Um punhal cravado na alma

Até que a justiça encontre os responsáveis pelo crime. Para que Luis Giovani não seja esquecido. Continuarei a publicar semanalmente este texto.

Um punhal cravado na alma, Luís Giovani Rodrigues, tocava piano na Igreja de Mosteiros na Ilha do Fogo, em Cabo-Verde. Estava desde Outubro de 2019 em Portugal, a estudar, através de um convénio entre o Governo de Cabo-Verde e a Universidade de Bragança. Saiu para se divertir. Era a madrugada do dia 21 de Dezembro de 2019. Ficou em coma até morrer, dez dias depois.

Num acto de puro ódio, 15 animais cobardes (porque gente não mata assim) atacaram com paus e pedras, o jovem de 21 anos matando-o selváticamente, como fizeram com Alcindo Monteiro. As razões? Estão sob investigação. Que razões?

Quando a violência e a intolerância chegam ao ponto em que um grupo de quinze se atira a um jovem para cruelmente o matar, não há razão nem explicação que possa ser encontrada. O racismo? Não sei se é suficiente para se chamar a este acto, uma animalidade irracional. Tal como não é suficiente chamar racistas aos alemães que no III Reich (que agora na nova Alemanha retomam a mesma estrada), praticaram o culto da morte por crueldade.

Vai mais longe, é mais profundo, tem a ver connosco, com a nossa génese. Tem a ver com o medo do outro, com o medo de que o outro roube a nossa essência, nos roube o lugar onde apenas somos seres iguais ao outro com outra cor, noutra pele. Tem a ver com a perda de identidade, com a perda do valor sagrado da vida, quando a banalidade do mal entra na corrente sanguínea e deixamos de ser humanos para nos tornarmos bestas inomináveis.

Em vários países do mundo, sobretudo no continente Africano e no Sul Americano a morte matada tem o custo irrisório de 50 (cinquenta dollars americanos). Manda-se matar por futilidades, ou assuntos sérios como uma dívida, a descoberta de um amante secreto, um carro, uma carteira, ou inveja. Na morte por oportunismo e/ou na fúria do momento, selvática é igualmente inexplicável porque mata lenta e silenciosamente por dentro quem fica e tem de lidar com ela. Seja da família, seja amizade, seja o cidadão comum. O que foi que nos aconteceu? Como chegámos aqui? E vamos morrendo mais um pouco.

Quando a banalidade do mal é sintoma de uma doença grave, é de uma sociedade em agonia de morte. Não podemos descer mais fundo. O regresso à moral de retirar o olho a quem tirou o olho é a solução de quem vê a vingança como solução para a dor imediata, mas não é a solução para cuidar e extirpar o mal.

Abomino o racismo, senti-o na pela, em Portugal, onde ele existe bastante camuflado, mas sempre à espreita. No entanto, não poderei sair por aí justiçando com a minha faca, cometendo o mesmo crime. Não apagará o crime que antecedeu o meu. E nunca o farei porque não tenho medo que ninguém me roube o lugar como ser humano.

Só apelando à justiça, à investigação e à punição exemplar. À intolerância rigorosa para com os intolerantes. E, como sempre apelando à Educação. Exigindo-a em cada esquina. Combatendo a ignorância e o medo.

Que nenhuma alma tenha paz enquanto a banalidade do mal for a doença que nos governa o corpo e espírito. Para que as almas vítimas desta crueldade possam descansar em paz.

Giovani, Tinha a cabeça cheia de liberdade e o coração leve de igualdade. O medo não consumia espaço na curta existência. Vingou-se vivendo a qualquer preço, dando à vida o merecido reconhecimento. Dez dias de silêncio. No ombro da branca luz a cabeça encostou. Navegou. Mais nada havia. Que a justiça não descanse. Para que nunca mais aconteça. Será essa, da vida, a vingança.

Anabela Ferreira

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