O racismo e o 25 de Abril de 1974

É vital que o passado não volte nunca mais. Nunca é demais clarificar a História, feita de factos e versões. Algumas versões só agora estão a ser retiradas da escuridão onde as mergulharam.

O mundo ocidental – concretamente os povos Europeus – a partir do século XV andou por aí a encontrar lugares e neles assentou praça. Tinham armas modernas e junto com elas uma bíblia para catequizar os povos selvagens (segundo eles diziam) que encontravam.

Nos lugares que acharam, contavam-se civilizações avançadas de povos com diversas formas de cultura e religiões sofisticadas (que nem sabiam da existência desses tais europeus, brancos).

Estes achadores, ordenaram que se criasse uma nova estrutura de sociedade legalizada – inédita até então:

-Separassem- se os povos achados e rapidamente oprimidos, escravizados, inferiorizados, desumanizados e suprimidos da sua identidade, por terem a cor preta.

Nunca antes tinha acontecido. E a isto se chama racismo estrutural.

Escravatura sim, já tinha existido, baseada na cor da pele, para o resto da vida dos escravizados, levados além Atlântico, nunca.

A sociedade ficou estruturada com base nesta descriminação:

-os brancos nas prateleiras superiores e os pretos nas prateleiras inferiores.

Declaração – foi com a palavra preto que me tentaram denegrir é por isso com a palavra preta que me visto e uso, por orgulho da cor.

Mais tarde a História no século XX reconta-nos como é fácil escolher um grupo para se odiar, diminuir, descriminar, destituir de humanidade para subjugar e cumprir uma agenda obscura de conquista de poder.

Não existe racismo reverso porque nunca existiu uma sociedade estruturada na diferença de cor – onde a cor branca fosse inferior e a preta superior.

Daí a necessidade de ajustar Abril de hoje à promessa de Abril de mil novecentos e setenta e quatro – a liberdade de existir e a não descriminação de nenhum povo com base na sua cor com o final da colonização e com ela a opressão dos povos africanos.

Os povos africanos foram invadidos, dominados e colonizados (e tudo o mais que disse no terceiro parágrafo ) sem nunca causarem a ameaça de sobrevivência a ninguém.

E sim, os seus territórios eram muito ricos e tinham muitos recursos.

Os povos ocidentais, os tais Europeus exemplares, apossaram-se de território e riqueza para explorarem ( até hoje exploram) à revelia dos povos ocupados.

A colonização Portuguesa que acabou a 25 de Abril de 1974, começou com a escravatura e transformou-se num sistema de capitalismo que continuou a favorecer sempre os que estavam estratificados como superiores:

-os brancos.

Claro que a estrutura racista se manteve até hoje. Não faz parte da lei, mas faz parte do subconsciente colectivo. Foram muitos séculos bem cimentados.

O apartheid na África do Sul caiu da letra da lei, como na América do Norte ou no Brasil, mas ainda não caiu da ideia inconsciente e consciente dos povos que se perceberam superiores por séculos.

Como exemplo recente temos a descriminação sofrida por refugiados de cor preta na fuga da guerra na Ucrânia.

Os refugiados pretos de todas as guerras são os filhos de um sub – Deus bem menor. Um Deus autista, que nem os vê.

Como quando os povos europeus espalhavam o seu credo racista por entre os povos que encontravam e exploravam.

Em Portugal continua também a ser assim. Neguem se quiserem. O pior cego é aquele que nega e desmente as evidências só porque não as quer ver.

Porque há quem continue a beneficiar da estrutura – os brancos.

Há poucos dias aconteceu um ataque, de novo, com um jogador de futebol.

Se não fôssemos racistas como colectivo e individualmente, não elegeríamos doze deputados que consideram a existência de grupos inferiores. Pela sua cor e, ou etnia.

Se não fôssemos racistas nunca nos passaria pela cabeça insultar alguém chamando-a pela sua cor de pele. Sim é preto, essa é uma evidência factual, incontestada. E depois? Se tentamos inferiorizar e humilhar alguém por causa da cor, usando tom de raiva e contexto malicioso isso tem um nome:

-racismo!

Se estou zangada com eles não chamo os meus amigos brancos pela cor da sua pele. Além de serem brancos, nunca foram inferiorizados nem humilhados por serem brancos. O sistema que criaram, esse sim, cria toda a raiva e ódio.

Mas não racismo de pretos contra brancos.

Não esqueçam – não existe racismo reverso porque nunca existiu um sistema estruturado na inferiorização do grupo de seres humanos de cor branca. Eles são e sempre foram privilegiados.

O meu combate até deixar de existir neste corpo, será sempre este. Relembrando os ideias de Abril pela liberdade, o não regresso ao fascismo, ou qualquer sistema que ainda inferioriza alguém de cor diferente e/ou por ser mulher. Sistemas contra os quais tenho total intolerância.

Sistemas que só caem se todos ajudarem a fazê-los ruir.

Para este combate, todos juntos, de todas as cores e géneros, somos poucos.

O que me assusta? Perceber que todos os sistemas estão vivos e com saúde. São ovos de serpente que se espalham e germinam.

Toda a atenção é pouca.

Um dia esperanço que seja totalmente purgada do pensamento colectivo a ideia de uma cor superior a outra.

Ou de um grupo sobre outro. Ou de um género sobre outro.

Foi esta a luz que se acendeu no dia 25 de Abril de 1974 dentro da escuridão que reinava até à data dentro dos três sistemas que estruturavam a sociedade Portuguesa: o racismo, o fascismo e o patriarcado.

Porque somos seres em evolução e em construção, só temos esta opção – a de evoluirmos juntos, sendo vital jamais regressarmos ao passado.

Anabela Ferreira

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