxicação – de viver com crises de ansiedade e pânico durante anos, incluindo nas alturas em que o cérebro perdia o controlo quando via e ouvia um avião, Marcy Borders morreu aos quarenta e dois anos. 

Resta-me pensar que as vidas de todas as vítimas directas e indirectas deste dia não tenham sido em vão, esse é o desejo que consagro à poesia. 

Será esta uma utopia?

Anabela Ferreira

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