Um Domingo na vida de Domingo

Exactamente à meia-noite, nem um segundo a mais, o Domingo recebeu do Sábado uma folha branca, guardou-a no bolso e pôs-se logo em marcha, derivando pela cidade.

00:30. Chegou à Cervejaria Trindade. Sentado numa das mesas da primeira sala, de imperial na mão, o Domingo viu José Franco seguir para cima e para baixo com tabuleiros periclitantes: os pregos, as batatas fritas, as canecas, os molhos, pães, azeitonas, a saudade dos pais que já não vê desde o Verão. Franco é agradável para os clientes, fala-lhes, sugere-lhes pratos, dá um ou dois remoques-retoques humorísticos enquanto cruza as mãos entre a devoção ao ofício e a esperança em dias melhores. Em dias de descanso, em Domingos outros que não este. Um Domingo para atender a família, cozinhar para ela, depois descansar, rir com a miudagem, falar do Benfica com amigos e beber uma aguardente velha para acabar o dia. Acabará o turno às 2 da manhã se não houver gente ainda a comer e beber, fará as contas da caixa, irá deixar ao gerente a bolsinha com o dinheiro. Depois subirá ao balneário, pondo a camisa branca, as calças pretas e o avental creme no seu cacifo. Enquanto muda de roupa, lembrar-se-á de Tavira, das férias. Dos mergulhos, das sardinhas e dos camarões-tigre sob um Sol diferente desta luz fosca que agora o desilumina. Descerá as escadas, passará a porta. Na rua, dirá adeus ao Domingo que lhe dirá adeus. A Deus.

03:00. Demasiado alcoolizado, o Domingo desceu por entre os bêbados do Largo Camões e seguiu para o Cais do Sodré. Pelo caminho, indignou-se com o emaranhado de fios pretos que apertam de telecomunicações os palacetes lisboetas. Sentou-se na entrada do British a escrever poemas sem sentido nem talento – qualquer coisa que começava assim: “a noite voluptuosa sangrava desejos pueris” – e foi interrompido pelos batuques pesados do camião do lixo. Duas mulheres em frente a Domingo recolhiam caixotes, punham-nos na viatura, deixavam cair os dejectos. Ouvia-se a máquina a trabalhar em curvas diagonais que despejavam os atritos quotidianos. Elsa Maria e Joana Fontes já saltavam para as laterais traseiras do camião quando o Domingo lhes pediu boleia. Seguiu agarrado a uma delas pelas ruas da cidade, ajudou-as posto a posto. Lisboa entre o céu e a terra, a noite e o dia, o rio e o porto, ia despedindo os turistas, os últimos viajantes, as putas, os bêbados, os sem-abrigo. Elsa e Joana hão-de chegar a casa já de manhã, hão-de tomar um banho que terá um nome e cheiro perfeitos, hão-de beijar os filhos que acordam, hão-de fumar um cigarro na cozinha depois de um café já sem cafeína suficiente para o cansaço do trabalho nocturno. Hão-de chegar à cama. Hão-de dormir. Domingo, meio-grogue, já não verá a felicidade das almofadas de flanela de Joana e Elsa.

16:15. Rosa Martins está a passar produtos no Pingo Doce de Arroios, o computador arrota sons e pis. O Domingo espera na fila, atrás de um casal de nepaleses que aproveitaram o dia para as compras mensais. Está ansioso, Domingo, inundado de Sábado e ansioso de Segunda. Só leva 4 ou 5 coisas no saco: chá, bolos, uma garrafa de Porto, detergente para a roupa e talvez velas vermelhas. Vê quem entra, quem sai, quem espera. Ouve uma música de Natal e uma caixa que usa o microfone para debitar novas promoções. Nostálgico, Domingo fecha-se em silêncios e mira o telemóvel passando fotografias ao acaso só para passar o tempo e deixar que os nepaleses finalmente paguem. Tanto tempo ficou nestas ilusões que foi Rosa Martins a acordá-lo, pedindo-lhe o cartão de cliente. Domingo não tinha. Quer dizer, tinha mas só em casa. Não tinha. Pediu um saco e, enquanto Rosa Martins robotizava pis, fez um comentário muito pouco muito apropriado

– Ninguém deveria trabalhar ao Domingo.

20:05. Deitado no sofá, bebendo Porto com farrapos de chá, comendo bolos, as velas vermelhas criando ventos de fantasmas irregulares na sala, o Domingo sentiu primeiro a perna turvar-se-lhe; a seguir, o braço. Imóvel, meio que anestesiado, foi só quando uma onda gigante explodiu no coração que o último ou o primeiro dos dias da semana sentiu a necessidade de chamar alguém. Ali ficou, minutos sobre minutos, esperando a morte que só viria noutra Segunda distante. Ou esperando Carlos Matos, o bombeiro que arrombou com a porta e o encontrou definhando em frente a um filme americano de inacreditável romantismo de bolso. Ao colo, o Domingo foi levado da sua casa até à ambulância, depois para o Hospital.

– Vamos, vamos, Senhor Domingo! Vou levantar-lhe as pernas para lhe irrigar o cérebro. Aperte a minha mão, consegue?
– Um Domingo não tem cérebro, filho.

O bombeiro, que fazia Domingos todas as semanas há meses (ou anos?), já conhecia todas as manhas, manhãs e tardes do último ou do primeiro dia da semana. Passou água na testa de Domingo, conversou com ele, fê-lo rir-se. Depois encaminhou-o para os médicos que só lhe deram alta sete dias depois.

Ricardo Silveirinha

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