A Grandolar por aí tirando retratos

Preambulando

“Fascismo nunca mais” não é uma hastag, nem um slogan vazio. É um pensamento que atinge muitos de nós, por medo do tempo de horror que se viveu em Portugal. A Idade das Trevas. Da miséria, da morte, das perseguições. Por esta altura do ano, repito um texto que escrevi sobre esses tempos. Nunca é demais relembrar. Porque “eles” os fascistas andam aí…

Como seria bom regressar à vida antes do 25 de Abril? Há quem manifeste o desejo de voltar a ter clones de Salazar no poder. “Nesse tempo é que era bom”. Até se elegeu a sinistra figura como personalidade do século XX. Só se for do mal. Porque como espécie ainda não aprendemos a ser humanos. 

O contexto

No dia 24 de Abril de 1974 eu era ingénua e desconhecia. Estava prestes a completar dez anos, vivia em Portugal desde os cinco, vinda da Guiné-Bissau, com os meus avós paternos, Portugueses e brancos, numa casa cheia de livros, piano, sapatos, roupas, frequentava um colégio privado onde aprendia Francês e Inglês e até já tínhamos uma televisão oferecida pelo meu pai, vivendo na distante Angola, por onde vimos a Apolo 11 alunar, e Armstrong caminhar na lua como se voasse, por causa da gravidade. 

E a gravidade em Portugal onde estava? Estava no modo de vida que a todos afectava excepto a uma elite minoritária. 

Imaginem todos os retratos

Desconhecia Grândola e as canções censuradas, desconhecia Catarina Eufémia assassinada pela polícia do regime de Salazar. O meu avô falava-me de Humberto Delgado e deu-me a ler “Quem matou Humberto Delgado” que acusava a Pide. Mas eu não entendia os factos. Era uma realidade muito estranha. Um universo paralelo diria. 

Desconhecia o facto de mulheres não poderem votar, nem divorciar-se, nem viajar sem autorização dos maridos. Ter passaporte ou sequer estudar apenas se destinava a pouquíssimos privilegiados. As que estudavam seguiam a via do Ensino. Podiam ser Professoras. Se casavam deixavam a vida que tinham, como o fez a minha avó, ao deixar o Teatro D. Maria onde trabalhava como actriz, com a Amélia Rey Colaço. Dizia-me ela com uma pena profunda “uma senhora casada não podia pisar o palco”. E as telefonistas? não se podiam casar, porque falavam com muitos homens ao telefone…

A única profissão em alta no feminino era claro está, a prostituição.

Desconhecia haver uma elevada taxa de mortalidade infantil e materna. Desconhecia não haver Professores nem médicos para todos. Nem Planeamento familiar. Deixava-se ao critério da Nossa Senhora de Fátima a encomenda dos filhos que ela quisesse. 

Deixava-se ao cuidado da Senhora de Fátima a fome. Como a que passavam três pastorinhos aos quais trouxe até visões – apanharam-na a sachar oliveiras na Cova da Iria. 

Os padres chamaram um figo à história e o resto é história para bem do regime que com a fé matava a fome dos Portugueses.

Desconhecia que a Igreja mantinha quem pecasse, e/ou toda uma população, submissa, controlada e medrosa do inferno. 

E o pecado podia ser tudo. 

Desconhecia o trabalho infantil. Desconhecia que a maioria ao matabicho comia figos secos e aguardente, sopas de cavalo cansado (o álcool dava torpor suficiente para esquecer as contracções do estômago com fome), ao almoço uma açorda com um raminho de hortelã e ao jantar toucinho com uma bucha de pão e uma malga de sopa. O pão sempre salvou os Portugueses. 

Desconhecia que a maioria dos Portugueses andava descalço, vivia em casas sem casas de banho e não tinha roupas para mudar. 

Um quase romance de Dickens era o cenário que se vivia na República encostada às cordas do Atlântico. 

Desconhecia que o meu pai tinha seguido numa viagem longe lá na longínqua Guiné-Bissau, para um guerra contra irmãos. Rapidamente se tornou civil seguindo a arte do piano que a mãe lhe tinha ensinado e como um homem de esquerda, determinado em fazer cair o regime. Lá chegado casou com uma local de origem Cabo-Verdiana e Portuguesa, a minha mãe, tendo eu a primogénita nascido naquele farto chão de filhos, tal como Amílcar Cabral, que se iria munir de todas as razões para se revoltar contra o colonialismo irmão gémeo do fascismo, exalado da Metrópole. 

As células de homens anti-regime colonial e fascista (um não se dissocia do outro a menos que sejamos esquizofrénicos) movimentavam-se na minha terra Guiné-Bissau. 

Eu desconhecia. Se soubesse teria ficado orgulhosa. Em Portugal desconfiava que o meu avô gostava que o filho fosse de esquerda embora não o pudesse manifestar, por razões óbvias. 

Nesse período ele preparava uma menina preta que viria a ser mulher, para enfrentar uma vida dura dentro de um regime fascista e colonial. Eu. Não era coisa pouca. 

Desconhecia todas as dificuldades que ele enfrentava. 

