“Já agora mate-me”

Vivemos no palco o drama de sermos uma nação tão fingidora quanto o poeta, que nega a existência dos seus crimes e dramas. Estes encontram-se cristalizados, corrompem-lhe a alma, segregam a bílis acumulando veneno no fígado.

Até que a morte nos separe, este é o voto de casamento do ser Português.

Fizemos um voto de casta idiotice, entretendo-nos com big brothers e outros folclores – as drogas de esquecimento – sacudindo, menorizando, negando, enterrando todo o corpo no areal.

E os dramas? E os podres? Estão assentados no subconsciente colectivo. Na consciência não cognitiva. A aguardar levantar-se, um dia chega o seu momento de palco. A catarse far-se-à quando emocionalmente maduros nos reconhecermos. Ou não. Povo de brandos costumes? Dócil, que se misturou sem preconceitos com os demais? Basta um pequeno poder para a arma ser sacada do coldre e o ódio vomitado.

Por baixo do nosso tapete, o lixo acumula-se como gordura na cintura quando o metabolismo não é regulado e a merda não se descarrega do intestino grosso.

Passa-se com os mitos dos achamentos, da escravatura, da colonização, da descolonização, dos Távoras, dos judeus odiados, das perseguições da Santa Inquisição, do fascismo, do racismo, do salazarismo e seu estado novo, de protecção às pequenas grandes famílias privilegiadas, das histórias contadas nos cadernos do ensino oficial, de Fátima nunca desmascarada, a violência sexual em forma de abuso de poder, a violência doméstica mascarada no falso sorriso, do clientelismo, à cunha, os crimes da pide, da prostituição, da pedofilia, do ballet rose à casa pia, da morte de Humberto Delgado, da papel da cia no 25 de abril, da morte de Sá Carneiro, dos tráficos, dos papéis escondidos em paraísos fiscais, dos enriquecimentos ilícitos, a corrupção nunca investigada na política, na banca, e na vida social em geral, as negociatas com os palop´s pós independências, das condecorações de comendador a vilões, ladrões e outros istas, à glorificação de ladrões de casaca e botões de punho em camisa branca, até ao assassinato de Catarina Eufémia.

A 19 de Maio a ceifeira numa propriedade em Baleizão, mãe de três filhos, carregando o de oito meses, dirige-se com outras mulheres ao proprietário com a reivindicação ”trabalho e pão”. A guarda foi chamada. O guarda Carrajola, posteriormente julgado, absolvido e condecorado com a ordem militar de Avis, dá-lhe uma chapada que a atira ao chão. Levantando-se, sem qualquer poesia nas palavras Catarina Eufémia diz-lhe “já agora mate-me”, ao que o guarda responde com três tiros.

Somos todos Catarina Eufémia porque ceifamos, apenas queremos “trabalho e pão” recebendo um tiro nas costas, ainda hoje.

Devíamos ser todos Catarina Eufémia, com a sua coragem, não deixando varrer mais lixo para o já gordo tapete.

Como nos usam para fins ilícitos “já agora matem-me” – como Hamlet quero ver desvendados todos os mistérios da peça do teatro envenenada desde a sua fundação.

Anabela Ferreira

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