A Grandolar por aí

Como seria bom regressar à vida antes do 25 de Abril?

No dia 24 de Abril de 1974 eu era ingénua e desconhecia.

Desconhecia Grândola e as canções censuradas, desconhecia Catarina Eufémia assassinada pela polícia do regime de Salazar. Desconhecia o facto de mulheres não poderem votar, nem divorciar-se, nem viajar sem autorização dos maridos. Nem sequer estudar.

Desconhecia que havia uma elevada taxa de mortalidade infantil e materna. Desconhecia não haver médicos para todos, nem Professores. Nem médicos.

Nem Planeamento familiar deixando ao critério da Nossa Senhora de Fátima a encomenda dos filhos que ela quisesse. Incluindo a fome que passavam três pastorinhos aos quais trouxe visões.

Desconhecia o trabalho infantil.

Desconhecia que a maioria comia ao pequeno-almoço aguardente e figos secos, sopas de cavalo cansado, ao almoço uma açorda com um raminho de hortelã e ao jantar toucinho com bucha de páo e uma malga de sopa.

Desconhecia que a maioria dos Portugueses andava descalço vivia sem casas de banho e não tinha roupas para mudar.

Desconhecia que o meu pai tinha seguido para uma viagem longe, lá na a longínqua Guiné-Bissau, para um guerra contra irmãos. Que lá chegado casou com uma das locais, tendo eu a primogénita nascido naquele farto chão de filhos como Amílcar Cabral que se iria munir de todas as razões para se revoltar contra o colonialismo irmão gémeo do fascismo.

Desconhecia que morriam por lá uns e outros, filhos de cá e filhos de lá que também eram filhos de cá, filhos esses desconhecendo as razões de se querer manter de pé um Império Ultramarino.

Desconhecia a razão da tendência da moda ser o lenço preto e o bigode feminino.

Desconhecia as prisões arbitrárias do regime por se ser comunista ou ser contra o regime fascista e contra o colonialismo. Desconhecia as razões da submissão e do viver de cabeça baixa, ou até, olhando por cima do ombro, desconfiados.

Desconhecia as razões do silêncio, do medo e a existência de uma rede de informantes, cidadãos comuns – vulgo bufos, que eram às centenas, podia ser o vizinho do lado.

Desconhecia a existência da censura, do controlo e da proibição das canções e dos livros. Desconhecia os ordenados miseráveis, a fome, a miséria, a pobreza extrema, apesar de não haver dívidas e os cofres estarem cheios.

Desconhecia a existência de uma elite que viajava, estudava e detinha grandes empresas ligadas ao regime que não queriam que o regime acabasse.

Desconhecia o sub-desenvolvimento nas mentes e na qualidade de vida.

Desconhecia que a Igreja mantinha quem pecasse, toda uma população, submissa, controlada e medrosa do inferno. E o pecado podia ser tudo.

Desconhecia que o trabalho era sobretudo manual, pouca indústria e menos ainda nos serviços.

Desconhecia que a maioria das famílias partilhavam a mesma cama para dormir. Desconhecia que não havia eleições livres. Desconhecia que a maioria da população, num país de cofres cheios era votada ao analfabetismo.

Desconhecia que as cidades eram poucas e apenas pequenas aldeias. Desconhecia que mesmo não havendo dívida e os cofres estarem cheios de ouro havia falta de estradas, falta de transportes, falta de saneamento básico e água de péssima qualidade.

Desconhecia que a Dona Liberdade era uma miragem e uma utopia, pensada apenas por poucos, loucos, poetas e cantores.

Este era o país que eu desconhecia, onde eu vivia no dia 24 de Abril de 1974.

Apesar de conhecer alguma da pobreza e sobretudo conhecer muito bem o racismo.

Porque era das poucas pretas a viver no meu país. De nacionalidade, dos meus avós e do meu pai.

Desconhecia que todos eles eram contra o fascismo e o colonialismo, mas eu ainda não sabia.

Porque já chegava o racismo que eu sofria na pele. Era poupada sobre os detalhes. As informações sobre alguns paradoxos chegavam-me por intermédio do meu avô, a conta-gotas.

No dia 25 de Abril, acordei e fui para a escola. Pouco depois apareceu o meu avô para me levar para casa. Em vez de seguirmos para casa ele levou-me para a rua, apesar da ordem contrária do Movimento das Forças Armadas.

Fomos ver a Dona Liberdade desfilar. Foi quando ele levantou o véu. Havia um golpe de Estado. E o véu levantava-se sobre todas as coisas que eu desconhecia.

Foi quando eu e centenas de pessoas vímos de olhos brilhantes e coração desenfreado passarem os tanques em direcção a Queluz. Seria um alívio na tensão da respiração do regime moribundo?

No dia 24 de Abril eu era ingénua e quanto eu desconhecia.

No dia 24 de Abril o regime de Portugal nos territórios ultramarinos fazia o papel do mau padrasto.

Não de pai biológico. Foi senhorio.

Apossou-se, impôs-se e cobrou renda através de um regime duro e violento. Enviando os seus filhos para combater os irmãos. Dezenas de milhar morreram.

Quanto mais tirano é o pai mais unidade cresce entre os irmãos para rasgarem laços e se tornarem livres.

Um bébé não sabe o que lhe irá acontecer após os nove meses no útero materno. Quando é obrigado a sair do seu meio, estrebucha, chora,grita e por fim liberta-se. Começa um ser novo.

Os irmãos estavam prestes a deixar o útero, a estrebuchar, a ver como os horrores da guerra a todos tirava vida.

As guerras coloniais eram guerras perdidas como o são todas as guerras. Apenas trazem benefícios aos que não estão no campo de batalha.

Mondlane (assassinado antes da Independência de Moçambique) e Amílcar Cabral (assassinado antes de ver a Independência da nossa terra), tinham dado a vida por aquela que tinha sido a utopia dos irmãos da libertação.

No dia 25 de Abril, quando me dirigia à escola, um cabo de nome Alves da Costa dentro seu blindado, recebeu ordem dos militares pró-regime, para atirar sobre Salgueiro Maia, o insurrecto comandando as tropas insurrectas, na Rua do Arsenal.

O cabo Alves da Costa desobedeceu juntando-se aos insurrectos.

E o resto é História.

O dia esperado por tantos tinha chegado.

Em Mil Novecentos e Setenta e Quatro, no dia Vinte e Cinco de Abril, o dia em que os filhos do pai biológico lhe desobedeceram, retiraram o poder de tiranizar os filhos, finalmente passaram para o lado dos restantes irmãos e ajudaram-nos a libertar-se.

E foi do dia 25 de Abril, na rua, junto do povo Português que eu comecei a entender em que país vivia. Estava a ganhar a Liberdade perdendo a ingenuidade. Um sabor indelével.

Foi nesse dia que entendi a razão de tanto racismo contra mim. Porque Portugal era assim – um Estado que matava, atrasado, sub-desenvolvido, não cristão mas profundamente católico, que maltratava homens, mulheres e crianças, anti-feminista, colonialista, racista, fascista.

Foi nesse dia que eu entendi que não queria regressar nunca ao país do dia 24 de Abril, que até então desconhecia.

Anabela Ferreira

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