A Vénus Africana, Sally Hemings

“Mais poderosa que qualquer exército é uma ideia cujo tempo chegou”, Victor Hugo 

Morreu na fazenda Monticello, Virgínia, em 1835 com sessenta e dois anos, escrava. Sally Hemings, a mulata mãe de seis filhos escravos. Todos libertou.

Um rio tomou conta de mim. Lançou-se por mim, dentro de mim, passou por escolhos, roubou troncos, pintou-se de lama, clareou e correu. Livre. Tinha uma ideia só. Ser livre. 

O meu corpo nunca foi livre, mas eu sim. Nunca deixei de ser. Experimentei a liberdade como o rio que corria dentro de mim. O tempo chegaria. 

Eles os brancos tinham o privilégio da cor. Eram superiores, diziam. Desse princípio fizeram a lei mais injusta da terra. Mas nunca tiveram o privilégio de ser donos de quem sou. E eu sou mais do que uma escrava. 

O meu privilégio perguntam-se? Vivia junto da casa grande. Num quarto. Nele nasceram os meus seis filhos. Trabalhava na casa grande desde os seis anos.

Da minha vida tenho para vos contar umas histórias. Outras ficaram em segredo no meu coração. Serão apenas meus. Essa é a minha liberdade. Nunca ninguém me pintou nem fotografou, porém, um pintor inspirado numa minha bisneta, pintou o retrato com que vos presenteio. 

Diziam que eu era bela, fascinante. Transmitia segurança e confiança. Elegante. Não vos posso garantir sobre a beleza. Posso afiançar sobre um espírito forte e coragem.

Espreitei-me no espelho de Martha várias vezes e gostei da minha imagem reflectida. Talvez do que via me viesse a segurança. 

O meu dono, certamente gostava e não se envergonhava. Todos sabiam o que acontecia no meu quarto. Era comum, sabem? Por favor esperem, preciso de vos contar de onde vem o meu destino.

A minha avó Susana chegou a estas terras num navio negreiro. Foi comprada como escrava, no grande continente mãe de todos nós que viémos para estas terras, brancos e pretos, para as plantações. 

Forçada a entrar no navio “Dois irmãos”, zarpou com muitos outros homens e mulheres com as condições requeridas para o trabalho escravo, algures onde fosse.

Talvez pela sua juventude e beleza a minha avó foi dada como presente, numa visita do capitão do navio Inglês, Hemings, dono de uma plantação de tabaco. 

Fruto da violação que naquela data se chamava outro nome suave, menorizando a situação, uma vez que nós escravos não éramos humanos, sim seres inferiores à humanidade, nasceu a minha mãe Betty. 

Por sua vez oferecida a um homem das leis e negociante de escravos, John Wayles, viúvo de várias mulheres que a toma como sua concubina. 

Como era aceite e “natural” este homem tinha na minha mãe, uma jovem menina, uma reprodutora de escravos dele, tendo ela parido seis filhos, entre eles eu, Sally. 

John Wayles tinha outros filhos das suas falecidas mulheres.

Martha, uma das filhas de quem eu era meia-irmã mais nova, e, mais tarde me tornaria sua escrava/criada, apaixonou-se pelo jovem revolucionário Thomas que com ela se casou levando-a para a sua fazenda. 

Como prenda de casamento o meu pai e dono ofereceu-me a Martha minha irmã.

Foi assim que comecei nova vida, na fazenda Monticello, Virgínia, com dois anos de idade. Fui destinada ao serviço doméstico e serviço pessoal de Martha a partir dos seis anos.

Tinha doze anos quando a desgraça aconteceu. Martha morreu ao dar à luz uma filha (a sua terceira). 

Martha e Thomas já tinham duas filhas nascidas e uma que morrera ao nascer, de quem eu era tia.

O jovem revolucionário seu marido, Thomas Jefferson, homem das leis, confesso inimigo do Rei George II de Inglaterra, já com obra apresentada – a Declaração de Independência dos Estados da América – apaixonado por Martha, não conseguia lidar com o luto. 

Pediu para ser colocado em França como Embaixador para se poder afastar da fazenda que lhe causava tanta dor. 

Para Paris seguiram viagem com ele, o meu irmão, para aprender as artes da culinária francesa e, a filha mais velha Polly. 

Mais tarde, sabendo que precisava de uma escrava para as filhas e tendo a escrava escolhida ficado grávida, mandou-me seguir viagem com a segunda filha. 