Desconhecia que morriam por lá uns e outros, filhos de cá e filhos de lá, que também eram filhos de cá por serem Portugueses filhos do Império colonial. Filhos esses que desconheciam as razões de se querer manter de pé um Império Ultramarino. 

O Império estava por um fio, vivendo em guerra civil. Irmãos contra irmãos. 

Desconhecia o porquê da tendência feminina da moda ser o lenço preto e o bigode. Tudo no vestir das mulheres tinha a mesma razão: pudor, culpa do corpo, esconder ser mulher. Passar despercebida, ser recatada e do lar. 

Desconhecia as prisões arbitrárias do regime por se ser comunista ou ser contra o regime fascista e contra o colonialismo. Desconhecia as razões da submissão e do viver de cabeça baixa, ou até olhando por cima do ombro, desconfiados. 

Desconhecia as razões do silêncio, do medo e da existência de uma rede de informantes, cidadãos comuns – vulgo bufos, que eram às centenas. 

Podia ser o vizinho do lado. Quem fosse opositor do regime tinha o Tarrafal, Caxias, Aljube ou outras prisões, lugares de torturas abjectas e morte como bem as conheceram os comunistas. 

Desconhecia a existência da censura, do controlo, da proibição de canções e de livros. 

Desconhecia os ordenados miseráveis, a fome, a miséria, a pobreza extrema, apesar de não haver dívidas e os cofres estarem cheios. Os soldados iam para a guerra ganhando uma miséria. 

Dentro da classe militar havia grandes disparidades nos ordenados criando tensões profundas. Seria o sinal de partida do 25 de Abril. Os únicos que tinham o poder das armas nas mãos para concretizar uma revolta. Zeca Afonso tinha a canção. 

Desconhecia a existência de uma elite que viajava, estudava, detinha as grandes empresas ligadas ao regime, em Portugal e nas então colónias do império, que detinham o monopólio da exploração das terras (caso do Alentejo) e que naturalmente não queriam que se desmoronasse o império tão arduamente construído sob as costas dos povos oprimidos lá longe e do povo Português. 

Desconhecia o sub-desenvolvimento nas mentes e na qualidade de vida inexistente. 

Desconhecia que o trabalho era sobretudo manual, pouca indústria e menos ainda em serviços. 

Desconhecia que a maioria das famílias partilhavam a mesma cama para dormir. 

Desconhecia que não havia eleições livres. Desconhecia que a maioria da população, num país de cofres cheios era votada ao analfabetismo. 

Desconhecia que as cidades eram poucas, resumia-se o país a pequenas aldeias. 

Desconhecia que mesmo não havendo dívida e os cofres estarem cheios de ouro havia falta de estradas, falta de transportes, falta de saneamento básico e água de péssima qualidade. 

Desconhecia que a Dona Liberdade era uma miragem e uma utopia, pensada apenas por poucos, loucos, poetas e cantores. 

Este era o país que eu desconhecia, onde eu vivia no dia 24 de Abril de 1974. 

O que eu conhecia?

Fui uma privilegiada. Não me faltou nada apesar de perceber alguma da pobreza à minha volta e os sacrifícios que faziam os meus avós para que nada faltasse. 

Desconhecia que eram contra o fascismo e o colonialismo, porque não se falava do assunto. 

A mim tocou-me conhecer muito bem o racismo. Na pele.

Era das poucas pretas a viver no meu país de nacionalidade e origem do Império. 

Todos os que tinham cor tom chocolate de leite ou chocolate com avelãs ou galão eram invariavelmente sacos de boxe dos ignorantes. 

O país era racista contra os poucos pretos que viviam por cá. 

O medo do desconhecido, o medo da cor escura como a noite assustava. O medo daqueles que todos se tinham habituado a ouvir dizer serem os “inferiores”. 

O olhar por cima do ombro de quem lhes podia roubar a miséria que tinham. 

“Vai para a tua terra”, “preta da Guiné, lava a cara com xulé”. Eram os hashtags sociais. 

Desconhecia as razões. Sabia que tinha tido de fazer um exame nacional como aluna externa apesar de ser a melhor aluna da classe. Intrigada fiz perguntas. 

O meu avô teve de pedir uma autorização especial ao Ministério da Educação. 

A escola não me queria levar. Soube mais tarde que tinha a ver com a minha cor de pele. Uma menina preta não podia ser aluna de quadro de honra…

Uma prima que tenho, foi a primeira mulher em Portugal a formar-se em Engenharia de Máquinas. É preta. Podem imaginar o que ela passou? 

Era suposto ser inferior pela cor, e por ser mulher. 

Eu desconhecia as razões, mas conhecia a realidade. 

25 de Abril

As informações sobre alguns paradoxos da vida neste território chegavam-me por intermédio do meu avô, a conta-gotas. 

No dia 25 de Abril, acordei e fui para a escola como habitualmente. 

Pouco depois apareceu o meu avô para me levar para casa. Em vez de seguirmos para casa, levou-me para a estrada, juntámo-nos ao resto do povo como nós, apesar da ordem contrária do Movimento das Forças Armadas. Estávamos em modo desobedecer. 

Fomos ver a Dona Liberdade desfilar. 

