Apelo – Vigiai meus irmãos, vigiai (por Anabela Ferreira)

E se um dia lhe disserem que a internet terá restrições?

O que é que na sociedade 2.0 nos une a todos, ricos, pobres e remediados?

Não, não é o amor. É a internet. A substituta dos diários com cadeado.

Há uns anos eu escrevia poesia e trancava-a naquele livrinho de folhas amareladas que alguém me tinha oferecido no Natal de 1918. O meu confessionário. Nem as minhas tias mais vanguardistas sabiam os meus castos segredos quando ainda se usavam ceroulas.

Poder-me-ia suicidar até. Ninguém perceberia as razões sem um poste explicativo quasi premonitório. Hoje anuncio no youtube com vídeo, o momento em que tomo os 40 ben-u-ron antes da lavagem gástrica. Hoje despejo neste que é o meu muro das lamentações, das fadigas, dos desabafos e dos momentos de riso. E isso é tão bom.

Estamos todos mais soltos, mais idiotas, mais “livres”, mais comunicativos e com mais contracções musculares no pescoço. Naturalmente que o bom senso (existe mas pouco) é determinante para eu engolir sem pensar propaganda do daesh, do Marques Mendes ou converter-me às testemunhas de Jeová, inventar um personagem ou ser quem sou – uma louca sem psiquiatra.

Tudo é uma ilusão mas sabe bem. É como comer canja de galinha a imaginar pato confitado em molho de amoras. Sendo pobre não imagino maior liberdade que esta. Tenho acesso a tudo o que quero ler,ver,pesquisar, ouvir, partilhar.

Sabemos que as grandes empresas de que gostamos tanto (Google, Facebook, Twiter, Amazon, Ebay, Uber, Airbnb, Youtube e até o Tinder) às quais temos acesso sem restrições – ou a qualquer website que queiramos visitar – fizeram de nós voluntários produtores de conteúdos. Elas controlam e sabem tudo a nosso respeito. Tudo mesmo.

Privacidade? Sim sim…Se pesquisamos por um objecto fálico que faz massagens aos pés, ou comprimidos que auxiliem a libido nunca mais nos vemos livres da empresa “motherfoca” que os vende e envia pela Uber dos correios sem marcas distintivas…a privacidade ficou em 1918 escondida no meu diário com cadeado lembram-se?

Já imaginaram se um dia destes a neutralidade e acessibilidade da internet -que tem sido um facto sem discussão e verdadeiramente nos faz estar todos interligados – nos for retirada? Para a ela termos acesso teremos de pagar X ,mas se quisermos ter acesso ao facebook, ao twiter, ao amazon (ou outras) temos de pagar X + Z? Ou seja, se ela for vendida em pacotes por grupos de empresas que contribuem para esta nossa imensa e ilimitada “liberdade”?

Os estados pouco evoluídos da América do Norte preparam-se para votar esta proposta.

Portugal, apesar de pertencer à UE – que defende a internet sem restrições para todos os seus cidadãos – tem lacunas na sua lei, por isso, as grandes corporações podem vir a descobrir essas malhas labirinticas e de repente caçar-te num pacote.

Se não pagas não acedes, ou tens um acesso muito lento obrigando-te por isso a sair ou a comprar.

Como li por aí “é como ter operações stop na estrada e pagares para passar”.

Ou ainda, imaginem que estão num avião e só os lugares da frente têm direito a ser salvos em caso de despressurização. Ou ainda, a partir do assento 20 B C e D a internet passa a ser mais lenta ou restrita, tá legáu?

A Organização para os Direitos Humanos declarou o ano passado que a internet é um serviço universal a que todos têm direito (incluindo os pobres e os remediados ou seja os 99% de nós produtores de conteúdos que oferecemos os nossos dados voluntariamente) e nenhum governo ou corporação a poderá limitar ou interromper.

A Banca não é regulada mas o que eu quero ver sim. Querem escolher por mim o que vejo…Pois bem, não digam que não avisei.

Vigiemos meus irmãos! diz-vos deste palanque uma fiel utilizadora 2.0 que por milagre nasceu plebeia.

O “big brother não apenas está de olho em ti, também te quer controlar no acesso ao que te une aos outros. E não, não o faz por amor.

Abraços reconchudos de bites.

Digite ámem se quer uma internet livre.

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