Bom domingo de sol De volta aos contos criminais

Há por aí dois mil anos que o mundo anda dividido entre os que acreditam na Criação e os que acreditam na Evolução.

Continuamos até hoje a carregar o selo da divisão. O que tem isto a ver com o meu conto de hoje? Entrei no “rabbit hole” dos relacionamentos perversos e narcisistas, entre narcisistas, e entre narcisistas e suas vítimas. Há um mundo a explorar e descobrir. Entrar neste buraco e sentirmo-nos divididos a tomar partidos é muito fácil. Primeiro fiz a necessária e profunda investigação sobre este transtorno de personalidade. Garanto-vos que é a loucura absoluta no mundo do absurdo, porém real. Todos conhecemos casos. Abundam livros a canais no Youtube com analistas de linguagem corporal a psicólogos/psiquiatras especialistas em Narcisismo. É como ir à feira dos horrores. Desmistificar é preciso e a sociedade começa a abrir sobre estes assuntos escondidos debaixo de um sujo tapete, agora com necessidade de limpeza. Curiosa que sou, escritora que sou, qualquer assunto da mente humana é para mim relevante. Há verdadeiras vítimas e é para essas que vai a minha empatia. Precisamos continuar a acreditar na verdade contada por elas. Na sua grande maioria mulheres. No entanto, nem a violência tem género, nem os narcisistas que em regra procuram pessoas sensíveis e empáticas. Ou são apanhados por outros narcisistas.Há histórias com tantos contornos obscuros que é como entrar noutro “rabbit hole” para depurar um décimo da verdade, quanto mais a verdade. No entanto, ouçamos as versões ambas. Quanto mais não seja por puro interesse na natureza do ser humano, incrustado que está na razão e nas emoções ser dividido e manipulado. Por narcisistas. Uns são também psicopatas e matam por prazer, falta de empatia, por se julgarem divinos, donos de todo o poder e necessidade de controlo sobre as suas vítimas.Tenhamos consciência de que todo o psicopata é narcisista, mas nem todos os narcisistas são psicopatas. Se pensarem nas características e traços de personalidade agregados, imaginem a quantidade de narcisistas e de psicopatas à solta por esses governos fora…

Muita gente entra dentro do “rabbit hole” que é um relacionamento com um narcisista e/ou um psicopata. Outras são mortas por esse tipo de pessoas possessivas com este transtorno de personalidade sem cura. É muito difícil sair. Os testemunhos são da maior violência. De subjugação por medo. Por estarem controladas e receberem verdadeiras lavagens cerebrais (manipulação). Ninguém se julgue imune. Não, não é por amor. O amor não fala esta linguagem nem mata, nem estripa a vida do outro, esventrando-a por completo, em muitos casos chegando ao ponto de não retorno. Como vos disse, entrar na investigação deste assunto é cair num buraco de absurdos e loucura. Por outro lado basta olhar o número de vítimas mortais às mãos destes doentes mentais incapazes de amar, sabendo bem o que fazem.Deixo de fora o número de casos que estão neste momento a acontecer, os casos que a pandemia e o confinamento agravaram, e os casos que nem são reportados através de queixas. Um mundo assustador.Os narcisistas estão por todos os lugares. São omnipresentes porque fazem parte da espécie. Muitos foram vítimas de pais narcisistas e abusados ou negligenciados por estes. Noutros casos, há circuitos neuronais que simplesmente não estão ligados da mesma maneira. São inteligentes, até mesmo geniais, criativos, sedutores natos. Perigosos.De médicos, de loucos e de narcisos todos temos um pouco. Mas há limites. A maioria de nós sabe estabelecê-los. Os narcisistas, não.

Têm prazer em violentar a sua presa bombardeando-a com gestos de amor, isolando-a de todos, tapando-lhe todas as portas de fuga para depois a comerem sem dó nem piedade.Histórias também as há de relacionamentos entre dois narcisistas, logo duas pessoas muito doentes, que têm por missão destruir-se mutuamente. Este é um assunto inesgotável. Tenho diversas entrevistas e histórias terríveis que me provocaram uma agonia profunda. É preciso falar delas. Porque somos nós. Não há mulher que possa dizer que nunca recebeu uma tentativa de domínio por parte de um narcisista. Ou casos piores. A todas estas vítimas dedico este conto. Também há muitos homens com histórias semelhantes. Cada vez mais o véu vai destapando casos de ambos os lados. Homens e mulheres perdem a vergonha e começam a falar. Ouçamos. Se necessário, se descobrimos violência mesmo que escondida por um ou ambos os intervenientes, intervenhamos. Fazendo queixa. Por fim fiquei a saber que não há forma de sair facilmente de um relacionamento abusivo com um narcisista. O conselho dos especialistas resume-se a este: ao primeiro sinal de violência, controlo, insultos, projecção de desamor e quebra de amor próprio no outro, mesmo que peça desculpa de seguida, fuja rapidamente sem nunca mais olhar para trás. Um narcisista não tem cura, nem é salvo por ninguém, nem sequer por terapia. O narcisista tem prazer em controlar e subjugar. Não tem empatia logo só quer a presa como troféu usando a manipulação – falso amor – como isco. Se pudermos, se não estivermos demasiado absorvidos com o “rabbit hole” das nossas vidas, cuidemos uns dos outros. Há histórias que estimulam a minha quase perversa mente criminosa. Em vez de cometer crimes, escrevo-os…são baseados em histórias verídicas. Até à morte.