Foi quando ele levantou o véu. Havia um golpe de Estado. E o véu levantava-se sobre todas as coisas que eu desconhecia. 

Foi quando eu e centenas de pessoas vimos com os olhos brilhantes e o coração desenfreado passarem os tanques em direcção a Queluz. 

Seria um alívio na tensão da respiração do regime moribundo?

No dia 24 de Abril eu era ingénua e só sabia o quanto desconhecia. 

Colónias

No dia 24 de Abril o regime de Portugal nos territórios ultramarinos fazia o papel do mau padrasto. Não de pai biológico. Tinha sido senhorio por cinco séculos. Cinco. 

Apossou-se, impôs-se e cobrou renda através de um regime duro e violento. Enviando os seus filhos para combater os irmãos. Dezenas de milhar morreram por lá na guerra civil. Por cá outros milhares morriam de pobreza. 

Uns queriam libertar-se do pai tirano. Outros não sabiam o que andavam por lá a fazer. Diziam-lhes que combatiam terroristas. 

Nas minhas férias na Guiné-Bissau eu brincava com “terroristas portugueses” e portugueses que não eram terroristas mas albergavam imensos terroristas no seu seio. 

Um deles até era meu pai. 

Eu desconhecia a diferença. 

O regime apelidava Amílcar Cabral de terrorista. 

Quanto mais tirano é o pai, mais unidade cresce entre os irmãos para rasgarem laços e se tornarem livres. 

Mães e pais ficaram sem os filhos. Os meus avós morriam de medo que o seu único filho morresse na guerra. E com ele toda a família que ele tinha criado para si com mais duas netas depois de mim. 

O medo era o prato principal servido diariamente em todas as mesas Portuguesas. 

As guerras coloniais eram guerras perdidas como o são todas as guerras. 

Apenas trazem benefícios aos que não estão no campo de batalha.

Fazia-se guerra para manter o Império. 

Assim era em todas as nações Europeias que tinham impérios. O caos no mundo pós Segunda Guerra Mundial. 

Portugal, foi o último a deixar cair o seu vergonhoso império. 

Lá longe, Mondlane o pai do movimento de libertação em Moçambique era assassinado antes da Independência do seu país. 

Amílcar Cabral era assassinado antes de ver a Independência das nossas terras Guiné-Bissau e Cabo-Verde. 

Tinham dado a vida por aquela que tinha sido a utopia dos irmãos da libertação. Ver os seus países livres e independentes do jugo do regime colonial. 

Eu desconhecia os factos à data da Revolução dos cravos. 

Epilogando,

No dia 25 de Abril de 74, quando me dirigia à escola, um cabo de nome Alves da Costa dentro do seu blindado recebeu ordem dos militares pró-regime para atirar sobre Salgueiro Maia, o insurrecto que na Rua do Arsenal comandava as tropas rebeldes. 

O cabo Alves da Costa desobedeceu juntando-se aos insurrectos. 

E o resto é História. O dia esperado por tantos, em tantos territórios, tinha chegado. 

No ano de Mil Novecentos e Setenta e Quatro, no dia Vinte e Cinco de Abril, foi o dia em que os filhos do pai biológico lhe desobedeceram e retiraram o poder de tiranizar os filhos. Finalmente passaram para o lado dos restantes irmãos ajudando-os a libertarem-se.

Foi do dia 25 de Abril, na rua, junto do povo Português que eu comecei a entender em que país vivia. Estava a ganhar a Liberdade e a consciência enquanto ia perdendo a ingenuidade. 

Este foi um sabor indelével. Absorvia, observava e vice-versa, sem entender. 

E perguntava “avôzinho, agora também vão deixar de ser racistas?”

Foi nesse dia que comecei a ter percepção sobre a razão de tanto racismo contra mim. Sem o entender mas a ver o quão incrustado no adn Português o regime de Salazar tinha conseguido marcar (indelevelmente?) um povo. 

Talvez até que gerações novas transformem o sangue doente com transfusões de sangue limpo.

A vinda de mais de um milhão de refugiados de guerra das ex-colónias do Império, a maioria nascida por terras além-mar, que nunca pensaram de lá sair, conta a história de como estes foram descriminados cá, também esta a sua terra, por todas as razões que eu começava a ter consciência – o Portugal que havia até Abril de 74. 

E sim o racismo também acontecia nas ex-colónias. Eu desconhecia. 

Portugal era um Estado que matava os opositores, estava atrasado, sub-desenvolvido, mantendo na pobreza a maioria da sua população, era não cristão apesar de medulamente católico por interesses estratégicos de controlo, que maltratava a sua população.

Um país profundamente anti-feminista, colonialista, racista, capitalista e fascista. As bactérias “istas” que destroem vidas humanas. E ainda dizem que era bom? 

Foi nesse dia que eu comecei a entender que não queria regressar nunca mais ao país do dia 24 de Abril de 74, que até então desconhecia. 

Estejamos atentos e tenhamos cuidado, o perigo mais que espreita à porta, adentra-se na casa. E isso já não desconheço.

“Fascismo nunca mais”!

Anabela Ferreira

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