Em Londres ficámos em casa do Embaixador da América até seguirmos viagem para Paris. 

A sua bondosa mulher comprou-nos a ambas roupas e tratou de nos preparar de forma rudimentar para vivermos em sociedade. 

Em Paris não existia escravatura e eu provaria o sabor da liberdade, mesmo sendo criada das minhas sobrinhas. 

Corria o ano de 1789, o ar Parisiense cheirava a revolução. Pude aprender a língua, a arte da costura, passei uma temporada numa casa dos criados de servir da casa grande e com eles aprendia. 

O meu dono, Thomas Jefferson pagava-me dois dolars ao mês por cuidar das filhas e fazer trabalho doméstico. 

Um dia o meu destino mudou, ligando-se ao da minha mãe e da minha avó. Thomas entrou no meu quarto. Eu tinha catorze anos, Thomas trinta e cinco. 

Não sabia o que ele queria de mim nem nunca soube. Sei que nunca mais enquanto viveu, deixou de entrar no meu quarto. Eu era uma criança e ele um homem. 

Repetia-se uma história sem piedade. Ser escrava reprodutora do meu dono. 

Estive vinte e seis meses em Paris e parti de regresso à América com a nossa primeira filha, Harriet. 

Podia ter ficado em Paris e recomeçado uma outra vida. Que vida seria a minha, sózinha, desprotegida, com uma criança nos braços e uma cor sem privilégios nem contemplações? 

Tinha de lutar por algo. A minha filha. Perante a minha insistência e determinação prometeu-me que daria a liberdade à nossa filha assim que ela completasse vinte e um anos. 

Era uma decisão muito difícil para mim no entanto só poderia escolher estar perto da minha filha e assegurar que não teria o mesmo destino que as mulheres da minha família.

Quando chegámos à América Harriet morreu. Continuei escrava a trabalhar na casa grande.

Thomas Jefferson, um dos “pais fundadores” da Nação, seguiu com brilhantismo a sua carreira como Governador até chegar à Presidência da América por duas vezes. 

Tido como anti-esclavagista, considerando-a até “abominável” – nas suas palavras – teve os nossos descendentes escravos, brancos, pretos e mulatos a comprovarem a paternidade deste com modernos testes de ADN em 1998.

De cada vez que Thomas Jefferson – Presidente dos Estados Unidos da América, “pai fundador” e autor da Carta de Independência – voltava a Monticello para estar com a família de quem sempre sentia a falta, já avô, visitava o meu quarto. A sua concubina escrava. 

Com ele tive seis filhos, todos registados por ele como escravos, no livro onde registava os mais de seiscentos escravos que teve, mas nunca como filhos. 

De cada filho que paria fazia-o prometer a liberdade aos vinte e um anos. Ao meu filho Madison, escravo na plantação, e, mais tarde tendo aprendido o ofício da carpintaria, contei toda a nossa história, para que ele nunca se esquecesse quem tinha sido o seu pai. Madison aprendeu a ler e a escrever como eu e registou toda a nossa história tendo-a já de idade avançada contado a um jornal quem ele era.

Um jornalista publicou a história da concubina do Presidente, história que atravessou o país. Thomas nunca desmentiu. Naquele tempo, foi um escândalo pelas razões que vos contei.

Era prática os donos dos escravos dormirem com quem quisessem. Mas não um Presidente que se dizia anti-escravos. 

Quando fizeram vinte e um anos, os meus filhos e filhas fugiram de Monticello. Como era prática corrente, os escravos fugidos eram mandados apanhar e regressar às plantações para receberem castigos e às vezes revendidos. 

Thomas cumpriu a promessa, nunca mandou ninguém atrás deles. Às filhas Beverly, Thena e Harriet II receberam dinheiro para seguirem para Norte, onde fizeram as suas vidas. Os filhos Madison e Eston ficaram pelo sul, fazendo vida como homens livres por parecerem brancos. 

Thomas morreu com oitenta e três anos e deu ordens para que eu continuasse a viver no meu quarto na fazenda até morrer. Assim foi. A mim nunca libertou. 

Eu? Fiz o melhor que podia pelos meus filhos.

A minha história corria na oralidade da época. Quando se referiam a mim diziam que eu era a Vénus Africana que tinha enfeitiçado um Presidente.

O meu segredo? 

Ninguém saberá se amei Thomas Jefferson ou se apenas aceitei o meu destino o melhor que podia, não contrariando a fluidez do rio que em mim corria.

Anabela Ferreira

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