A violência não tem género. No início era o véu rosa coberto de amor, entrega,paixão, adoração,admiração e tesão. Rapidamente se desfizeram enganos. Estiveram casados dois anos de intensa vida conjugal. Intensa de violência doméstica no seu pior. Emocional, física, psicológica, sexual, de ambas as partes. Ambos faziam terapia, eram dependentes de todo o tipo de drogas (incluindo as legais e as obtidas com prescrição médicas). As práticas diárias eram de grande desinvolução para tornar feliz uma vida conjunta. Tinham ambos tanto dinheiro e estatuto de fama quanto ciúmes, obsessão, acessos de raiva, vulnerabilidade, traços narcisistas, de personalidades grandiosas e manipuladoras. À porta fechada o ódio era mútuo, tanto quanto os raros acessos de amor doentio que de saber amar nada tinham. Os excessos de emoções e consequente desequilíbrio emocional, a turbulência e instabilidade sucediam-se causando conflitos graves que deixariam ainda mais cicatrizes. O medo de abandono e a perda de identidade podiam instigar uma discussão, tanto quanto aparecer em qualquer altura do dia e da noite causando maiores abismos entre ambos. A destruição decorria a bom ritmo. Tinham a acrescentar marcas indeléveis de abusos profundos quando crianças, juntando a incapacidade e a negligência por parte dos pais, abusos esses causadores de traumas irreparáveis. Eram uma crónica anunciada de um descarrilamento prestes a acontecer sem que nenhum largasse o outro. Não eram vítimas a não ser de si próprios, os seus maiores e verdadeiros inimigos. Ambos dignos de pena que nenhum dinheiro conseguiria reparar.Num aniversário do seu romance guerra mais que paz, ela ofereceu-lhe uma faca com a inscrição “até à morte”. Procurava que um dia um acesso de fúria sob o efeito de drogas pesadas ele a esfaqueasse, quem sabe, a matasse. Não chegou a acontecer, apesar da maior parte dos dias serem alimentados pela violência, violência essa sugando a vida de cada um. Quem começava e as razões daqueles ciclos intermináveis, nunca ninguém soube verdadeiramente. Quem abusava e quem mentia ficaria guardado como um mistério nos segredos de ambas as mentes perversas. O instinto verdadeiramente violento de matar não chegou a despontar nele. Numa das suas inúmeras lutas no quarto, quando ela pensava que ele ia escapar-lhe de mais uma discussão, pegou na faca depositada em cima da mesa de cabeceira e com toda a sua força arremeteu-a para dentro do corpo perfurando-lhe o coração, matando-o de imediato. Histérica, como se estivesse fora do seu corpo, desempenhando um papel, chamou a polícia. Enquanto esperava a chegada dos homens da lei, sentou-se ao lado do corpo permanecendo serena. Viúva ficaria ainda mais rica. Narcisista que era, começava a fazer a matemática da situação calculando-a sem margem para erros.No final do julgamento muitas vítimas sobreviventes a violência doméstica sentiram-se verdadeiramente insultadas por sentirem que ela apenas tinha conseguido cometer e escapar com o crime perfeito. Uma narcisista diziam. Por outro lado, outros, regozijavam-se. Ela tinha sido uma vítima de um narcisista tinha sucedido no objectivo de terminar a vida de alguém muito violento e manipulador cujos crimes tinham sido bem escondidos, pois destes escapara à justiça, quase toda a vida.Em tribunal alegou legítima defesa, acusou-o de violência mesmo sem conseguir alinhar provas que não deixassem dúvidas da sua queixa. Os jurados deliberaram por poucas horas. Foi declarada inocente. Agora que era o centro das atenções, inocentada e sem remorsos, escreveria para o jornal a sua versão como vítima de violência doméstica. Quem observava tomava posições e dividia-se, como desde o início dos tempos. Como deuses narcisicos, julgamo-nos todos bons juízes e perfeitos jurados. Os dois personagens são um espelho reflectindo o humano que ainda está a aprender a ser. No final da história, há uma terceira via – morto e sobrevivente eram ambos dignos de pena.

Anabela Ferreira

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