Uma graça sem graça

Começou por ter graça, passou a ser símbolo de uma complexa minoria que ainda está esquecida (mulher, preta, gaga, imigrante de uma ex-colónia), até cair em desgraça. (?)

O que leio de raiva e preconceito contra Joacine Katar Moreira mostra – ainda hoje – tanto de ignorância quanto de feiura da natureza.

Falo com propriedade porque sou preta e branca, filha da mesma ex-colónia, também imigrante de lá e emigrante de cá. A Portugal, ao meu pai militar e aos meus ascendentes Portugueses devo quem sou, tanto quanto à ancestralidade negra que carrego. Sou orgulhosamente o mundo, dele e para ele. Por isso nunca estou só. Assim é a Joacine.

Tendo feito esta declaração de interesse preciso desabafar um delírio. Desde jovem que acompanho ávida Angela Davis, Toni Morrison, James Baldwin, Maya Angelou entre outros mestres que me ensinaram a ter perspectivas várias da História sem nunca me colocar no papel de vítima (que tem apelo tem). Antes sim, o de uma lutadora para alcançar o direito universal de existir, por ser humana, sem precisar de me colocar no lugar do preconceito contra o branco, o amarelo, o que não gagueja, o que é bicha ou qualquer outro que me tenha prejudicado.

Se pensasse em carreira política, o que me moveria não seria estar contra privilégios de brancos e maiorias, seria vê-los distribuídos com equidade e justiça com os que não têm nem nunca tiveram nenhum privilégio. Como não privilegiada (no entanto com muitos) sou defensora dos que ainda menos têm. Sou também contra grupos, manadas, pastores e disciplina partidária. Não sou do “status quo”. Sou antes um border collie negro. Foi o que desde cedo percebi das minhas leituras. Felizmente falta-me vocação para carreira política. Seria expulsa do partido para onde entrasse por desobediência.

Pensei que a Joacine fosse capitalizar o que pode e deve, pela diferença, rompendo o “status quo”, sendo “ovelha negra”. Não voto no Livre tal não me meteria na política partidária, mas estou envolvida na política até ao útero.

Tomo partidos sim (sempre), quotidianamente sou cidadã e exerço a cidadania – como exerço o feminismo, lutando pelos direitos iguais – pago impostos, escolho quem me representa. Falo mal e bem dos políticos, consoante representam os meus valores e objectivos. Falo do alto da minha cátedra de cidadã que se procura informar nas águas lamacentas da contemporaneidade.

À Joacine achei graça e defendia-a. Quanto mais mulheres na Assembleia da República, melhor. Sendo de uma minoria que hoje representa tanta gente em Portugal, ainda mais. Equilibrada, articulada, culta, conhecedora dos assuntos da política, preparada. Este é o retrato de uma mulher capaz de me representar. Junta-se a isto ser do mesmo chão, identificar-me com a sua história e partilharmos a quantidade de melanina. Quantas mais de nós, melhor. Que fazem falta mais mulheres da craveira de Natália Correia e Odete Santos, fazem.

Joacine prometia. Até começar a deixar-se envolver em casos e casinhos parvos, estranhos e fúteis. Mas vejamos, a Joacine faz asneiras? Claro, qualquer político as faz. Deve ser crucificada por isso? Tenham dó e quem não pecou na política que atire a primeira pedra. Se Joacine é uma nova Madalena? Poupem-me! Claro que não. Sabia ao que ia. Sabia que a política partidária não navega em águas transparentes. Soube lidar com isso? Não me parece. Infelizmente.

Nenhum de nós sabe toda a verdade nem está dentro de todos os factos do que se passa no Livre. Por isso interrompamos a crucificação e pensemos. Terá razões numas situações. Terá tido maus julgamentos noutras. Nos partidos há ganchos, ataques pelas costas, egos e narcisos prontos a mostrar a sua raça. A política descredibilizou-se por isso. Pela falta de transparência e por deixar de representar os cidadãos e a cidadania.

Joacine atirou-se à forquilha que estava espetada na relva verde. Deveria ter sido mais inteligente, deveria ter lido O Príncipe de Maquiavel. Deveria ter pedido conselhos a Shakespeare. Sente-se zangada porque é filha de boa gente. Se se mantiver na Assembleia da República espero que tenha outro comportamento. Não é a Angela Davis, porque o contexto histórico não é o mesmo da luta dos Black Panthers, espero que aprenda política em acções e postura. Nivelar bem acima do que se faz agora é o que espero.

Precisa armar a bandeira de ser mulher,preta e gaga? Por favor, não! Precisamos de mais acções políticas na Assembleia da República por mulheres, pretas, brancas, ciganas, gagas, gays e outras desprotegidas. Era tudo o que eu queria ver. Ser e fazer diferente aproveitando o lugar privilegiado e de poder, para ser uma voz.

Se eu fosse irmã dela dir-lhe-ia “ vai à luta, não desistas, podes fazer muito, mas escolhe outro caminho”. Como cidadã digo-lhe o mesmo.Votaste para que o Aristides de Sousa Mendes tivesse lugar no Panteão. Justíssimo. O que ele fez foi ser um brilhante político sem precisar de fazer barulho. Fez muito ruído por razões de valores e princípios. Faz isso também.

Joacine, sendo que está fora de questão a renúncia ao cargo de deputada, gostava de ver menos não assuntos, como saias, retratos de olhos fechados, chamar polícias para te defender de jornalistas, menos politiquices e mais propostas (foram só duas). Menos do lado feio da guerra política partidária e do circo político e mais princípios. Interessa-me que consigas granjear o respeito do que e de quem representas, evitando caíres mais em desgraça (se é que o mal não está já feito), voltando a ter graça.

Ou então, a Joacine Katar Moreira ficará para a história como fogo de palha sem consequências. Como um enorme desapontamento.

Digo eu, a delirar.

Porque afinal, até agora tudo o que temos visto é “muito barulho por nada”.

Anabela Ferreira

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